No dia 2 de novembro do ano pretérito, a morte de Lô Borges, aos 73 anos, impediu a realização de uma sarau planejada para 31 de janeiro. Na data em que seu irmão Márcio Borges completou 80 anos, os dois iriam comemorar uma parceria de mais de uma centena de canções que escreveram desde a formação do Clube da Esquina, um movimento de jovens músicos mineiros talentosos liderados por Milton Promanação, o “Bituca”.
No núcleo das comemorações estaria o álbum “A Estrada”, com dez faixas criadas pelos irmãos, exceto a melodia que fecha o disco, “Chegada”, escrita unicamente por Lô. “Sempre ele compôs a música primeiro e eu fiz a letra depois”, recorda Márcio. “Na nossa parceria, escrevi sempre dentro de uma métrica que me aprisionava, mas que também me dava asas para voar.”
“A Estrada” é o oitavo álbum de canções inéditas lançado por Lô Borges nos últimos oito anos, uma sequência incomum de vómito criativo iniciada em 2019, com “Rio da Lua”. Esse ritmo de produção surpreendeu muitas pessoas, mas seu irmão não está entre elas.
“Não me surpreendeu, porque eu conhecia o Lô uma vez que um compositor metódico. Um pouco compulsivo, mas era mais método mesmo. Toda manhã ele ia para o piano, ficava ali até meio-dia, uma hora da tarde. Descansava depois do almoço, e logo ia para o estúdio gravar o que tinha criado mais cedo. Era uma rotina.”
“Eu moro na roça, sou oito anos mais velho, logo fico mais retirado. Mas acompanhei todo o processo dessa série de discos. A produtividade não me surpreendia. Ele era um Peter Pan, sempre jovem. Minha surpresa foi vê-lo, em plena saúde, ir embora por um acidente lastimoso.” Lô morreu devido a uma intoxicação por medicamentos.
“A Estrada” é um álbum conceitual, com todas as faixas falando sobre a vida na estrada, em eterno movimento. É um disco de rock, com Lô tocando o violão em batidas fortes. “Eu que propus esse concepção ao Lô. Ele me mostrou umas músicas que estava fazendo e me lembrou muito Crosby, Stills, Nash and Young, aquela levada de rock mais acústico, com violão. Eu falei para a gente fazer um disco sobre nossa viagem. Pensei em confrontar nossa vida a uma longa estrada.”
Era um momento em que Márcio não estava disposto a seguir o ritmo tresloucado do irmão. Ele brinca com uma melodia de Neil Young, “Don’t Let it Bring You Down”, que tem esse primeiro verso: “Old man lying by the side of the road”.
A dupla começou a redigir as canções em 2023, depois da pandemia, e gravou todas as músicas, mas Lô estava com dois discos prontos.
Numa era em que músicos e cantores lançam cada vez mais canções avulsas nas plataformas, a devoção de Lô Borges ao formato de álbum é ainda mais peculiar. “Lô sabia muito muito que a nossa história estava meio fora de voga. A gente aprendeu escutando Yes, Pink Floyd, Jethro Tull… O próprio ‘Clube da Esquina’ é um álbum conceitual, que saiu principalmente da cabeça do Bituca e do Ronaldo Bastos. A gente criou uma unidade entre as músicas. Nós sempre fomos os caras dos álbuns.”
Outro sócio do clube, o guitarrista Tavinho Moura, toca em “A Estrada”, na filete “Chegada”. Márcio ressalta que a amizade sempre foi uma prioridade entre os artistas do Clube da Esquina. “Uma grande secção dessas músicas nós fizemos frente a frente. Com o Lô, o Milton ou qual fosse o parceiro naquela profundeza do jogo, era um na frente do outro. Com o violão e, uma vez que dizia o Bituca, com caderno e lápis. A música ‘À Tarde’, por exemplo, minha e do Bituca, a gente criou num programa de auditório. Éramos iniciantes. Um tema foi sorteado e a gente teve que fazer a música na hora.”
Os irmãos Borges conversavam muito sobre as músicas. Márcio tem uma recordação curiosa da melodia “Para Lennon e McCartney”, que é uma enunciação emotiva de paixão aos Beatles. Durante um festival estudantil de música em Belo Horizonte, em 1967, houve uma sarau. Lô estava ao piano, ao lado de Márcio, e começou a tocar a música.
“A gente está cá, um grupo de estudantes fazendo música, e os caras estão lá em Liverpool e nunca vão saber da nossa existência”, disparou Lô. E hoje Márcio acha perdão. “Isso acabou acontecendo. Temos as fotos do Bituca e do Lô ao lado do Paul! Mas isso era impensável quando fizemos a música ‘Para Lennon e McCartney.”
Márcio Borges gosta do álbum uma vez que seu presente de 80 anos. O disco foi produzido por Lô, Henrique Matheus e Thiago Corrêa. Mais material inédito deixado por Lô Borges pode permitir ainda a gravação de pelo menos dois trabalhos.





