Livro conta como Mequinho trocou xadrez pela religião 07/03/2026

Livro conta como Mequinho trocou xadrez pela religião – 07/03/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

A cena já devia ser surreal nos anos 1970, mas seria ainda mais impensável hoje: a bateria da Mangueira, representantes da torcida do Flamengo e estudantes suficientes para encher quatro ônibus aguardam ansiosos, no aeroporto do Galeão, a chegada de um rapaz baixinho, franzino, dentuço e de óculos de fundo de garrafa —o mais arquetípico dos nerds.

Mas não se trata de qualquer nerd. Prestes a completar 20 anos no dia do desembarque do avião (18 de janeiro de 1972), Henrique Costa Mecking, o Mequinho, era portanto “o Pelé do xadrez”. Embora nem tivesse vencido um campeonato propriamente dito na ocasião, ganhava recepção de herói por ter se tornado o primeiro grande rabino internacional de xadrez nascido no Brasil, graças aos bons resultados num torneio disputado em Hastings, no Reino Uno. Na era, poucos no país duvidavam que Mequinho seria vencedor mundial —era questão de tempo, e não havia de demorar.

O desenrolar real da história, porém, foi muito mais complicado. Porquê narra o jornalista da Folha Uirá Machado em “Entre Bispos e Reis”, seu livro de estreia, o menino-prodígio gaúcho, que já derrotava adultos quando ainda estava no primórdio do ensino fundamental, praticamente abandonaria o xadrez no término daquela mesma dezena.

Depois alguns anos de desempenho errático, Mequinho anunciou que tinha sido diagnosticado com uma doença autoimune que afetava o sistema nervoso, a miastenia grave, e que chegara a passar risco de morrer antes de ser “praticamente curado” pela fé em Jesus Cristo.

Dali por diante, ele dedicaria a maior segmento de seu tempo e de sua vontade à pregação, tornando-se um dos nomes mais afamados da RCC (Renovação Carismática Católica), movimento da igreja centrado no que os fiéis viam uma vez que ação direta do Espírito Santo, incluindo curas milagrosas e manifestações de êxtase místico. Mequinho chegou a frequentar o seminário, mas nunca foi ordenado padre, e passou a falar de revelações sobre o término do mundo com frequência.

No livro, Machado combina uma detalhada pesquisa biográfica sobre seu personagem médio ao didatismo sobre a história e o funcionamento do xadrez de superior nível, incluindo os códigos usados para descrever o movimento das peças no tabuleiro.

O resultado da mistura frequentemente é eletrizante, por incrível que pareça —para os leigos, a conformidade entre o xadrez e a guerra enfim passa a fazer sentido—, além de humanizar a aura quase sobrenatural de Mequinho.

Talvez por influência da pouca idade com que ganhou destaque nos tabuleiros, o enxadrista gaúcho mantém certa aura infantil mesmo quando adulto. Às vezes muito tímido, às vezes boquirroto e arrogante, faz birra contra supostos truques sujos dos adversários (o que, a rigor, nunca foi incomum no xadrez de superior nível) e, antes da conversão religiosa, praticamente corta relações com a família, que ainda vivia no interno do Rio Grande do Sul, no momento da morte do pai.

Os motivos para isso não estão claros, conta Machado. “Ele não fala disso, outras pessoas também. Ao que parece, na era ele ficou magoado com o que entendeu uma vez que obstáculos que os pais impuseram para que ele se dedicasse integralmente ao xadrez”, explica o biógrafo.

“Ele esperava mais escora —embora tivesse tido escora, o pai chegou a viajar várias vezes para torneios com ele, mas a família fez com que ele terminasse o ensino médio, que iniciasse uma graduação [em física, logo abandonada]”, conta Machado. “Além de tudo, tem uma questão de personalidade: é uma pessoa que corta laços com muita facilidade. Fez isso com amigos, parceiros de treinamento etc., e sempre o fez muito de supetão.”

Também não há indícios de que ele tenha tido qualquer tipo de relacionamento amoroso. “Ele sempre dizia que não tinha tempo, que dava muito trabalho e que ele queria ser vencedor mundial.”

A obra revela ainda uma vez que o xadrez de superior nível pode assumir contornos de maratona também do ponto de vista físico, com partidas que se arrastavam por cinco horas num dia e podiam ser retomadas nos dias seguintes. Isso explica porque a doença de Mequinho abalou tanto o seu desempenho e, no mínimo, trouxe à tona o apego à religiosidade, embora não seja provável falar com certeza de uma conexão causal, diz o biógrafo.

“Não dá para ter certeza absoluta de que o interesse religioso começou depois de ele se sentir doente. Ele estudou em escola católico, teve professores padres, a mãe era muito religiosa”, pondera Machado.

“No momento da doença, o que se pode proferir é que houve um aprofundamento sem razão, um mergulho. E esse mergulho pode ter sido a forma que ele encontrou até para se manter capaz de narrar uma história a reverência de si mesmo, um princípio de identidade, quando a sua exigência de enxadrista se viu ameaçada pela doença”, explica o responsável.

“Ao mesmo tempo, era uma pessoa de perfil um pouco obsessivo —desde pequeno, com a mania de permanecer um pouco fixado na mesma reinação, por exemplo. De abraçar com muita força aquilo a que se dedicava. Saiu o xadrez e a religião entrou no lugar.”

Folha

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *