Leia entrevista de Jürgen Habermas à Folha, em 1995

Leia entrevista de Jürgen Habermas à Folha, em 1995 – 14/03/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Morto neste sábado (14) aos 96 anos, Jürgen Habermas disse a oriente jornal, em entrevista à socióloga Barbara Freitag e ao filósofo e ex-secretário de Cultura Sergio Paulo Rouanet publicada em 30 de abril de 1995, que o varão moderno deve questionar as tradições.

Para ele, que recebeu os brasileiros em sua vivenda em Starnberg, na Alemanha, “a história nunca pode ser verdadeiramente nossa mestra”. “Acho que um elemento da requisito moderna, da nossa situação existencial moderna, é que devemos, pelo menos, ter a possibilidade de questionar as tradições”, afirmou na ocasião.

“Na medida em que podemos aprender alguma coisa da história, só aprendemos a partir de experiências negativas. Ou seja, descobrimos em 1945, com horror, tudo o que se passou de inverídico”, afirmou ainda sobre a Segunda Guerra Mundial e o Imolação.

Na conversa, o Freitag e Rouanet, que foram casados até a morte do último, há quatro anos, tocam ainda em temas uma vez que o multiculturalismo, que para Habermas gerava mais problemas nos Estados Unidos do que na Alemanha.

Leia, inferior, a entrevista completa.

Em primeiro lugar, quais são suas principais áreas de pesquisa, agora que o sr. se aposentou, ficando assim livre para novas atividades intelectuais?
No momento, estou trabalhando em pequenas coisas. Estou me deixando envolver mais que antes -quer manifestar, antes do surgimento desse livro sobre a teoria do recta e da democracia (“Facticidade e Validade) pelas reflexões dos juristas e dos filósofos que fazem teoria política. Por isso, ocupo-me agora com as questões normativas da ordem internacional. Quer manifestar, sempre com a intervalo que caracteriza o filósofo, não é verdade?

Estamos comemorando o segundo centenário da publicação da “Sossego Perpétua, de Kant, o que oferece uma oportunidade para repensar a sátira de Carl Schmitt sobre a “juridização” (“Verrechtlichung”) do estado de natureza e verificar, por exemplo, em que medida essa sátira contém idéias kantianas. É um exemplo dessas questões normativas. Ou os temas do multiculturalismo, do recta de asilo, sobre os quais me manifestei nos últimos anos.

Principalmente no que diz reverência à Alemanha ou também no que se refere ao debate transportado nos Estados Unidos?
Muito, participei, em janeiro de 1995, de uma reunião em Stanford (Califórnia), e naturalmente discutimos também, com bastante viveza, os problemas do multiculturalismo americano, que são realmente sérios, comparados com os nossos. Não se trata, portanto, somente de uma problemática alemã, e, sim, de questões normativas em universal. Nos Estados Unidos, a discussão sobre a moral discursiva vai mais longe que entre nós [Habermas levanta-se e vai buscar duas separatas em outra mesa]. Tomem, eu lhes dou isso de presente [Oferece-nos os dois textos autografados, com as dedicatórias já prontas]. É uma discussão com John Rawls. Terei, a seguir, um debate com meu colega Charles Taylor.

Portanto, esse é um tema —as questões normativas da teoria política, mas também as questões da ordem internacional. Um outro tema… muito, são as novas conferências que darei em Chicago, versando sobre a história da filosofia alemã no século 20. Em qualquer momento, nos próximos anos, elas se transformarão em livro. Considerarei três gerações. A primeira, naturalmente, é a geração de Frege, Husserl e Dilthey, um pouco o jovem Cassirer. A segunda geração é a de Carnap, Heidegger e Wittgenstein. E a terceira geração é a de Gadamer, Popper e Apel.

Gadamer acaba de fazer 95 anos. Li, ouvi e vi muitas entrevistas que ele vem dando. Está inteiramente lúcido.
Sim, sim! Nós fomos visitá-lo em Heidelberg. Ele ainda está… muito, com a cabeça ótima, e com muita mobilidade.

Numa entrevista dada à Focus, o entrevistador disse que Gadamer lhe ofereceu um moca que ele mesmo fizera.
Sim, sim! [risos].

A propósito, recordo-me do seu experiência “A Aspiração de Universalidade da Hermenêutica”, no qual o sr. rejeita a posição de Gadamer de que não podemos transcender o horizonte da nossa tradição. As duas posições permanecem o que eram há anos? Gadamer continua defendendo a tese de que o horizonte da tradição não pode ser ultrapassado?
Muito, é difícil manifestar. Nesse ponto, que considero decisivo, Gadamer é maleável demais para se comprometer de modo unívoco. Sim, o ponto decisivo -e também Apel o criticou novamente nesse aspecto- é saber se podemos emanar consequências particularistas do seu enfoque hermenêutico. Ou seja, se apesar de todos os nossos esforços de compreensão, nós permanecemos de tal modo partes de nossa tradição que… sim, que, em última estudo, não podemos assumir nenhuma intervalo sátira com relação a essa tradição.

Mas minha sensação é que Gadamer prefere não passar para o campo dos contextualistas. Ele não quer ser considerado um contextualista. Mas, ao mesmo tempo, continua leal, num sentido heideggeriano, à tese da historicidade da verdade. Ou seja, a verdade uma vez que caso (“Ereignis”), a verdade uma vez que sorte (“Geschick”). E, por isso, acho que ele continuaria a não admitir, hoje, a minha objeção de anos detrás, segundo a qual devemos ter a possibilidade de criticar os preconceitos vinculados pela tradição.

Isso tem a ver, talvez, com sua idéia de uma apropriação seletiva da tradição, segundo a qual não devemos, justamente, admitir todos os conteúdos dessa tradição. Num país uma vez que a Alemanha, a tradição é uma questão tão delicada, que precisamos manter uma atitude seletiva com relação a ela. Não é mesmo?
Sim, sem incerteza.

A tradição iluminista da Alemanha, sim, mas não a contra-iluminista.
Sim, sim. De qualquer modo, acho que um elemento da requisito moderna, da nossa situação existencial moderna, é que devemos, pelo menos, ter a possibilidade de questionar as tradições. E penso que a história nunca pode ser verdadeiramente nossa mestra num sentido sim. Na medida em que podemos aprender alguma coisa da história, só aprendemos a partir de experiências negativas. Ou seja, descobrimos em 1945, com horror, tudo o que se passou de inverídico. Aprendemos também, em formato pequeno, quando um pouco dá inverídico, e nesse momento, um pano-de-fundo tradicional, até portanto aceito ingenuamente, torna-se problemático. Nessas circuntâncias, devemos ter a possibilidade de recuar, uma vez que o sr. diz, para sondar a situação, e também, em última estudo, para sentenciar que tradições queremos continuar e quais as que não queremos.

Muito, voltemos aos seus projetos.
Notório. O terceiro projeto -como vêem, todos são de pequeno porte- é efetuar “retoques” (“reparaturarbeiten”) na teoria pragmática da linguagem. São questões analíticas fundamentais da teoria da significação, e, portanto, da teoria da verdade. Polemizo, um pouco, nesse contexto, com Donald Davidson. São ensaios desse tipo que tenho em mente.

Esse concepção de “retoque” tem a ver, justamente, com uma pergunta que gostaria de fazer. Considerando que sou uma leitora entusiasta dos seus livros, desde “Estudante e Política”, de 1961, e que…
Muito antes não pode ter sido… [ri]

Uma vez que o sr. mesmo avaliaria sua obra? Tudo continua atual nela ou será que algumas passagens precisam ser reformuladas, à luz de novos paradigmas teóricos e de transformações sociais e políticas? O sr. próprio falou em “retoques” em sua teoria pragmática da linguagem… Talvez eu pudesse precisar ainda mais a pergunta. Fala-se, na filosofia, de um “linguistic turn” (guinada linguística). Pode-se falar de um “communicative turn” em seu pensamento? Por exemplo, em “Conhecimento e Interesse” não havia grande ênfase na dimensão comunicativa. Mas, depois, veio uma guinada comunicativa, sobretudo em seu confronto com Niklas Luhman, em 1971, com “Observações Preparatórias para uma Teoria da Cultura Comunicativa”. Pode-se falar, portanto, de um “communicative turn” em sua obra?
Muito, acho que um responsável deve deixar a seus leitores julgamentos desse tipo. Mas, naturalmente, podemos falar sobre essas revisões. Sim, “communicative turn”. A terminologia não importa muito. Mas “pragmatic turn” seria melhor. É verdade, isso apareceu com mais força no início dos anos 70, ainda que o terreno já estivesse um pouco pronto pela recepção da hermenêutica. “Conhecimento e Interesse” já era um pouco uma tentativa de entender Freud a partir da situação analítica, uma vez que uma conversa entre terapeuta e paciente. Mas é evidente que, naquela estação, nos anos 60, eu seguia mais fortemente um veio histórico-filosófico, digamos assim, da antiga teoria clássica e dava prioridade a tudo aquilo que, naquele momento, aludisse a grandes questões supra-individuais.

Isso desapareceu e foi substituído pela idéia de que tudo o que temos são contextos comunicativos de caráter intersubjetivo, além, é simples, de instituições que tenham esse caráter intersubjetivo. Portanto, “guinada pragmática”. Quanto ao que hoje precisasse ser mudado, acho que as coisas que fiz desde a “Teoria da Ação Comunicativa” continuam a me parecer plausíveis, digamos, em sua arquitetônica, e eu as defenderia. As objeções feitas a essas idéias não são tão convincentes a ponto de forçar-me a fazer grandes revisões.

Por outro lado, pelo menos eu o espero, a gente sempre continua a aprender. E penso que a filosofia do recta que expus em “Facticidade e Validade” também teve um pouco de novo. Ela contém uma revisão da idéia, que eu ainda sustentava na “Teoria da Ação Comunicativa”, de que se pode enobrecer entre o recta enquanto instituição e o recta enquanto meio (“Medium”). Isso se tornou, depois, problemático para mim. Discuto também, com mais ênfase nesse último livro, a sociedade social. Embora essa idéia já tivesse aparecido antes.

Por exemplo, em sua tese de livre docência, de 1962, a “Mudança Estrutural do Espaço Público”.
Sim, exatamente. Agora, os “retoques”. A gente sempre descobre coisas pouco claras. Portanto, em primeiro lugar, críticas, obscuridades, mas também teorias concorrentes. Por exemplo, Davidson, que é, hoje, a julgar por meus estudantes, o grande herói, não é mesmo? A gente lê mais atentamente essas coisas e se sente um pouco desafiado a precisar seus próprios trabalhos à luz dessa concorrência.

A entrar, por assim manifestar, num oração teórico.
Sim. Tenho, outrossim, a sensação de que as reflexões pragmático-formais sobre a teoria da significação não tiveram uma recepção séria na América. E isso, também, oferece uma oportunidade para trabalhar essas coisas mais exatamente e, por assim manifestar, em formato menor, para desenvolvê-las com maior precisão. É isso que chamo de “retoques”.

Folha

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