Livro desvenda amazônia e questiona colonização e miséria 01/08/2025

Livro desvenda Amazônia e questiona colonização e miséria – 01/08/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Verenilde Pereira, 69, admite ainda não ter se acostumando a participar de debates e estar nervosa para sua estreia na Flip, a Sarau Literária Internacional de Paraty. Mas já há uma pergunta que ela não aguenta mais responder.

“Essa é uma questão que, às vezes, é muito mal colocada. Sempre me perguntam: É um livro de ficção? É autobiográfico? Você é alter ego de qualquer personagem? Olha, esse lenga-lenga deve ser mudado, é insuportável essa pergunta. É que a literatura é feita de fragmentos”, diz à Folha.

Seu livro, “Um Rio sem Término”, foi lançado em 1998, mas uma vez que a própria relata, não foi lido pela sátira da era, tampouco conquistou as prateleiras de livrarias —ela encontrava nos sebos as mesmas cópias que havia distribuído em jornais, às vezes intocadas.

Mais de um quarto de século depois, a obra é relançada pela Companhia das Letras, no selo Alfaguara, e Verenilde será protagonista de uma das principais mesas da Flip, neste sábado (2).

O livro conta histórias vividas às margens do rio Preto, de uma missão católica na localidade à Manaus, que vive entre o sonho de ser uma cidade europeia e a veras caótica da barbárie depois a decadência da borracha. Narrativas das violências sofridas por indígenas, negros, caboclas, mulheres e loucos, no final do século pretérito.

A obra questiona os conceitos etnocêntricos europeus, trazidos pelos colonizadores, de razão, moral, libido, justiça —inclusive a divina—, prosperidade e lucidez. São apresentadas figuras uma vez que o patriarca, o pajé, a madre, a cabocla, a indígena, a senhora de escravos, o jovem da cidade, a feirante.

Estes, porém, dificilmente se encaixam totalmente no que se espera de seus papéis e fogem de todas as dualidades. Trazem à tona “uma complicação humana que vem com a dominação, com o cristianismo, com as religiões, com a devastação numulário”.

A narrativa também questiona a sobreposição da cultura eurocêntrica sobre outras, por exemplo na cena em que um ressuscitado pajé faz uma fogueira com livros da missão, para que nunca mais os cristãos digam “o que nunca fui, uma vez que não quero ser, uma vez que essa índia aí, espie, uma vez que essa índia não é” —ato repreendido pela mesma Igreja que promoveu a queima de obras na Questão.

O mito da geração por Adão e Eva contrasta com a personagem de Rosa Maria, a indígena que é “neta da avó do mundo”, uma das histórias que explicam a origem do ser humano.

“Essa metáfora é [considerada] absurda, não racional, não vale a pena, é uma metáfora que vai ser descartada, desvalida. Quando na verdade há outras cosmogonias, origens para o mundo, que não são destes grupos e que são absolutamente aceitas”, diz Verenilde.

Porquê mostrou a Folha em 2022, “Um Rio sem Término” é pioneiro ao dar protagonismo a uma personagem afro-indígena, Maria Assunção, com uma autora que também é filha de um preto com uma indígena —no caso, do povo sateré mawé.

Seu sucesso recente acontece em meio a proliferação de obras de literatura afrodescendente no Brasil. Sua autora, por um lado, vê nisso o resultado de uma “uma ação política de movimentos de negritude que forçaram essa ingressão” no mercado literário, mas não quer que sua obra não seja limitada pela categoria identitária.

“Eu tenho muito pânico, não quero que isso se sobreponha à qualidade literária, porque há um valor literário no livro. A gente tem que ter muito desvelo para a literatura não virar panfleto. Embora a literatura seja um instrumento político —isso nem se discute mais, isso é primitivo—, mas não é panfleto”, diz.

É fácil encontrar na obra elementos que podem ser relacionados à trajetória pessoal de Verenilde, que além de ser cabocla uma vez que Maria Assunção, estudou em escola de freiras, atuou contra a mineração nos territórios indígenas e chegou a ser presa em 1986.

Verenilde por anos atuou uma vez que repórter em veículos do Setentrião e admite que sua forma de escrita já era um prenúncio literário, distante do tradicional concepção jornalístico do lide —segundo o qual um texto deve apresentar de início, clara e objetivamente, os elementos mais importantes de uma história.

Ela lembra quando visitou um sanatório, trabalhando para o Jornal do Transacção, e não encontrava forma de transformar aquela veras em uma reportagem clássica. Das anotações deste dia, nasceram passagens de sua narrativa, adaptadas e transformadas para o “Um Rio sem Término”. Por isso, defende, sua literatura são fragmentos.

“Ela é feita de experiências minhas, de histórias que eu vivi, de informação, é feita de um sonho que eu tive, de uma história de uma senhora que eu ouço no ônibus, de um olhar, de um incidente”, diz.

O naquele sanatório ela encontrou um pouco que está no núcleo do debate de sua obra: questionar o que é considerado loucura por uma sociedade —e até real.

“O que vi naquele sanatório se tratava mais da miséria do que da loucura. Fiquei pensando, qual a lucidez justa? Aquelas pessoas ali estavam apontando a vulnerabilidade de qualquer ser humano. Mais do que isso, fiquei pensando, qual a lucidez justa capaz de fabricar um lugar uma vez que esse?”, questiona.

“Uma das coisas que ‘Um Rio sem Término’ faz é resgatar essas vozes quase absurdamente aniquiladas. Você vai colhendo e coletando esses egos, esses sorrisos, esses murmúrios e impede, simbolicamente, que sejam 100% aniquilados.”

Folha

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