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Maria Fernanda Cândido reencontra Frateschi no teatro 16/10/2026
Celebridades Cultura

Maria Fernanda Cândido reencontra Frateschi no teatro – 16/10/2026 – Ilustrada

A formação marxista levou o ator e diretor Celso Frateschi, de 74 anos, a refletir sobre a luta de classes ao longo das cinco décadas de curso nos palcos. Em sua montagem mais recente, “Quando Despertarmos de Entre os Mortos”, no entanto, o foco é o ser humano.

“Na minha opinião, a ação política mais importante agora é falar: estamos vivos e somos humanos”, diz. “Vivemos um momento de muito revés. As pessoas estão entrando em comportamentos que precisam de uma lupa para vermos onde vai dar tudo isso.”

O último texto escrito pelo dramaturgo Henrik Ibsen (1828-1906) foi escolhido por permitir uma espécie de diálogo com a atualidade ao mostrar que a vida acontece enquanto esperamos por ela.

Em papeleta no Sesc Pinheiros, em São Paulo, a peça mostra o reencontro do estatuário Rubek (Frateschi) com sua antiga musa, Irene (Maria Fernanda Cândido). No núcleo da trama estão as escolhas feitas em nome da geração artística, com a tentativa do estatuário de resgatar a própria história em seguida o matrimónio infeliz com Maja (Maria Manoella).

A dramaturgia foi debatida no teatro Ágora, espaço cultural mantido por Frateschi e pela mulher, a arquiteta e cenógrafa Sylvia Moreira, a partir do libido de apresentar uma obra selecção à tendência atual das encenações documentais, muitas vezes faladas em primeira pessoa.

A opção foi pela retomada de características teatrais mais tradicionais, uma volta à ficção com cenário em três ambientes que acompanham o desenvolvimento da história —o solário de um hotel, um jardim e uma rampa que representa as montanhas nórdicas.

“Ibsen nos revela a nós mesmos, e isso se dá pela qualidade de seus textos, que expõem artisticamente as nossas mazelas humanas”, diz o ator, que encena um texto do norueguês pela primeira vez, sob a direção de Elias Andreato.

O libido enunciado de Maria Fernanda Cândido de voltar a trabalhar com o fundador do Ágora foi também um roupa importante. A formosura diáfana e a atuação delicada da atriz de 52 anos se encaixam no papel da musa que ressurge porquê um espectro para lembrar a vida desperdiçada em nome da arte.

Há 25 anos os dois contracenaram no espetáculo “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, uma adaptação de Maria Adelaide Amaral para o romance de José Saramago. A atriz, que vive na França com a família, quis retomar a parceria marcante e, ao mesmo tempo, matar a saudade de fazer teatro no Brasil.

“Somos provocados por esse texto sobre o ato de viver. Lembro sempre do Antônio Abujamra com a pergunta: o que é a vida? E isso a peça traz”, diz.

Fora da ficção, o momento é de inquietação da classe artística com a possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro (PL) na campanha para a Presidência e a subida da extrema-direita ao poder em outros países.

“Tivemos uma experiência assustadora no governo de direita cá: o [Joseph] Goebbels falando em rede vernáculo. É muito aterrorizante essa perspectiva”, diz Frateschi, ao lembrar o vídeo publicado pelo dramaturgo Roberto Alvim em janeiro de 2020, quando era secretário de Cultura do governo de Jair Bolsonaro (PL).

Alvim citou trechos de exposição de Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, ao vulgarizar o Prêmio Vernáculo das Artes, e provocou uma vaga de indignação que culminou com a sua deposição. Além dos trechos do pronunciamento, a estética do vídeo, a semblante do portanto secretário, o tom de voz e a música da ópera “Lohengrin”, de Richard Wagner, levaram à conferência com a propaganda nazista.

“Eu também sinto inquietação ao olhar o movimento do mundo”, afirma Cândido. Ela cita o propagação político da ultradireitista Marine Le Pen na França e o governo de Donald Trump nos Estados Unidos. “É tremendo e triste.”

O temor está diretamente relacionado à sobrevivência artística. Frateschi afirma que a evolução do teatro brasílico foi interrompida durante a ditadura militar. “O teatro não é imune, pelo contrário. Às vezes é o primeiro a ser atingido”, diz.

No período repressor, artistas que despontavam tiveram as trajetórias estancadas, houve repreensão, perseguição, prisões e mortes. O próprio Frateschi foi recluso duas vezes, uma delas enquanto encenava uma peça no Theatro São Pedro, em São paulo.

“Há uma morte que não acontece no corpo. Acontece lentamente. Quando deixamos de desejar. Quando o temor começa a escolher por nós. Quando nos acostumamos àquilo que já não nos faz vivos”, afirma o diretor Andreato sobre a peça de Ibsen e o revérbero da dramaturgia na verdade.

“Quando Despertarmos de Entre os Mortos” é dedicada ao ex-deputado estadual Paulo Frateschi (PT), irmão do protagonista da peça, assassinado em novembro de 2025.

Folha

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