Livro de Natalia Ginzburg chega ao Brasil 50 anos depois

Livro de Natalia Ginzburg chega ao Brasil 50 anos depois – 15/03/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

“Eu tenho 27 anos”, diz Elsa nas páginas iniciais do impressionante “As Vozes da Noite”, em um parágrafo de uma única traço que, solitário e contido, se transforma quase em uma melancólica profecia: um esfinge (um porvir é provável, enfim) que não faz questão nenhuma de ser misterioso e logo se revela muito desolador. Ela é a protagonista e narradora do romance de Natalia Ginzburg que chega ao Brasil mais de meio século depois de sua publicação na Itália, em 1961.

Elsa também nos conta no mesmo trecho que, para a sua mãe, a “amargura mais pungente” é que ela ainda não se casou, sinistro somente minorado pelo roupa de outras duas mulheres da região (o setentrião da Itália, um Piamonte nunca nomeado) serem um pouco mais velhas e também seguirem solteiras.

Toda a trama do romance se passa em seu vilarejo e periferia. Circulam pela história os pais de Elsa, uma tia e umas poucas famílias, mormente a do velho Bolota, possuinte da fábrica de tecidos que movimenta a economia lugar. É com um dos filhos dele, o mais novo, Tommasino, que ela tem uma relação que poderia ser duradoura e amorosa, mas uma espécie de anestesia difusa generalizada é mais potente que os sentimentos de ambos.

O relacionamento não termina por possibilidade. A solidão é a regra do pequeno mundo visto e descrito por Elsa, em um tom distante, indiferente e às vezes inesperadamente cômico. É um lugar preenchido por personagens menores, presos numa teia inabalável de fofocas, maledicências e desencontros.

Uma das forças do texto é que ele justifica e não justifica ao mesmo tempo essa rotina esquálida pelo roupa de muitos dos eventos que ele retrata, do ponto de vista histórico, ocorrerem posteriormente os horrores da Segunda Guerra Mundial (com o imenso envolvimento da Itália fascista de Mussolini). O enredo oscila entre esse presente e os anos imediatamente anteriores ao conflito.

Ainda que esse mundo desfigurado seja incorporado ali, isso acontece mais porque acabamos (re)aprendendo, durante a leitura, a escutar os ecos de um estrondo de que ninguém poderia evadir, do que pela enunciação direta de lances traumáticos. O cotidiano minúsculo de sua existência e de quem está próximo é a material verosímil e suficiente de Elsa.

E com isso, em uma construção narrativa em inúmeras passagens quase teatral, repleta de falas anunciadas por variações de conjugação do verbo expor, Ginzburg não deixa de rememorar a tragédia concreta, mas dá muito mais ênfase às violências sutis que o convívio naturaliza, aos danos de informações distorcidas que se propagam uma vez que verdades ou à fragilidade de estigmas que definem pessoas irremediavelmente.

São fenômenos que se desprendem de tempos específicos e das denominações que assumem em momentos diferentes, que se reproduzem e se espalham com facilidade. O livro de 1961 nos atinge com força em 2026.

Se é ruim que a obra chegue por cá só agora, é preciso expor que a edição caprichada compensa em segmento o detença ao incluir um prefácio de Italo Calvino e um posfácio da própria escritora, além da tradução cuidadosa de Iara Machado Pinho, profissional na autora, sobre quem recentemente defendeu uma tese de doutorado.

Publicado originalmente em 1964, o experimento de Ginzburg apresentava uma reunião da segmento inicial de sua obra e nele a escritora lembra uma vez que, desde menino, era acompanhada “de manhã até de noite” por “interlocutores invisíveis, aos quais submetia e destinava” dentro dela não só o “libido de ortografar uma vez que também cada pensamento, cada gesto e cada hábito”.

Ao falar do último livro daquele volume, “As Vozes da Noite”, ela diz que ali o “inventar jorrava da memória, e a memória estava tão resoluta e feliz que se libertava sem esforço daquilo que não se assemelhava a ela”.

Já o texto de Calvino é uma transcrição do oração lido para apresentar o romance ao principal prêmio literário de seu país, o Strega, em 1961.

Cito um trechinho em que ele comenta, com outras palavras, esse mesmo tipo de invenção que jorra da memória: “A literatura começa no ponto em que ultrapassamos o ódio e o paixão pela espécie humana. Começa quando não nos importa mais zero registrar o ‘uso’, quando a vulgaridade cotidiana não nos atinge mais e escutamos somente a música que flui no fundo, sob todas as palavras e todos os gestos”.

Folha

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