Livro conta história dos álbuns da Copa no Brasil

Livro conta história dos álbuns da Copa no Brasil – 13/04/2026 – Esporte

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Elas já vieram uma vez que brindes em balas, chicletes, salgadinhos e até maços de cigarro. Houve promoções em que cromos especiais podiam ser trocados por prêmios uma vez que bicicletas e canetas-tinteiro —também foram lançadas edições em que a difícil tarefa de completar o álbum dava recta a uma recompensa próprio. Em ano de Despensa do Mundo, é difícil permanecer alheio ao mundo do colecionismo dos colantes com os jogadores e os brasões dos escretes que disputam o maior campeonato do futebol mundial.

De olho nesse filão, o jornalista e plumitivo Marcelo Duarte —curioso profissional reconhecido uma vez que o responsável do já clássico livro-almanaque “O Guia dos Curiosos”— acaba de lançar “O Álbum dos Álbuns de Figurinhas das Copas”, um resgate afetivo que traz histórias de todas as coleções de figurinhas de Copas de Mundo que circularam no Brasil.

O projeto foi iniciado há murado de um ano e meio. Duarte, ele próprio colecionador de figurinhas desde a Despensa de 1970, quando tinha de cinco para seis anos, contou com a ajuda de cinco grandes colecionadores de álbuns esportivos. “Fiz uma pesquisa e vi que não havia em todo o mundo nenhum livro sobre esse tema.”

Um desses colecionadores é o professor de ensino física reformado Antônio Fiaschi Teixeira, 71. Ele admite que não faz teoria de quantos álbuns acumula. Seus favoritos são os dos anos 1960. “Foi uma estação potente no lançamento de diversos álbuns que se tornaram icônicos”, disse. “Palato muito de aprender sobre a história do futebol, dos clubes e dos jogadores.”

Professor na Instalação Getúlio Vargas e desembargador reformado no Tribunal de Justiça de São Paulo, Moacir Andrade Peres, 72, foi outra manancial da pesquisa de Duarte. “Colecionei figurinhas de futebol na minha puerícia e juvenilidade. Os álbuns se perderam ao longo do tempo. A retomada ocorreu no final da dezena de 1990, primeiramente, com intuito saudosista e, posteriormente, uma vez que forma de preservação da memória futebolística”, afirmou ele, que guarda murado de 3.000 exemplares, considerando os repetidos.

Para Peres, mais do que a história do futebol, esse resgate ajuda a mostrar a “evolução do design gráfico brasílio”. Junto com amigos, ele integra o Memofut (Grupo de Literatura e Memória do Futebol), que se reúne mensalmente no Museu do Futebol, em São Paulo.

Cigarros e prêmios

As primeiras figurinhas de Despensa do Mundo no Brasil surgiram na estação da segunda edição do campeonato, em 1934. A coleção foi batizada de “Team Brasiliano Internacional” e era uma promoção das balas Vênus. Na Despensa seguinte, de 1938, iniciativa semelhante foi promovida pela fábricas de cigarros Sudan. Craque da seleção pátrio na estação, o jogador Leônidas da Silva (1913-2004) —que se sagraria bombeiro do torneio daquele ano— fechou contrato com a marca e teve seu nome e retrato estampados na embalagem do resultado.

Mas, se geravam uma mobilização entre torcedores, essas iniciativas ainda não resultavam em álbuns: eram coleções de cromos avulsos. Surgiram em 1950 os primeiros livretos de Despensa com espaço para que os adesivos fossem colados. O pioneirismo cabe às balas Futebol, com o icônico “Craques do Campeonato Mundial de Futebol 1950”. “Curiosamente, ele foi lançado depois da Despensa do Mundo”, observou Duarte. Logo, já havia ali a informação de que o Brasil tinha perdido a final para o Uruguai.

Em um mundo em que a informação chegava muito mais pelo rádio, a curiosidade em ver as imagens da Despensa explica o sucesso de um álbum ulterior à edição do evento. Tanto que, além dos cromos com as fotos dos jogadores, também havia cenas de gols e de lances icônicos da competição.

Esses álbuns tardios continuaram sendo feitos. A paulistana editora Aquarela, por exemplo, lançaria no final daquela dezena o álbum “Brasil Vencedor Mundial de Futebol 1958”, com as fotos de todo o elenco brasílio que havia se sagrado vencedor mundial pela primeira vez.

A partir da segunda metade dos anos 1950, foram várias as publicações alusivas ao futebol e à Despensa do Mundo —muito dissemelhante da situação atual, proporcionada pelo maior controle de direitos de imagem e por contratos comerciais milionários, uma vez que o que garante à Panini a exclusividade. Houve títulos de publicações uma vez que “Álbum da História e Desenvolvimento dos Esportes”, “T.V. Bóll”, “Álbum Esportivo Quigol” e “Coleção Pé de Ouro”.

Cada vez mais se tornavam comuns álbuns atrelados a concursos, com promessa de prêmios para quem completasse toda a coleção, uma vez que brinquedos e liquidificadores. Para dificultar a tarefa, as editoras imprimiam um número menor de alguns cromos específicos —eram as figurinhas carimbadas, raras e muito disputadas.

Em 1971, uma lei federalista proibiu a artimanha. Desde logo, por lei, todas as figurinhas têm de ser impressas na mesma quantidade.

Ufanismo solene

O primeiro contato de Marcelo Duarte com um álbum foi na Despensa de 1970. Ele desconfia que o hobby era mais do pai do que dele, porque o logo garotinho era proibido de tentar grudar os cromos, para que tudo ficasse direitinho. Era uma estação em que as figurinhas não eram autocolantes. Precisavam ser fixadas com cola —e o pai do jornalista usava goma arábica.

A paixão pelo universo dos álbuns aumentou na vida de Duarte quando ele leu, ainda na puerícia, o livro “O Gênio do Violação”, best-seller infantojuvenil escrito por João Carlos Pelágico (1935-2019) e publicado pela primeira vez em 1969. Em um misto de referência e homenagem à obra, o próprio Marcelo Duarte escreveu um livro infantojuvenil chamado “O Mistério da Figurinha Dourada”, lançado em 2018.

Nos anos 1970, conforme resgata o livro, o clima de ufanismo da ditadura se misturou aos álbuns, que também traziam inscrições de slogans do regime uma vez que “Ninguém segura esse país” e “Brasil: ame-o ou deixe-o”, páginas dedicadas às Forças Armadas, fotos de autoridades federais junto a jogadores e até frases uma vez que “Colabore com nosso governo”.

Supremacia

O cenário atual veio com a profissionalização do mercado. Criada em 1961 na Itália, a editora Panini lançou seu primeiro álbum em 1970, ainda na Europa, e chegou ao Brasil em 1989, fazendo parceria com a editora Abril —nesse formato, foram lançados os álbuns de 1990 e 1994. Em 1998, a gigante marca italiana passou a ser a única detentora dos direitos de publicar os álbuns oficiais das Copas no Brasil.

Uma curiosidade trazida pelo livro de Duarte responde a uma questão recorrente entre os colecionadores de figurinhas da Despensa do Mundo: quem é o jogador que aparece dando um voleio na cobertura dos álbuns da Panini? Trata-se de Carlo Parola (1921-2000), zagueiro que integrou o time italiano que disputou a Despensa de 1950. A imagem foi criada a partir de uma retrato feita pelo fotojornalista Corrado Banchi (1912-1999), que cobria a partida Juventus x Fiorentina em 15 de janeiro de 1950 para o jornal Calcio Illustrato.

Folha

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