Se todas as famílias felizes são iguais, as infelizes brigam cada uma à sua maneira – principalmente quando se trata de política.
O romance “Revolução”, do plumitivo e jornalista Hugo Gonçalves, de 49 anos, conta a história de três irmãos que vivem intensamente o período ulterior à Revolução dos Cravos —que, em 25 de abril de 1974, derrubou a ditadura salazarista em Portugal.
“Na campanha eleitoral de 2022, que opôs Lula a Bolsonaro, meus amigos brasileiros falavam dos cismas nas famílias, a ponto de os pais deixarem de falar com os filhos e os filhos não se falarem”, diz Gonçalves, que mora em Lisboa, mas viveu no Rio de Janeiro de 2011 a 2015. “O mesmo ocorreu em Portugal nos tempos do Processo Revolucionário em Curso, em que meu livro se passa”.
Gonçalves se refere aos meses que se seguiram ao 25 de abril de 1974. A pátria se dividiu. Alguns achavam que Portugal deveria virar um país comunista, na esfera da logo União Soviética. Outros queriam a restauração da ditadura salazarista.
Nos dois 25 de abril subsequentes —o de 1975, quando houve eleições, e o de 1976, data da ingresso em vigor de uma novidade Constituição— os portugueses optaram por uma “terceira via”: tornar-se uma democracia de cunho social nos moldes europeus.
“Quando cai um regime que tudo dominava, tudo controlava, o que existe é um zero”, afirma Gonçalves. “E nesse zero, as pessoas começam a imaginar a sociedade do horizonte”. Para Maria Luísa, uma das protagonistas de “Revolução”, essa sociedade seria socialista —e o caminho para chegar a ela passava, necessariamente, pela luta armada.
Na trama, ela entra em conflito com os irmãos mais novos, Pureza e Frederico. Pureza é uma mulher conservadora que tem o tálamo uma vez que prioridade. Frederico é um jornalista que, no Portugal fervilhante dos anos 1970, mergulha no mundo da boemia, do álcool e das drogas.
Os irmãos são tragados pela revolução de costumes que sacudiu uma sociedade reprimida por mais de quatro décadas. Portugal, uma vez que diz um dos personagens, era um lugar onde não acontecia zero, e de repente começou a suceder tudo.
“Frederico segue um caminho muito generalidade entre os jovens daquela quadra”, diz Gonçalves. “Pureza, mais recatada, também experimenta ao longo do livro sua libertação, na dimensão da sexualidade.”
Cada um dos irmãos tem preferência por um tipo de arte. Frederico é fã de música pop —Gonçalves elaborou uma playlist com as canções preferidas do personagem, que podem ser acessadas através de um QR code. Escondida na clandestinidade, Maria Luísa se refugia nos cineclubes, uma tradição em Lisboa. E o imaginário romântico de Pureza vem dos livros de Camilo Fortaleza Branco, sua leitura preferida.
Os três personagens ficcionais circulam em meio a figuras reais da Revolução dos Cravos. José Pinho de Azevedo, primeiro-ministro do governo provisório em 1975, foi sequestrado duas vezes por forças radicais. “Não sabor de ser sequestrado, isso me chateia”, reclamou depois de ser libertado pela segunda vez, numa frase que ficou famosa. Não sofreu violência —o segundo sequestro durou 36 horas.
“Há uma certa portugalidade no 25 de Abril, um humor que tentei captar em meu livro”, afirma Gonçalves. “Tivemos a sorte de ter uma revolução sem efusão de sangue, e é uma particularidade muito portuguesa ter um claro humor em meio ao caos. Procurei retratar esse lado caricato no livro”.
Não há no Brasil nenhuma data semelhante ao 25 de Abril. Em Lisboa, todos os anos, milhares de portugueses, de esquerda e de direita, descem a avenida da Liberdade brandindo cravos vermelhos. Nos últimos anos, só a ultradireita tem ficado fora da sarau. “Eu me emociono quando desço a avenida com meu rebento de três anos e posso mostrar aquilo”, diz Gonçalves.
No início de “Revolução” os personagens são retratados com tintas carregadas, mas aos poucos vão demonstrando nuances e complexidades. À medida que o 25 de Abril se torna unanimidade, a família de alguma forma se reconcilia —o que não é tão generalidade nos grupos de WhatsApp brasileiros. Em cada país, as famílias infelizes têm a sua maneira própria de pleitear por política.
