Foi de shorts e com as pontas do cabelo pintadas de rosa que Kristen Stewart subiu ao palco do Festival de Cannes, o mais prestigiado do mundo, em maio do ano pretérito, para apresentar seu primeiro filme, “A Cronologia da Chuva”. “Hora de arrancar o esparadrapo e ver a porra do filme”, concluiu, sem muitos rodeios, o oração no qual repetiu a vocábulo “fuck” pelo menos cinco vezes.
A irreverência já é um traço divulgado da personalidade de Stewart, finalmente. Foi com essa atitude que a atriz se desvencilhou da mocinha taciturna que alcançou o estrelato entre 2008 e 2012, quando protagonizou a saga juvenil de vampiros “Ocaso”, para se tornar estrela de filmes independentes e um ícone queer em Hollywood.
Ela costuma quebrar o dress code de tapetes vermelhos ao usar tênis e roupas curtas e é fervorosa em seus discursos de denúncia ao machismo na indústria cinematográfica. Agora, com essa mesma vigor punk, faz sua estreia porquê diretora.
É que “A Cronologia da Chuva” não é mamão com açúcar. O longa adapta a autobiografia homônima da ex-nadadora Lidia Yuknavitch, em que ela conta sua jornada até se tornar escritora —passando pelo desfeita sexual sofrido na puerícia e pelo vício em álcool e drogas. Na primeira cena, uma das mais viscerais, a personagem, interpretada por Imogen Poots, está tomando banho, mas a câmera enquadra o sangue escorrendo pelo pavimento do chuveiro junto à chuva.
“Não há incerteza de onde [o sangue] veio”, diz Stewart, sentada no sofá de um estúdio em Cannes, um dia depois da exibição de seu filme. De óculos escuros e cabelo bagunçado, ela não nega que festejou na noite anterior. A vontade de harmonizar o livro, um fenômeno cult, para as telonas, surgiu há dez anos. Seu interesse estava na forma porquê Yuknavitch narrou os acontecimentos obscuros de sua vida, sem se preocupar em ser taxada de patética ou confusa, críticas que, segundo a diretora, são reservadas às mulheres.
“A memória vive e zero pelo cérebro, mas é totalmente elusiva. O traumatismo pode ser um som que ressoa incessantemente, a menos que você consiga transformar isso em um tanto que não te arraste para grave de forma devastadora. A sentença salva vidas”, diz. “Não é uma experiência exclusivamente feminina se sentir roubada, questionar sua voz interno ou se guiar pela vergonha. É só que tende a ser mais difícil para a gente, sabe o que eu quero expor?”
A pergunta era retórica. Posteriormente mais de duas décadas de curso porquê atriz, ela afirma que só agora, ao assumir a direção —um espaço ainda majoritariamente masculino—, passou a ser tratada, porquê diz, “porquê se tivesse um cérebro”. “A primeira coisa que uma atriz tem que fazer é se subordinar. De forma universal, atores homens podem guiar, liderar o caminho para todo mundo em termos de experiência. E as atrizes têm unicamente sorte de estar ali.”
Stewart se tornou uma voz proeminente na resguardo dos direitos das mulheres no cinema e na televisão. Em novembro, durante um evento da Chanel voltado a celebridades, afirmou que o movimento MeToo —que expôs a rede de assédio enfrentada por mulheres em Hollywood— não trouxe os resultados esperados e que, ainda hoje, as oportunidades na indústria audiovisual seguem escassas para elas.
É uma diferença de tratamento que ela percebeu cedo. Filha de um gerente de palco e de uma supervisora de roteiro, a artista cresceu em coxias de teatro e sets de filmagem em Los Angeles até conseguir seu primeiro papel com 12 anos, em “O Quarto do Pânico”, de David Fincher, em que interpretou a filha de Meg Altman, personagem de Jodie Foster.
A renome mundial veio ao encarnar Bella Swan nos cinco filmes da saga “Ocaso”, adaptações dos livros de Stephenie Meyer que se tornaram um fenômeno pop. Neles, Stewart dava vida a uma estudante que vivia um paixão proibido com o vampiro Edward, interpretado por Robert Pattinson. Os dois namoraram fora das telonas e a relação deu muito matéria para tabloides e sites de fofoca —mormente quando chegou ao termo, depois de um caso entre Stewart e Rupert Sanders, diretor de “A Branca de Neve e o Caçador”, produção que ela estrelou no papel da princesa em 2012.
