Livro desmonta mitos da música e humaniza deuses do rock

Livro desmonta mitos da música e humaniza deuses do rock – 19/02/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Por que dar atenção a um livro que reúne curtas biografias de artistas históricos da música? Finalmente, alguns nomes do elenco apresentado em “Sustentar a Nota: Perfis Musicais” estão entre as celebridades pop mais biografadas das últimas décadas, uma vez que Bob Dylan, Beatles e Rolling Stones.

Mas a revestimento traz a assinatura de David Remnick, 67, muito sedutor para aqueles que acompanham de perto o jornalismo. Em 1998, ele assumiu uma vez que diretor de redação da The New Yorker, a centenária revista com longos artigos que ainda mantém uma aura de depuração sobre temas relevantes.

Essa credencial já antecipa o que se percebe em poucas páginas: Remnick escreve muito muito num texto fluido que elenca informações e propõe reflexões.

Cada capítulo é devotado a uma figura incontornável da música. São poetas (Leonard Cohen, Bruce Springsteen, Bob Dylan e Patti Smith), expoentes de som preto (Aretha Franklin, Buddy Guy, Mavis Staples e Charlie Parker), ídolos supremos (Keith Richards e Paul McCartney) e, num dos trechos mais divertidos, Luciano Pavarotti.

O capítulo que fala do tenor italiano demonstra que Remnick tem ali um personagem que, musicalmente, não é tão familiar ao responsável. Aí vem o talento jornalístico, que oferece um texto delicioso sobre um Pavarotti fortemente gripado durante turnê em Cingapura.

Entre as agruras de Pavarotti, o responsável insere algumas passagens de sua curso de sucesso mundial. Cá está clara a proposta de Remnick. Os perfis não são biografias resumidas dos artistas, alguma coisa fácil de encontrar na Wikipedia. Zero didáticos, foram escritos, ao que parece, para levar a um entendimento mais profundo sobre o papel desses artistas e flagrar essas lendas, a maioria já em idade avançada, em momentos de intimidade que ajudam a pintar retratos carinhosos.

A escolha de Leonard Cohen para ser o capítulo de franqueza é muito feliz. Talvez seja o melhor representante dessa proposta. Remnick usa uma vez que fio condutor do texto uma visitante ao cantor e poeta canadense, pouco antes de sua morte, em 2016.

Sempre um entrevistado gárrulo, mesmo debilitado Cohen mantém um exposição articulado, consciente da finitude próxima. E o responsável transporta para as páginas instantes incríveis dessa conversa, muitos deles muito distantes da música. “Arrumar a moradia, se você puder, é uma das atividades mais reconfortantes que existem, e os benefícios são incalculáveis”, dispara o poeta mais sedutor do rock.

Às vezes, a grande sacada não vem do exposição do entrevistado, mas da reparo aguçada do jornalista. Ao narrar uma recepção que a mulher de Paul McCartney organizou nos Estados Unidos, Remnick exibe o ex-Beatle contornado de políticos, governantes, estrelas de Hollywood, esportistas famosos e astros da música e das artes. Enfim, celebridades.

O responsável percebe o que aquelas pessoas famosas têm em generalidade: todas são fãs de Paul McCartney e dos Beatles! Essa reparo aparenta ser óbvia e simples, mas propicia a qualquer um sentir um pouco do peso que representa ser um Beatle. Porquê conviver com a constatação de que ninguém é mais famoso do que você? Porquê em outros momentos do livro, é um invitação à reflexão.

Ao falar de McCartney, é fácil encontrar uma imensa assombro de Remnick pelo personagem. O capítulo sobre Bob Dylan também despeja no leitor a mesma sensação. Mas a coisa muda de figura em relação a Keith Richards, uma estrela roqueira da mesma grandeza dos outros dois.

O responsável não gosta dos Stones. O capítulo sobre Richards é o mais burocrático da coletânea. Faltam as boas sacadas que Remnick extraiu para os perfis dos outros. E essa frieza fica mais problemática em se tratando de uma das figuras mais singulares do rock, para proferir o mínimo.

A baixa tolerância com os Stones é explícita, uma vez que nesse trecho: “Poucos espetáculos da vida moderna são mais sublimemente ridículos do que os geriátricos Stones tocando os acordes iniciais de ‘Street Fighting Man’”.

Ele afirma, com todas as letras, que há mais de 30 anos os Stones não produzem um álbum relevante, comparável a seus melhores trabalhos. É verdade, mas essa certeza poderia ser direcionada a outros de seus perfilados, uma vez que McCartney, Dylan, Bruce Springsteen, Patti Smith ou Aretha Franklin. Por que furar a artilharia pesada unicamente para Jagger e Richards?

Essa implicância pode irritar o leitor fã dos Stones, mas não compromete um livro tão poderoso. E a obra vai muito além do rock. blues, jazz e soul, menos consumidos no Brasil, têm ótimos representantes no guitarrista Buddy Guy, no saxofonista Charlie Parker e nas cantoras Aretha Franklin e Mavis Staples.

O próprio Remnick reconhece que existem entrevistados mais fáceis do que outros. E isso fica simples no último capítulo, com Patti Smith. Conhecida por longas e relevantes entrevistas, sua inclusão no livro não exigiu muito do responsável. Ele simplesmente editou perguntas e respostas de duas conversas com a cantora para a The New Yorker. É incrível e fecha em grande estilo um livro uno, instigante e necessário.

Folha

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