Marroquina cria distopia sobre vigilância por algoritmos 06/02/2026

Marroquina cria distopia sobre vigilância por algoritmos – 06/02/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Laila Lalami acordou tarde em um dia de 2014 e olhou para o celular. Viu na tela uma notificação dizendo que, se quisesse chegar a tempo para sua prática de ioga, precisaria transpor logo de morada. Em vez de ajudar, o aviso a incomodou. Ela se sentiu invadida pela onisciência da máquina.

Com base no incômodo, essa celebrada autora marroquina-americana decidiu grafar um romance sobre uma sociedade vigiada e punida por algoritmos. O texto levou uma dez para tomar forma, entre outros projetos, e finalmente saiu em 2025 porquê “O Hotel dos Sonhos”. No Brasil, o livro foi editado pela Record, com tradução de Laura Folgueira.

“Estamos entregando nossos dados para essas empresas o tempo todo”, diz Lalami à Folha, em entrevista por vídeo. “Quis levar essa situação à sua desenlace lógica e ao seu limite contraditório”, afirma a autora, que em 2015 foi finalista do Pulitzer com “Memórias de um Servo”, sobre o marroquino Estevanico, dito o primeiro africano a explorar as Américas.

Na distopia que Lalami criou, as pessoas não somente compartilham sua localização e seu código genético —coisas que já fazem hoje—, mas também seu inconsciente. Instalam implantes que, em tese, ajudam a dormir melhor. Nas entrelinhas dos contratos, permitem que as empresas analisem seus sonhos. “Nem mesmo nossos pensamentos são privados.”

A desenlace lógica e absurda dessa situação, no romance, é que os governos têm entrada a esses dados e passam a prender pessoas com base em algoritmos capazes de prever crimes. É o que acontece com Sara Hussein, protagonista do livro, que acaba detida por conta de um sonho.

O romance, porquê notaram diversos críticos e leitores, tem um quê de “Minority Report”, o filme de 2002 em que Tom Cruise também é vítima de uma prisão preventiva determinada por máquinas. Não é, porém, uma história de ação. Quase pelo contrário: Lalami narra a rotina lenta e tediosa da detenta Sara, que procura entender o pesadelo punitivo.

Outra referência óbvia é “O Narrativa da Criada”, que a própria Lalami cita na entrevista. Todas as detentas de “O Hotel dos Sonhos” são mulheres. “Sistemas de vigilância e controle podem ser universais, no sentido de afetar todas as pessoas, mas não são neutros”, diz. Afetam alguns mais do que outros, a depender de marcadores —porquê gênero, raça e classe.

Essa é, talvez, a mensagem mais impactante do romance. Fica evidente, ao longo da leitura, que Sara é punida não só por seus sonhos, alguns dos quais são violentos. Também é castigada por não se resignar às expectativas de gênero. Não fala grave, nem abaixa a cabeça. “Porquê mulheres, existem expectativas sobre porquê temos que nos comportar”, diz Lalami. “Quando não nos adequamos a isso, chamamos a atenção.”

O livro mostra, assim, que os sistemas punitivos não são somente aqueles que literalmente colocam uma pessoa na prisão. Incluem, em vez disso, os mecanismos sociais que ditam, por exemplo, o que uma mulher deve vestir. Durante a entrevista, Lalami veste uma camiseta com a frase “parem as guerras”, imitando o logotipo do filme “Guerra nas Estrelas”.

Outro ponto medial de “O Hotel dos Sonhos” é a sátira de Lalami ao quanto nossa sociedade depende de sistemas de informação. Plataformas minam e revendem dados de usuários, um tanto que a autora compara ao colonialismo do século 16. “Agora invadimos continentes não pelo açúcar e ouro, mas pela informação, nossa novidade fronteira expansionista.”

Por isso é tão relevante que a protagonista seja uma historiadora que trabalha em arquivos. Isso permite que Lalami conte a história a partir de alguém que entende que os dados de uma pessoa não dizem tudo. “São só visões parciais que não dão conta do humano e de seu contraditório.”

O livro não é um ataque às máquinas em si —e sim às pessoas que as criaram. A teoria de que os algoritmos são neutros serve, afirma Lalami, para eximir as empresas de tecnologia de sua responsabilidade. Se um algoritmo determina que o projecto de saúde não cobre determinada operação, as firmas dizem que se trata de uma decisão técnica. “Mas o algoritmo foi escrito por alguém”, diz. “Logo você pode reescrevê-lo.”

Folha

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *