Louisa yousfi leva debate da identidade bárbara à flipei

Louisa Yousfi leva debate da identidade bárbara à Flipei – 08/08/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

As invasões bárbaras chegam ao Brasil nesta semana com a vinda da jornalista francesa de origem argelina Louisa Yousfi, autora do provocativo tentativa “Permanecer Bárbaro: Não Brancos Contra o Predomínio”, em que eviscera as contradições da dita cultura ocidental.

A escritora de 37 anos é convidada da Flipei, a Sarau Literária Pirata das Editoras Independentes. Ela fala no dia 9, às 19h, apresentando a tese de seu tentativa —um invitação para que os vistos porquê subalternos adotem suas identidades bárbaras, recusando se integrar aos civilizados.

A Flipei, que acontece até domingo em São Paulo, nasceu porquê um contraponto à Flip, em Paraty. Ligada à militância de esquerda, é o palco ideal para alguém porquê Yousfi, que se consolidou com seu tentativa de 2022 porquê uma referência de rebeldia.

Yousfi participa do evento em um momento quebrável. A Flipei tinha um contrato para ocupar a rossio das Artes neste ano, mas a Instalação Theatro Municipal, ligada à prefeitura, voltou detrás a menos de uma semana do início do festival.

A fala de Yousfi agora acontecerá no Galpão Elza Soares, ainda no meio da cidade, e todo esse vaivém reverbera na sua obra. Antes de embarcar, ela disse à Folha se entusiasmar com a visitante porque “há ressonâncias subterrâneas entre as histórias da Argélia e do Brasil”, vítimas da violência colonial.

Yousfi teve a teoria do tentativa a partir de um texto do jornalista argelino Kateb Yacine. “Sinto que tenho tantas coisas a expor que é melhor que não seja sobejo instruído. Tenho que manter uma espécie de barbárie, tenho que permanecer bárbaro.”

A frase está inserida em um contexto específico que pode evadir aos leitores brasileiros. A França colonizou a Argélia de 1830 a 1962, em um processo feroz que deixou centenas de milhares de mortos. A guerra de independência argelina é uma das causas célebres da esquerda global.

Uma vez que resultado, milhões de argelinos e descendentes vivem na França, entre os quais a família de Yousfi. Foram forçados pela história a se integrar à cultura francesa. “Isso significou despovoar àquilo que nos era precípuo: nossas tradições, religiões, línguas e culturas”, diz a escritora.

Quanto mais se “domesticou”, nas suas palavras, mais se sentiu incapaz de grafar. Tinha menos coisas a expor. “Uma vez que alguém pode grafar depois de passar toda uma vida reprimindo sua autenticidade?”, pergunta.

Vem daí a sua pulsão por retomar sua “identidade bárbara”. O termo era um insulto proferido pela cultura ocidental contra aqueles que explorava, diz ela. “Adotá-lo é um ato deliberado de reversão do estima.”

Yousfi rejeita inclusive, no texto, a teoria de que seja franco-argelina. O hífen engana ao fazer parecer com que França e Argélia estão em um pé de paridade, diz. Apaga a violência da colonização e faz parecer que o problema hoje é só uma tensão cultural.

O tentativa tem um ritmo vertiginoso, quase com o de um vômito súbito, em que Yousfi transita entre teorias e referências sem se estagnar. É energizante, mas recebeu também críticas pela falta de um busto teórico sólido —por exemplo, na definição de quem são os bárbaros.

Yousfi fala ao longo do texto de colonizados, escravizados e subjugados. Trata da barbárie porquê se fosse “um território selvagem dentro de nós”, um “terreno intocado que o predomínio falhou em invadir” e que precisa ser protegido “porquê alguém protege os seus tesouros mais sagrados”.

À reportagem Yousfi diz que adotou uma “estética da insolência”. Não quis que o tentativa usasse as tradicionais técnicas acadêmicas —notas de rodapé e referências bibliográficas— porquê instrumentos de domínio. Em vez disso, usou-as porquê “armas escavadas no coração da cidade”.

São estratégias que aprendeu com pensadores latino-americanos, entre os quais cita o prateado Enrique Dussel, expoente da filosofia da libertação. Fala sobre a América Latina porquê o rudimento de sua formação intelectual decolonial. Daí seu excitação com a passagem pelo Brasil.

“Para mim, é porquê voltar à nascente”, diz. “Não para ensinar, mas para escutar essa longa memória e para ver porquê as resistências populares —sejam aquelas nascidas nas favelas ou nos bairros ao setentrião de Marselha— podem falar umas com as outras e inventar novos caminhos juntas.”

Folha

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