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Leão Serva fragmenta corpos de xamãs em mostra no MIS
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Leão Serva fragmenta corpos de xamãs em mostra no MIS – 26/10/2026 – Ilustrada

O xamã yanomami ergue os braços porquê um pássaro prestes a levantar voo. Na retrato, porém, seu corpo parece se desfazer: um braço surge cá, outra segmento mais adiante, porquê se vários instantes coubessem no mesmo quadro. Não é montagem do dedo. É uma única retrato feita com celular.

A cena integra as 34 imagens de Leão Serva reunidas em “Caleidoscópio Xapiri Yanomami”, exposição que será inaugurada na quarta-feira (28), no Museu da Imagem e do Som, o MIS, em São Paulo, e abre ao público no dia seguinte. A proposta é se aproximar da experiência dos xamãs, sem pretender mostrar os espíritos que, segundo a cosmologia yanomami, eles enxergam durante os rituais.

“Todas as minhas fotos são um clique”, afirma o jornalista e fotógrafo. O recurso é a longa exposição, mas o resultado não é o borrão habitual de um objeto em movimento. “Um pedaço da mão está cá, outro pedaço cá, outro cá”, diz. “O retrato do movimento se dá de uma forma peculiar.”

Serva já explorava esse efeito em 2017, quando morava na Inglaterra para fazer doutorado e fotografava cenas de museus. Os corpos deformados deram origem a uma exposição em Londres, em 2019, toda em preto e branco, que também explorava sua quesito de estrangeiro. De volta ao Brasil, passou a procurar um ponto para testar a técnica em cores.

Tentou fotografar São Paulo, mas não gostou do resultado. O tema apareceu há quatro anos, quando acompanhava porquê repórter da Folha um encontro na comunidade de Xihopi, na região do rio Demini, na Terreno Indígena Yanomami. Ao ver a movimentação dos xamãs, percebeu que encontrara o que procurava.

Eram 30 xamãs reunidos para marcar os 30 anos da homologação do território. O ritual durou aproximadamente quatro horas. Um a um, recebiam pelo nariz a yãkoana, pó utilizado nas práticas xamânicas, e começavam a dançar. Na cosmologia yanomami, é nesse contato ritual que os xamãs se relacionam com os xapiri, seres espirituais ligados à proteção da floresta e ao estabilidade do mundo.

“Ele faz um gesto porquê se fosse um pássaro no solo iniciando um voo”, diz Serva sobre o início da dança. Depois, o xamã atravessa o espaço com movimentos que se repetem e se transformam. O fotógrafo quis registrar esse deslocamento não porquê poses congeladas, mas porquê momentos distintos reunidos na mesma imagem.

A cerimônia aconteceu em 25 de maio de 2022, durante uma semana de comemorações pelos 30 anos da homologação da Terreno Indígena Yanomami. Mas a celebração também foi marcada por denúncias de invasões garimpeiras, violência e ameaças às comunidades, no último ano do governo Jair Bolsonaro.

As fotos chegaram a provocar confusão. Ricardo Corrêa, curador da mostra, conta que colegas a quem Serva enviou o material pensaram que os arquivos tinham sido corrompidos. Para ele, o interesse está no encontro da técnica “imperfeita”, tal qual resultado não pode ser inteiramente controlado, com o universo místico yanomami.

Havia, porém, uma pergunta mais importante. “O que os yanomamis acham dessa retrato?”, queriam saber os especialistas com quem Serva discutiu a edição das imagens na Inglaterra. Ele preparou o material para apresentá-lo aos indígenas, mas a oportunidade demorou a surgir.

Há dois anos, quando lideranças yanomamis estavam no Rio de Janeiro para o Carnaval, as fotografias foram mostradas a elas e ao redactor Davi Kopenawa. Depois, o xamã enviou uma mensagem de áudio a Serva, dizendo compreender a tentativa de simbolizar o ritual, e comparou seu trabalho ao de Claudia Andujar, que também buscou recursos fotográficos para sugerir a experiência dos xamãs.

“A Claudia é uma diva da retrato”, diz Serva. Para ele, a verificação de Kopenawa diz reverência à procura de uma linguagem, não a uma equivalência entre as obras. O líder indígena estranhou particularmente uma das imagens, mas incentivou sua apresentação ao que labareda de “povo da cidade”.

A semana contará também com a presença de Dário Kopenawa, rebento de Davi, eleito em junho para presidir a Hutukara Associação Yanomami a partir de 2027. Na quinta-feira (29), às 15h, haverá uma visitante guiada à exposição, seguida de uma conversa com a liderança indígena.

Uma gravação com a mensagem de Kopenawa será reproduzida no MIS. Quatro anos depois do ritual, as fotografias chegam ao público urbano com o incentivo de uma das principais lideranças yanomamis.

Folha

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