“Foi difícil de mourejar. Quer expor, eu realmente não sei quem eu seria sem [‘Crepúsculo’]. Eu só tenho minhas próprias memórias para me fundar, mas as atrizes são tratadas que nem lixo”, diz ela, ao lembrar dos anos em que foi Bella.
A experiência bastou para que a atriz diga que não quer mais fazer blockbusters. O romance vampiresco deu à Stewart quantia e renome suficientes para que, nos anos seguintes, ela passasse a se destinar ao cinema independente, com papéis mais artísticos e emocionalmente carregados.
Ela já tinha oferecido umas escapulidas para trabalhar em “The Runaways”, no qual encarnou a rockeira punk e bissexual Joan Jett, e “Na Estrada”, adaptação do livro de Jack Kerouac dirigida pelo brasílico Walter Salles. Depois, contracenou com a diva do cinema gaulês, Juliette Binoche, em “Supra das Nuvens”, de Olivier Assayas. Estrelou ainda “Moca Society”, de Woody Allen, e “Certas Mulheres”, de Kelly Reichardt, ao lado de Lilly Gladstone. Em 2021, foi aclamada por encarnar a princesa Diana em “Spencer”, de Pablo Larraín, e foi indicada ao Oscar. Em 2022, fez o body horror “Crimes do Porvir”, de David Cronenberg.
Em entrevistas, Stewart tem criticado sem papas na língua os grandes estúdios e empresas de streaming, acusando-os de sufocar a sentença artística ao apostar repetidamente em fórmulas guiadas por pesquisas de audiência. Ela defende com fé a arte porquê um tanto talhado a sensibilizar, mais do que simplesmente entreter, e já afirmou que é preciso pensar no mercado ao comprar laranjas —não ao gerar.
Em 2017, Stewart afirmou publicamente ser bissexual. Desde portanto fez aparições em tapetes vermelhos de cabelos curtos e ternos, além de protagonizar longas que centralizam romances lésbicos —porquê a comédia natalina “Happiest Season” e “Love Lies Bleeding”, em que comete assassinatos ao lado de sua amante fisiculturista. “Ótimo”, interrompe a atriz, quando esta repórter diz que ela se tornou uma figura influente para a comunidade queer.
“Coloquei um objectivo nas minhas costas, na minha testa e na minha boceta. E se alguém quiser vir pegar, pode tentar com tudo”, diz, referindo-se ao progressão do conservadorismo nos Estados Unidos, em próprio no setor cultural. Enquanto Stewart fala, sua mulher, a roteirista Dylan Meyer, aguarda na varanda do estúdio. As duas se casaram em uma cerimônia reservada em abril do ano pretérito.
Para Stewart, apesar dos avanços da última dezena, o cenário atual é desfavorável para narrativas LGBTQIA+ no cinema. “Todo mundo deveria estar com pavor. Eu tenho muita sorte de poder falar disso em público”, afirma. Em uma das cenas mais sensuais de “A Cronologia da Chuva”, Lidia se envolve com outras duas mulheres. “Elas se tornam uma só”, diz a diretora, antes de se interromper, porquê se pensasse rápido demais e tivesse dificuldade de condensar suas ideias em frases.
“É importante entender o que você quer e por que quer. O filme é tão referto de vergonha, mas ela é processada e transformada em um tanto magnificiente. As mulheres recebem tanto lixo o tempo todo, tanta violação. Recontextualizar isso, tomar posse do próprio corpo e do seu orgasmo é vital, porque na maioria das vezes a gente quer o que quer porque estamos ferradas.”
Uma de suas cenas favoritas, não por possibilidade, é quando Lidia, excitada, se masturba e cheira a própria mão, sentindo-se poderosa, apesar do sofrimento causado pela sua sexualidade até portanto. O ato, de alguma forma, remete a “Multiple Orgasm”, curta experimental de Barbara Hammer já citado por Stewart porquê uma inspiração, que consiste em seis minutos de uma mulher se masturbando, com zoom em sua vulva.
Construído por cenas físicas porquê esta, “A Cronologia da Chuva” foi muito recebido em Cannes. Motivo de comemoração, simples, mas Stewart já estava satisfeita com o resultado de qualquer forma. “Confia no processo”, diz. A atriz, finalmente, não parece se importar muito com o que os outros pensam.
