Livro mapeia vida de Silviano Santiago entre Minas e mundo

Livro mapeia vida de Silviano Santiago entre Minas e mundo – 14/12/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

O redactor Silviano Santiago, de 89 anos, já era um acadêmico respeitado quando lançou os romances “Em Liberdade”, em 1981, e “Stella Manhattan”, em 1985, que consolidaram sua reputação uma vez que um dos mais inventivos e provocadores ficcionistas brasileiros.

Romance epistolar sobre Graciliano Ramos, “Em Liberdade” lhe trouxe leitores e convites para palestras. Perdeu secção desses leitores e convites com “Stella Manhattan” —o enredo, que gira em torno de uma personagem trans, sofreu repudiação no Brasil homofóbico do século pretérito.

A trajetória de Silviano Santiago —que em 2022 recebeu o Prêmio Camões, o mais importante da literatura em língua portuguesa— é mapeada em “Presente do Casualidade”, de João Pombo Barile.

É um livro difícil de definir. Não é uma biografia. Seu responsável prefere invocar de “experiência biográfico”. Lê-se, no entanto, uma vez que um longo perfil, no estilo da revista americana The New Yorker.

Barile entrevista Santiago várias vezes, garimpa suas cartas e arquivos pessoais, ouve amigos e parentes e alinhava tudo numa prosa jornalística construída uma vez que uma espécie de diálogo entre responsável e personagem —um diálogo que nem sempre é fácil.

A discrição de Santiago é lendária no meio literário. Algumas das perguntas de Barile são respondidas com longos silêncios, devidamente registrados no livro, uma vez que pausas numa partitura músico. Santiago nasceu em Formiga, Minas Gerais, numa família de 11 irmãos que confirma os clichês da mineiridade: mistérios no pretérito, segredos no presente.

Barile contrasta a timidez de Santiago com a exuberância do principal coadjuvante do livro: o jornalista e produtor músico Ezequiel Neves, companheiro da vida inteira do redactor mineiro.

Os dois se conheceram em Belo Horizonte na juvenilidade. Enquanto Santiago fazia curso acadêmica na França e nos Estados Unidos, Neves se tornava crítico músico e produtor de várias bandas do rock brasílico, entre elas Made in Brazil e o Barão Vermelho de Cazuza. O relacionamento manteve o redactor mineiro plugado no mundo da cultura pop.

“Presente do Casualidade” recupera vários trechos da correspondência entre ambos. Santiago enviava a Neves os últimos lançamentos musicais dos Estados Unidos —uma epístola menciona o primeiro compacto de “Like a Rolling Stone”, de Bob Dylan—, o que contribuiu para a curso do crítico e produtor numa era em que era difícil acessar a produção músico estrangeira.

Depois da morte de Neves, em 2010, Santiago escreveu um livro inspirado na amizade que os dois mantiveram, “Milénio Rosas Roubadas”, publicado em 2014.

Em um trecho de “Presente do Casualidade”, Santiago diz a Barile que toda biografia deveria partir de um momento-síntese da vida do biografado, “um período de sua existência que possa servir de chave para sua trajetória”.

Para Barile, esse momento poderia ser a era em que Santiago viveu em Novidade York no final dos anos 1960, quando presenciou o movimento dos direitos civis, conviveu com artistas uma vez que Hélio Oiticica e viveu seu relacionamento afetivo mais perene com um cidadão da República Dominicana.

“Stella Manhattan” remete a esse período. O protagonista do livro se baseia em um companheiro de Santiago, Agostinho Armando de Roble, um brasílico trans que se tornou mordomo de S.I. Newhouse, o possessor da editora Condé Nast, que até hoje publica as revistas Vogue e The New Yorker. No romance, o personagem guia o leitor pelas subculturas queer e latina de uma Novidade York múltipla e vibrante.

Em sua obra ficcional e na ensaística, que inclui textos que se tornaram referência na literatura acadêmica, Santiago sempre foge do tom panfletário. A força política de seu trabalho, concordam biógrafo e biografado, está na reparo sofisticada de questões comportamentais, mormente em temas relacionados a sexualidade e imigração.

Santiago não se furta, no entanto, a tratar do autoritarismo militar brasílico, ainda que de forma indireta. Ambientado na era de Getúlio Vargas, “Em Liberdade” foi motivado pela prisão de Haroldo Santiago, irmão do responsável, durante a ditadura de 1964. Outro de seus irmãos, o ator Rodrigo Santiago, morreu em 1999 em decorrência da Aids, mal que vitimou vários amigos de Silviano e também aparece em sua obra.

O perfil biográfico feito por Barile mostra que o universo do redactor não se nutre exclusivamente da trajetória cosmopolita, mas também do retorno estável aos segredos e silêncios de uma família do interno de Minas Gerais.

Folha

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