Livro Mano a Mano é marco na produção literária do

Livro Mano a Mano é marco na produção literária do Brasil – 15/11/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

“O ‘Mano a Mano’ é tão importante para mim quanto os Racionais”, disse Mano Brown durante o evento que marcou o lançamento da adaptação de seu podcast em livro, nesta quinta (13).

Não é pouco quando se fala daquele que é seguro definir porquê o maior e mais influente grupo de rap do país.

Com a literatura agora correndo detrás de sua obra —lembre a edição em livro das letras de “Sobrevivendo no Inferno”, em 2018—, tem se entendido com mais nitidez que Brown e seus parceiros não produziram somente uma revolução músico, mas cultural.

O projeto “Mano a Mano” surgiu “da vontade de ser útil”, porquê afirmou o compositor ao auditório lotado do Sesc 14 Bis, em São Paulo. Logo se tornou um dos podcasts mais populares do país, figurinha carimbada nas listas de mais ouvidos do Spotify, plataforma onde é produzido.

Agora, 20 dessas conversas estão disponíveis em trechos selecionados no volume impresso, acrescidas de um prefácio inédito em que Brown afirma que representa “a rua entrevistando”.

No programa, Brown move suas perguntas pela curiosidade honesta, pela penúria intelectual, com menos gana de manar que boa parcela dos repórteres em atividade. Segmento do fascínio exercido pelo podcast é ver um varão que fez sua curso da fala incessante do rap se estagnar antes de tudo na escuta.

Sua meio, feita ao lado da talentosa jornalista Semayat Oliveira, com frequência traz aspectos inusitados de seus entrevistados, um pouco favorecido também pela longa duração das conversas. Repare, por exemplo, no modo porquê fazem o médico Drauzio Varella disparar memórias de sua puerícia.

Assim surgem entrevistas de impacto com alguns dos principais intelectuais do Brasil, caso de Sueli Carneiro e Nei Lopes, músicos porquê Gilberto Gil, Emicida e Djavan, personalidades do esporte porquê Ronaldo e Walter Casagrande e lideranças políticas porquê Marina Silva, da Rede, e Lula, do PT —o incidente de podcast mais ouvido do Spotify naquele ano de 2021, quando o hoje presidente ainda não ocupava o missão.

As conversas não se furtam a tirar o entrevistado da zona de conforto. Nem os entrevistadores. “Não somos a voz da razão”, disse Brown no palco do evento, asseveração ousada na cacofonia do “eu primeiro” de um mundo com tanta gente imbuída de síndrome de protagonista nas redes.

Dois dos episódios de maior repercussão foram com convidados de direita, os influenciadores Fernando Holiday e Paulo Cruz, tratados com a mesma seriedade daqueles que se alinham à postura de esquerda dos anfitriões. Caso vasqueiro num país em que falar de polarização virou mesocarpo de vaca, mas em que tão pouca gente faz um pouco para restaurar a estádio do debate público.

Muito se fala em porquê fomentar a leitura num país desigual em que ela goza de popularidade cada vez mais escassa. Antes de arquitetar projetos mirabolantes ou esperar sentado por programas de governo, uma saída mais imediata está em levar os jovens aos livros por meio do que já consomem.

Não é demais repetir a imensa introjeção dos Racionais nas camadas sociais a que o Brasil sempre deu as costas. Poucos falaram com tanta força da procura pela sossego na guerra do dia a dia. Poucos incorporaram tão vivamente a consciência negra. Poucos souberam transcrever porquê é sobreviver no inferno.

É evidente que isso já foi muito realizado na literatura —Conceição Evaristo, José Falero e Ferréz estão aí de prova.

Mas a própria Semayat disse, ao responder uma pergunta do mediador Fernando Baldraia, editor de “Mano a Mano” na Companhia das Letras, que ao crescer num mundo em que os colunistas de jornal traziam todos “uma visão embranquecida”, quem fazia comentários sobre sua vida eram os rappers.

Mano Brown já é influência literária da juventude faz tempo. Ele só não estava antes em livro.

Livros, porém, são meios fundamentais de sedimentar ideias, por seu caráter de registro histórico. Talvez a edição de “Sobrevivendo no Inferno” não tenha feito o disco de alcance avassalador permanecer mais espargido, mas facilita que seja analisado com a profundidade detida da sátira literária, adequada a uma obra cobrada até em vestibulares.

No evento desta quinta, duas perguntas da plateia foram feitas por pesquisadores jovens que usaram os Racionais em suas pesquisas universitárias e em sala de lição —um deles criou um módulo freiriano de ensino de matemática a partir de letras do grupo.

Pense quanta gente você já ouviu manifestar, de coração meio apertado, que “ler não é para mim”. Esse hábito desperta sempre de um primeiro passo, seja incentivado pela escola, pela família ou por um livro que você pode não entender, a princípio, porquê literatura.

Ampliar o entrada à leitura é, também, fazer o verosímil para despoluir o ar intimidatório que às vezes calha de se pregar porquê piche nos livros. Oferecer ao potencial leitor um pouco em que ele identifique seu estilo, tem vontade de pegar na mão, transfixar a primeira página, olhar o que tem na segunda.

Aos editores, exige imaginar qual livro ainda não existe e pode seduzir um novo leitor ou leitora —ou qual livro já existe, mas ainda não tem essa forma. Talvez seja um podcast.

Quem já ouve atentamente as ideias de Mano Brown agora pode ser levado por ele até um livro. É um passo pontual, que pode ser decisivo. E sabemos que essas pessoas são uma enorme volume. Salve, volume.

Folha

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