Masp questiona ideia de América Latina em mostra coletiva – 14/09/2026 – Ilustrada
É impossível atribuir à América Latina uma única definição. Composta por 20 países, a região engloba diversas culturas e cicatrizes, legado das nações que tentaram impor seus códigos sobre povos latinos. Daí surge a maior exposição que o Masp apresenta oriente ano, com quase 200 obras divididas entre cinco andares do prédio Pietro Maria Bardi.
Independentemente da ordem seguida, a sensação é de se passar diferentes planos de existência, que vão da cosmologia de povos originários a projetos de modernidade que serviram à colonização.
No núcleo mais próximo ao solo, os trabalhos exploram tradições indígenas e reveem o gavinha entre varão e natureza. É o caso da pintura de Beatriz González, em que rotas migratórias transformam um território virente, dos vasos do peruviano Manuel Chajavay, pendurados no teto porquê estrelas, e da árvore genealógica do salvadorenho Guadalupe Maravilla, um tipo de serpente monumental feita de palha e outros materiais.
Andares supra, a tridimensionalidade de peças porquê a última dá lugar a quadros planos, com arranha-céus, fábricas e outras estruturas excludentes de cidades porquê São Paulo, Buenos Aires e a Cidade do México —essa, aliás, toma uma tela de Juan O’Gorman, que sobrepõe um planta avito e uma visão panorâmica de prédios e ruas e põe em rota de colisão as duas organizações.
O uniforme de Damián Ortega, feito de sacos de cimento, e fotos de Marcelo Cidade, que inserem “glitchs”, isto é, falhas eletrônicas, sobre a paisagem de favelas, são outros trabalhos que denunciam mecanismos de controle. Também se destaca a instalação da mexicana Mariana Castillo Deball, que desenhou São Paulo no solo com traços pré-coloniais.
Ao volta, vegetalidade da cidade de Brasília e projetos modernistas de Lúcio Costa e de outros arquitetos criam tensões entre as formas de se pensar o espaço urbano. O choque entre esse segmento e o da cosmologia indígena evidencia inteligências além das corporativistas, por vezes taxadas de primitivas, diz a curadora Amanda Carneiro.
“A teoria da mostra é apresentar a América Latina porquê uma elaboração, um rizoma de vários grupos que criaram suas estratégias para também ser felizes. Não queremos que ninguém saia daqui devastado”. Ela cita o título de outra seção, “Estamos em Salsa”, que empresta a dança de raízes cubanas e caribenhas a obras que recuperam iconografias culturais.
A leito construída pelo porto-riquenho Pepón Osório é um repositório desses elementos, com bonequinhas, cabeças de plástico, adesivos de borboletas, estátuas fálicas e até uma serpente sintético espalhados pela estrutura. Junto a quadros e fotos de outros autores, que retratam a vida noturna em países latinos, a estátua atua porquê um ponto de encontro entre a privacidade e símbolos públicos.
No mesmo andejar, Antonio Custoso e os brasileiros Cildo Meireles e Rivane Neuenschwander reveem signos porquê a Coca-Cola, usurpando, respectivamente, a tipografia da marca, a garrafa do resultado e o seu próprio título. No caso de Neuenschwander, ela inscreve o nome da mercadoria entre seres bizarros, em uma tela da série “Hidra Numulário”.
Carneiro ainda destaca obras que ressignificam tacos, bananas e outras commodities —em fotos de Anna Bella Geiger, ela desenha o Brasil ao arrancar partes do miolo de fatias de pão. “Ao pensar a exportação de produtos porquê a Coca-Cola, denunciamos um eficiente processo de trânsito ideológico e imperialista.”
Ainda nesse núcleo, uma instalação do cubano Carlos Garaicoa prende, em potes de vidro, frutas, pedras, grãos e maquetes de prédios. É porquê se a obra submetesse esses símbolos a métodos científicos, por vezes usados para estudar e controlar seres vivos.
Esse raciocínio também é revisto em “Sociedades Americanas”, que destaca a independência de povos latinos. Para isso, foram eleitos Abdias do Promanação, que inscreve saudações de matriz africana na bandeira do Brasil, Paulo Nazareth, que mostra elos entre corpos negros —nesse núcleo, uma foto sua mostra homens com a placa “irmãos”—, e o porto-riquenho Daniel Lind-Ramos, cuja estátua retrata um navio pleno de símbolos, porquê instrumentos musicais e sacos com datas de episódios coloniais.
Perto dali, uma pintura de Marcela Cantuária reimagina o montão do Masp só com obras de mulheres e mostra algumas dessas autoras andando entre os cavaletes.
Já em “O Mundo ao Revés”, explica Carneiro, a teoria é ilustrar porquê os ideais cristãos, impostos por forças externas, foram reapropriados por povos latinos. Exemplos disso são “Our Lady”, quadro de Psique Lopez que parodia a Virgem de Guadalupe —porquê artista queer, a mexicana importa corpos dissidentes para cenários religiosos—, “Quadro Ferido’, em que Adriana Varejão põe uma espécie de cicatriz numa obra chinesa do século 12, e a tela em que Vivian Caccuri compara o parasitismo estrangeiro ao de insetos.
Entre outros destaques dessa seção, também se destaca uma obra inédita de Sandra Gamarra Heshiki, em que a artista revê uma cartografia histórica com o tom avermelhado de um óxido de ferro, e uma estátua de Márcia X, artista conhecida pela veia erótica que, cá, pendura artigos religiosos num objeto fálico.
“A teoria é questionar uma moralidade que veio de fora e pautou o comportamento de populações locais”, afirma Carneiro. “No universal, priorizamos obras que não seguem, necessariamente, escolas ou cronologias já legitimadas, mas que proporcionam uma taxa atual ao seguir por um partido dissemelhante.”





