Leci Brandão, 81, celebra carreira com projeto audiovisual – 24/04/2026 – Ilustrada
Aos 81 anos, Leci Brandão vai iniciar a fazer terapia. Diz que precisa de uma psicóloga para dar conta de tanta emoção, fruto das diversas homenagens que vem recebendo nos últimos anos, seja no Carnaval, no teatro ou nos palcos de todo o Brasil. “Há momentos em que eu fico perdida com tanta coisa ao mesmo tempo.”
Na primeira quinzena de maio, chega mais uma —o primeiro volume do audiovisual “50 Leci Brandão – 50 Anos de Curso”. Gravado em julho do ano pretérito, na Lar Natureza, em São Paulo, o projeto revisita seus grandes sucessos e presta homenagem a compositores que cruzaram seu caminho, uma vez que Almir Guineto, Arlindo Cruz, Jovelina Pérola Negra, Jorge Aragão, Alceu Valença e Fagner.
No palco, Leci também divide canções com Criolo, em “O Sol Nascerá”, Pretinho da Serrinha, em “Ponta de Dor”, e Xande de Pilares, em “Meu Oceano”.
Nascida em Madureira, na zona setentrião do Rio de Janeiro, Leci fala que o primeiro contato com a sua vocação se deu depois de uma desilusão amorosa. A música “Tema do Paixão de Você”, nunca gravada, chegou de supetão, com melodia e letra.
Assim, ela descobriu que a originalidade faz terreno em seu corpo. “É orixá dizendo: ‘você não vai tolerar, vai inventar’. Posso estar passando um moca, posso estar viajando de trem, posso estar no banho. A teoria vem de forma proveniente”, ela diz.
O quina surgiu da mesma maneira, uma vez que um dom. Participava de festivais estudantis, quando ainda era estudante do Escola Pedro 2º, incentivada por amigos. Até tentar a sorte, em 1968, no famoso programa “A Grande Chance”, da TV Tupi, apresentado por Flávio Cavalcanti. Não ficou em primeiro lugar, mas chegou até a final, tornando-se conhecida nacionalmente.
Apesar de proferir que nunca participou de movimentos sociais, sua obra flertava com as discussões da estação. Nos anos 1970, conseguiu um tarefa na Universidade Gama Rebento e passou a conviver com nomes uma vez que a intelectual Lélia Gonzalez.
“Lélia era professora de filosofia na estação. Quando tinha oportunidade, eu assistia à lição dela. Mas não tinha muito tempo, porque eu trabalhava no departamento pessoal. Quando eu participei do primeiro festival de música da Gama Rebento, a Lélia foi uma das pessoas que torceram por mim. Tirei segundo lugar no festival, ganhei o prêmio de revelação, e ela me incentivou a continuar compondo. Disse que eu escrevia sobre o nosso povo.”
A Estação Primeira de Mangueira também exerceu grande influência na sua arte. Escola do coração, integrou a lado de compositores em 1972, depois de passar um ano “estagiando” para provar seu talento. “Nos ensaios, tinha uma ordem para trovar. Marcava presença na folha e esperava a sua hora. Uma vez que eu era novinha, eu aprendia o samba dos outros e as pessoas gostaram de mim”.
Num desses ensaios, o ator Jorge Coutinho a convidou para trovar “Quero Sim”, parceria sua com Darcy da Mangueira, no Teatro Opinião. As participações fizeram tanto sucesso que Leci passou a integrar a filarmónica fixa da Noitada de Samba, realizada às segundas-feiras.
Em 1974, foi chamada pela Discos Marcus Pereira para gravar seu primeiro compacto, com quatro canções autorais. O lançamento coincidiu com o primeiro LP de Cartola, também pela mesma gravadora. Os dois passaram a se apresentar juntos em algumas capitais, o que rendeu ainda o registro marcante no programa Experimento, da TV Cultura, naquele ano.
Mas foi São Paulo, onde passou a morar nos anos 1980, que a consolidou uma vez que artista de grande público. Em seguida cinco anos sem gravar, o LP “Leci Brandão”, de 1985, ganhou força no programa “O Samba Pede Passagem”, de Moisés da Rocha. “Eu lembro quando cantei no Meio Cultural São Paulo, eu nunca tinha lotado um show. Foi uma coisa retumbante. Tive que fazer duas sessões.”
O período longe dos estúdios não foi por contingência —suas composições, de poderoso texto político, encontravam resistência no mercado. Foi nesse contexto que Leci recorreu ao mestiço Rei das Ervas.
Desde logo, passou a fechar seus discos saudando um orixá. “Fui orientada. Gravei para Iansã, quem cuida da minha verso. E Ogum, quem me bota na guerra. Foi quando ganhei meu primeiro disco de ouro, em 1988.”
Se um artista só consegue trovar aquilo que consegue carregar, ao longo dos mais de 50 anos de curso, Leci cantou um projeto de Brasil. Colocou figuras uma vez que o preto, o homossexual, a mulher, o outro —aquele que não segue o padrão do dominante— no núcleo da discussão, apontando para um país mais justo.
“Não sou advogada, mas sempre defendi pessoas. É um pouco que me impulsiona. Eu tenho um compromisso que Deus me deu. Esquina para as pessoas se sentirem mais fortes e não pararem de lutar.”
Para ela, hoje em seu quarto procuração uma vez que deputada estadual pelo PCdoB em São Paulo, o seu Brasil mudou o Brasil real.
“Quando me elegi, coloquei meus LPs na mesa e fui anotando todos os temas que abordei musicalmente. E disse: ‘meu procuração vai ser sobre isso’. Eu me orgulho de ter um gabinete com o nome ‘Quilombo da Volubilidade’. A gente contribuiu muito para algumas mudanças, sim. Faço a maior confusão se essas pessoas não forem respeitadas.”





