Livro desvenda mais incômoda vítima da ditadura argentina 26/06/2025

Livro desvenda mais incômoda vítima da ditadura argentina – 26/06/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Há uma espécie de feitiço nos leitores de “A Chamada”, a novidade obra da argentina Leila Guerriero que chega ao Brasil pela Todavia em seguida debutar nas prateleiras da América Latina e da Espanha.

Para alguns, é uma extensa obra dedicada a uma única personagem que não periga atacar o leitor de tédio, por ser tecida por uma historiógrafo de mão enxurro. Para outros, é provocação, pois Guerriero traz à luz um enredo pouco discutido que revela contradições na memória histórica argentina, referencial para toda a vizinhança.

“A Chamada” desvenda a vida de uma das mais controversas personagens da estação da última ditadura militar no país, de 1976 a 1983 —ou, porquê diz a própria autora em entrevista, “uma vítima bastante incômoda”.

Silvia Labayru (leia “Labáiru”), nascida em família militar, foi presa em 1976 por integrar a guerrilha urbana dos Montoneros. Pejada de cinco meses, foi levada à Esma, a antiga escola de treinamento militar que funcionou porquê o principal meio de tortura na Argentina e que hoje é um multíplice de museus na mira do atual presidente, Javier Milei.

Ali, Labayru foi torturada. Abusada sexualmente. Forçada a trabalhar para o regime. Deu à luz sua primogênita, que, por uma rara exceção na crueldade do governo ditatorial, foi entregue aos sogros da mãe em vez de ser abandonada, vendida ou apropriada por uma família militar, um tanto generalidade no período.

Foi ainda obrigada a se passar por mana caçula do militar Alfredo Astiz para que eles se infiltrassem em um grupo de religiosas francesas e parentes de desaparecidos políticos fingindo ser, eles dois, irmãos de outra vítima do regime.

A ação terminou no sequestro e assassínio de 12 pessoas, entre elas três mães da Rossio de Maio, lançadas ao mar nos chamados “voos da morte”. Astiz passou a ser portanto denominado de “o querubim da morte”. Ele foi réprobo à prisão perpétua em 2011.

Labayru foi uma rara sobrevivente do regime. Ao ocupar sua liberdade, se exilou na Espanha, mesmo rumo de muitos outros perseguidos pelas ditaduras sul-americanas, inclusive antigos amigos seus. Mas o que encontrou foi uma sentença de pena de seus pares.

Outros militantes e as próprias Mães da Rossio de Maio diziam entender que, para sobreviver, Labayru só poderia ter se coligado aos militares. O incidente com Astiz só amargou os ânimos. Antigos amigos de militância se distanciaram.

Não se preocupe com spoilers na descrição supra. Essa é somente a história publicamente conhecida de Silvia Labayru. O que Leila Guerriero tece em “A Chamada” vai muito além. “O que mais me surpreendeu, de uma forma que me fez sentir bastante singelo, foi porquê o relato de alguns sobreviventes estava fora do debate público”, diz a jornalista.

Labayru concedeu raras entrevistas antes da publicação deste livro. As maiores, em 2021, ocorreram quando seu testemunho e os de outras denunciantes levaram à primeira pena de militares por crimes sexuais.

“Deixar que eles nos estuprassem era uma luta pela vida, e não um conciliação ou uma negociação por qualquer favor”, disse ela naquela ocasião, em conversa com a repórter Sylvia Colombo, na Folha.

Em “A Chamada”, Guerriero compartilha todos os meandros de uma história até portanto somente conhecida pelo lado condenatório. “Não escrevi o livro para tutelar ninguém. Nem acredito que isso seja verosímil. Nem dez livros mudariam a perspectiva do pensamento que alguns têm sobre Silvia Labayru.”

Assim porquê a obra não faz essa limpeza de imagem, a argentina reconhece que é quase uma válvula de escape para se saber uma história até portanto marcada por estigmas.

“Antes de tudo, ela foi estigmatizada por seus companheiros de militância, com um olhar muito acusatório.” No jornalismo, um tanto semelhante se reproduziu. “A imparcialidade, porquê sabemos, é um tanto que não existe, mas ainda assim me parece que havia faltado escutá-la.”

Ex-militantes e grupos da sociedade social buscaram inculcar culpa em Labayru. Ela foi chamada de traidora, em peculiar pelo trajo de que havia se infiltrado —forçada— na trama que culminou no assassínio de algumas fundadoras das Mães da Rossio de Maio.

O desvelo de não revitimizar os entrevistados foi uma preocupação? Em integral, afirma Guerriero. Não somente porque a autora conhece estratégias respeitosas de entrevista, mas porque notou que Labayru, seus parentes e amigos queriam falar. “Era toda uma gente com histórias muito amplas e que nunca encontrou uma escuta realmente interessada.”

O tempo também é colega. Guerriero entrevistou Labayru incontáveis vezes em encontros presenciais, ao longo de dois anos. “O tempo é um sinal para o interlocutor de que você está realmente interessado, de que vai destinar o necessário até que o outro possa manifestar o que precisa, que não tem pressa. Que não é, digamos, um mero caçador de manchetes. Também passa a mensagem de que a sua curiosidade é tamanha que você é capaz de sustentá-la por muito tempo.”

Em paralelo às provocações no imaginário histórico, a obra também confronta o atual debate político prateado. Não propositalmente, o lançamento de “A Chamada” coincidiu com um governo avesso às políticas públicas de manutenção da memória, o de Milei, que as enxerga porquê gastos públicos desnecessários.

Enquanto a obra de Guerriero reforça que ainda há muito que se desenredar sobre a ditadura e que há relatos de sobreviventes que faltam ser escutados, o projeto político reinante afirma que o real impacto da repressão foi inflado no debate público.

Neste segundo ano de gestão, o presidente anunciou que divulgará todos os arquivos antes tidos porquê secretos da ditadura. Não detalhou porquê nem quando. Mas disse o porquê: supostamente quer provar que os atos cometidos por grupos guerrilheiros equivaleriam às violências praticado pelo Estado prateado.

Espaços de memória no país são reduzidos. Demissões nos órgãos que conformam o museu e estão atrelados à Secretaria de Direitos Humanos viraram notícia semanal.

“Entendo que essa é uma maneira muito cruel e astuta de sufocar esses órgãos, arruinando-os de pouquinho em pouquinho, porquê um Pac-Man, que vai comendo cá, ali, mas não come tudo de uma vez. Em qualquer momento será uma asfixia totalidade. O que ficará na memória das novas gerações?”

Folha

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