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Mais um ano literário começa e, enquanto leitores estabelecem metas de leitura, o mercado editorial põe seus planos em marcha.
Entre as previsões certeiras estão os centenários de Autran Dourado e Carlos Heitor Cony, novos lançamentos de Patti Smith, Thomas Pynchon e Mariana Enríquez, e a ingressão de diversas obras em domínio público, que devem desencadear novas edições e traduções.
Também já estão definidas as datas da Feira do Livro, da Flip e da Bienal do Livro de São Paulo, que prometem dar o que falar nos meses de junho, julho e setembro, respectivamente.
O ano anuncia ainda mais um capítulo do embate entre o mercado editorial e as empresas de tecnologia, que tem sido supercilioso. As big techs insistem que as máquinas fazem um uso justo dos livros, lendo e transformando textos uma vez que um leitor humano faria. Autores e editoras, por sua vez, veem apropriação e uma prática não consentida.
Vale seguir também os movimentos da Liceu Brasileira de Letras, que receberá Milton Hatoum em março. O Nobel de Literatura é outro ponto de atenção: se mantiver a lógica adotada desde 2017, alternando entre homens e mulheres, deve premiar uma escritora. E há ainda o Jabuti, prêmio que nunca deixa de surpreender.
Já entre as expectativas mais desafiadoras —porém mais urgentes— está o aumento do leitorado, uma preocupação manente de um mercado editorial que vê índices de leitura em declínio no Brasil.
Acabou de Chegar
“Via Gemito” (trad. Maurício Santana Dias, Todavia, R$ 139,90, 464 págs.), romance que rendeu o Prêmio Strega ao italiano Domenico Starnone em 2001, é um acerto de contas literário com a figura paterna. Na Nápoles do pós-guerra, o responsável constrói o retrato de um pai luzente e destrutivo, cuja genialidade frustrada contamina a vida familiar. Uma vez que observa a sátira Fabiane Secches, Starnone transforma os destroços da família em grande literatura.
“Tudo-Está-Ligado” (Kapulana, R$ 84,90, 364 págs.) marca o retorno de Pepetela, vencedor do Prêmio Camões, em seguida seis anos sem produzir ficção. No romance, o angolano constrói uma narrativa polifônica ambientada em Benguela, sua cidade natal, em que personagens de origens e gerações distintas se entrelaçam aos poucos. Segundo o crítico Ronaldo Vitor da Silva, o que se narra não é um revérbero genérico do país, mas sim a vibração de pessoas que habitam a cidade, revelando um responsável prudente ao contemporâneo.
“Esquema” (Alfaguara, R$ 79,90, 168 págs.) “é um romance de formação —ou deformação— de um sujeito que cresce sob os apelos da sociedade de consumo e, às margens dela”, uma vez que escreve a sátira Luciana Araujo Marques. O protagonista do livro de Jessé Andarilho é Daniel, chamado de Piloto, que começa com pequenos furtos na puerícia até uma subida meteórica à política.
E mais
Mais de 25 anos depois da estreia da série “Harry Potter”, o universo criado por J.K. Rowling continua se multiplicando, com ou sem o consentimento da autora. Em paralelo a adaptações autorizadas por J.K. Rowling, fãs da série tomam a liberdade de recontar a história do bruxo por novos ângulos e ganham seus próprios fãs. “Alchemised” (Intrínseca, R$ 89,90, 960 págs.), de SenLinYu, é o exemplo mais simbólico deste movimento —o livro que nasceu uma vez que fanfic chegou a mais de 25 países.
O livro “As Cartas do Boom” (trad. Mariana Carpinejar, Record, R$ 170,90, 590 págs.) reúne, pela primeira vez, a correspondência entre os autores que marcaram o momento literário divulgado uma vez que boom latino-americano. São mais de 200 mensagens trocadas entre Julio Cortázar, Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes e Mario Vargas Llosa. A obra, uma vez que conta a reportagem de Sylvia Colombo, permite inventar um mosaico histórico de uma geração que tentou compreender um período de turbulências através da literatura.
Em meio a grandes obras de ficção científica que fazem leitores pensarem sobre questões reais do mundo e do espaço, Tim Marshall lança “O Horizonte da Geografia” (trad. José Roberto O’Shea, Zahar, R$ 99,90, 304 págs.), que celebra o gênero, mas também assume um tom mais pragmático e geopolítico para explicar a novidade era espacial. Uma vez que escreve o jornalista Salvador Nogueira, depois de deprimir o leitor, a obra oferece uma fagulha de esperança por todas as maravilhas a serem desvendadas.
Além dos Livros
O livro “Coisa de Rico”, de Michel Alcoforado, foi o mais vendido da Todavia no ano pretérito, passando da marca de 100 milénio exemplares. O número, segundo o Tela das Letras, impressiona por se tratar de uma obra de ciências sociais. O responsável agora prepara uma versão em áudio do livro que deve ser lançada ainda neste semestre.
Uma pesquisa realizada pelo jornal The New York Times aponta que a leitura em escolas americanas alcançou mínimas históricas. De conformidade com o estudo, além de lerem menos livros, estudantes do nível secundário também leem menos obras do início ao término. Segundo depoimentos dos professores, o uso das redes sociais por segmento dos alunos tem afetado seu desempenho na leitura de textos longos ou complexos.
Nesta terça (6), o corpo da escritora Nélida Piñon foi transferido do mausoléu da Liceu Brasileira de Letras para um sepultura no cemitério São João Batista, no Rio, por decisão de Karla Vasconcelos, que cuida de seu patrimônio. A mudança reacende críticas ao estado do mausoléu que em 2023 mostrava infiltrações, paredes descascando e túmulos sem lápide. Em entrevista a Walter Porto, Vasconcelos afirmou que “as pessoas anseiam para ingressar na instituição com a promessa da ‘imortalidade’, mas na verdade estão condenadas à invisibilidade e indigência”. Do outro lado, a ABL afirma que atendeu a todos os pedidos de Vasconcelos. “O que precisava, foi restaurado”, diz a instituição.
