Livro de james baldwin revela dilemas morais e religiosos

Livro de James Baldwin revela dilemas morais e religiosos – 10/08/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Traduzido no Brasil pela primeira vez só neste ano, “Proclamem nas Montanhas” é o livro que marcou a estreia literária de James Baldwin, em 1953.

Um dos principais nomes da literatura ocidental no século 20, ensaísta, agente político e figura pública incontornável, Baldwin apresenta uma história ocorrida no Harlem em 1935, durante o natalício de 14 anos de John Grimes.

Fruto primogênito de Elisabeth e degenerado do pastor Gabriel, John é um jovem devotado e carente de paixão, acuado pelo autoritarismo violento do padrasto, que o renega a contragosto da mãe. Nesse mesmo envolvente há os irmãos de John, o provocativo e rebelde Roy e a jovem Sarah, ambos filhos biológicos de Gabriel; além de sua tia, Florence, uma mulher autônoma que migrou para o setentrião do país.

Com exceção da tia, todos são frequentadores assíduos do Templo dos Batizados pelo Queimação, congregação religiosa dirigida a mão de ferro por Gabriel. O patriarca de moralismo e rigidez clerical sempar assombra o romance com sua presença castradora.

Na família, ele demanda rezas constantes, impede os filhos de brincarem na rua, serpente trabalhos da esposa e exige controle sobre o direcção das crianças, afastando-as de rebaixamento místico. Já na igreja, ele vocifera uma conduta que protegeria os devotos de qualquer vício. Em um dos casos mais notáveis, Gabriel expõe dois jovens que flertavam uma interação amorosa, acusando-os de profanação.

Em “Proclamem nas Montanhas” todos estão envoltos em dilemas humanos severos, tal qual julgamento não se concretiza em visões dualistas do que é bom ou mal; um traço característico de Baldwin, jornalista de grande apreço pelas porosidades da identidade.

Gabriel, por exemplo, mostra que seu palavrório bíblico caminha de mãos dadas com grandes hipocrisias, uma vez que a agressão da esposa. Elisabeth, por sua vez, assume a infelicidade porque o contrário colocaria a família em risco. Para viver a liberdade, Florence deixa a mãe próxima a seu leito de morte.

E o jovem John sofre por não sentir Deus, pena com o libido, a sexualidade e supra de tudo com a impossibilidade de ser reconhecido por Gabriel, que ele tenta perceber não por paixão, mas ódio.

O olhar zeloso ao conflito moral é um dos pontos mais impressionantes do romance, já que humaniza os sujeitos racialmente depreciados na idade —em 1953, as leis segregacionistas ainda imperavam nos EUA. No livro, os personagens lidam com um cenário de incerteza e incerteza a saudação do que são, acreditam e desejam.

Não é o pretérito mítico ou a violência que singularizam a humanidade daquelas pessoas, mas sim o questionamento do que fazer quando não sabemos o que deve ser feito. Se a incerteza marca uma vez que a experiência é um, o campo religioso é rico para abordar os dramas subjetivos porque frutifica crises e esperanças.

Daí que o erudito encenado pela família e pela comunidade no Templo dos Batizados pelo Queimação tenha funções múltiplas no romance, pois ali mulheres e homens encontravam instantes de reflexão sobre si, ao mesmo tempo em que partilhavam experiências em geral. É por isso que a estrutura do texto avança e recua temporalmente pelas preces das personagens, permitindo o encontro com os eventos particulares e da história social de um país.

Em síntese, se há a incoerência ou até mesmo a hipocrisia dos sujeitos, Baldwin não é leviano para olvidar que a Igreja negra e a fé foram territórios de solidariedade, sociedade, proteção, protesto e política numa sociedade que estuprava e matava negros, uma vez que muito ilustra o triste direcção de Deborah e Royal.

Não são poucos os adjetivos para qualificar a força e atualidade de “Proclamem nas Montanhas”, mas não podemos pôr de lado o traço autobiográfico do romance, tão geral ao estilo de Baldwin. Tal uma vez que John, ele também teve um padrasto pastor e opressivo, foi um jovem de sucesso escolar, gay e que durante anos apostou no Evangelho uma vez que salvação pessoal.

Com uma fricção entre os limites da experiência autoral e do texto literário, Baldwin, varão fotografado, filmado e notado por seus grandes olhos, permite enxergar que o drama do jornalista é o dos personagens e, de muitas formas, o nosso.

Folha

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *