Livro mostra como 1985 foi ano emblemático para música

Livro mostra como 1985 foi ano emblemático para música – 19/03/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

O responsável e produtor músico Célio Albuquerque continua sua missão de radiografar a história da música popular brasileira. Depois de organizar as coletâneas de ensaios “1973 – O Ano Que Reinventou a MPB” (2014) e “1979 – O Ano Que Ressignificou a MPB” (2022), ele agora lança, pela Pequena FM Books, o volume “1985 – O Ano Que Repaginou a Música Brasileira”.

O livro tem 85 textos sobre discos lançados durante o ano de 1985, além de quatro ensaios introdutórios que buscam situar o leitor naquele ano tão emblemático, incluindo um texto do jornalista e pesquisador músico Luiz Felipe Carneiro sobre o maior evento músico do ano, o primeiro Rock in Rio, e outro, de autoria do jornalista Washington Santos, que explica o contexto social e político da era, com o termo da ditadura militar e o início da redemocratização.

A escolha dos discos não poderia ser mais eclética: tem rock, pop, MPB, música instrumental, punk, sertanejo, forró, samba, axé, experimentalismos e heavy metal. De Sepultura a Anastácia, de Egberto Gismonti aos Garotos Podres, está todo mundo lá. Ou quase todo mundo: uma pouquidade sentida na lista de discos analisados é a da música infantil de A Turma do Balão Mágico, Xuxa e Trem da Alegria. Aquele período consolidou a força da música para crianças e teria sido interessante uma estudo sobre o fenômeno.

Uma curiosidade do livro é que alguns músicos foram convidados a ortografar sobre os próprios discos. Assim, Amelinha fala sobre o LP “Caminho do Sol” e explica porquê a maternidade a ajudou a “ressignificar o porquê de trovar”, e a forrozeira Anastácia comenta “30 Anos de Forró”: “Aos 70 anos de curso, voltar ao meu álbum de 1985 é privativo. Foi um disco muito importante, um balanço da curso até ali e um sucesso de vendas”.

Outros nomes importantes que discorrem sobre os próprios trabalhos são Fátima Guedes (“Sétima Arte”), Marcos Sabino (“Simples Situation”), Charles Gavin (“Televisão”, do Titãs), Leo Jaime (“Sessão da Tarde”) e Guilherme Arantes (“Despertar”).

É interessante ler o prova de Guilherme Arantes e perceber porquê ele se sentia deslocado no período: “O ano de 1984 foi muito competitivo no mercado, mormente do pop rock que dominava o rádio, a TV e o showbiz. Eu andava desnorteado com a velocidade do ‘hype’ e com a chegada de novos artistas na minha superfície, muitos ‘new romantics’ porquê Dalto e Ritchie, vendendo barbaridades, e eu havia ficado para trás”.

Alguns textos são reveladores para contextualizar o período por que passavam determinados artistas. No experiência sobre o disco “Sem Vício e Sem Raciocínio”, de Baby Consuelo, o responsável Júlio Diniz lembra que a cantora não emplacava um grande sucesso desde 1979, com a gravação da filete “Menino do Rio”, de Caetano Veloso, e que o consagrador show dela com o logo marido, Pepeu Gomes, na primeira edição do Rock in Rio, realizada em janeiro de 1985, atraiu muita atenção para a cantora. O resultado, segundo Diniz: o álbum vendeu mais de um milhão de cópias e a melodia que dava nome ao disco entrou para a trilha da romance “Roque Santeiro”.

Sobre o disco “Malandro Rife”, de Bezerra da Silva, o responsável Luiz Antonio Simas escreve: “Entre a repartição rítmica do quina do coco de embolada e o quina malandro do sincopado carioca, Bezerra produziu um contundente retrato da violência urbana e cotidiana da grande cidade e produziu, mais do que um álbum, um testemunho de uma era efervescente na política, na cultura e na sociedade brasileira”.

É muito interessante ler o texto de Leoni sobre o LP “Cazuza” e desenredar as mudanças que Leoni promoveu na letra da principal melodia do disco, “Exagerado”: “Joguei fora imagens inusitadas e primorosas, tornando a letra mais palatável ao grande público, mas um pouco menos original”.

Outro experiência revelador é o de André Piunti sobre o disco “Retrato”, de Chitãozinho e Xororó, na qual o responsável, além de se debruçar sobre o LP, revela a verdade um mercado músico sertanejo que ainda não havia atingido seu auge mercantil: “a dupla seguia incomodada com o detido do mercado sertanejo em relação ao resto da indústria músico: shows com menos estrutura, som de qualidade subordinado e discos com produções que não faziam frente ao trabalho de grandes artistas de outros gêneros”. Isso, evidente, mudaria poucos anos depois, quando a música sertaneja explodiria em todo o país.

A exemplo de quase todas as coletâneas de textos, “1985 – O Ano Que Repaginou a Música Brasileira” é um tanto irregular, alternando ensaios muito muito escritos e pesquisados com outros menos inspirados. Mas o livro vale pela visão panorâmica da música brasileira do período e também por não olvidar lançamentos independentes, porquê discos de Fellini (Lorena Calabria), Garotos Podres (Luiz Thunderbird) e Rumo (Carlos Cê Evandro).

Folha

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