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Maurício Pereira deixa a crônica no disco O Dia da
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Maurício Pereira deixa a crônica no disco O Dia da Girafa – 29/07/2026 – Ilustrada

Maurício Pereira passou boa secção da curso tentando grafar de um jeito que nunca foi exatamente o seu. Apreciador confesso da simplicidade de Erasmo Carlos e da música popular direta, carregou por anos a sensação de que precisava ser mais inteligível, menos tortuoso. Só depois de décadas de curso, de uma temporada na psicanálise e de um isolamento que coincidiu com a pandemia de Covid-19, concluiu que a procura era inútil. Nunca seria aquele compositor. E, finalmente, deixou de tentar.

Essa mudança de perspectiva desemboca em “O Dia da Girafa”, primeiro álbum de inéditas lançado pelo paulistano em oito anos. No disco, Pereira se afasta das canções que lembram crônicas, que observavam a cidade e seus personagens e pequenos acontecimentos cotidianos. Agora elas parecem intercorrer quase inteiramente dentro da própria cabeça. “Em tempos normais, sou historiógrafo. Sob pressão, funciono mais poeticamente”, diz.

As letras nasceram durante a pandemia, período em que, além do confinamento, Pereira acompanhava a escalada de mortes provocadas pela Covid e vivia sob o governo Jair Bolsonaro.

O Dia da Girafa é comemorado em 21 de junho, considerado o mais longo no hemisfério setentrião, marcando o solstício de verão. Faz qualquer sentido, logo, batizar um disco feito na pandemia, quando os dias eram infinitos. Para um músico viciado a passar boa secção do tempo em palcos e estradas, o silêncio imposto pelo isolamento acabou encontrando uma saída na escrita.

Sem intenção de publicar zero, passou a preencher cadernos. Escrevia para desapoquentar a pressão, porquê quem registra pensamentos antes que eles desapareçam. Quando voltou àquelas páginas, encontrou 18 textos. Dez se transformaram nas canções do novo disco; os demais já formam um segundo volume.

O próprio compositor percebe uma mudança no resultado. As associações tornam-se menos literais, as imagens substituem as narrativas lineares e o significado parece evadir de interpretações únicas. A faixa-título, por exemplo, foi resultado de escutar na rádio as frases desconexas, mas bastante imagéticas —”O dia da girafa/ da nuvem de gafanhotos”.

Pereira atribui secção dessa liberdade à psicanálise. Foi durante o processo terapêutico que descobriu a teoria freudiana da livre associação —princípio que passou a incorporar também na constituição. Em vez de perseguir uma lógica narrativa, passou a encarregar nas conexões inesperadas entre palavras, imagens e lembranças.

A constatação teve um efeito libertador. Durante anos, diz, se culpou por não conseguir grafar porquê seus ídolos. Hoje entende que sua formação cultural, sua trajetória e o lugar que ocupa na música brasileira inevitavelmente o levaram para outro caminho.

Essa sensação de nunca pertencer completamente a um lugar acompanha Pereira desde o início da curso. Antes da música, formou-se em jornalismo e trabalhou porquê revisor, redator de televisão e radialista. O cantor, que se autodenomina um músico tardio, diz que teve que decorrer detrás do tempo perdido. “Coisas que qualquer moleque da música resolve aos 25 anos, eu fui resolver aos 42.”

A profissão artística só ganhou forma já adulto, quando conheceu André Abujamra e passou a integrar o Mulheres Negras, dupla que se tornaria uma das experiências mais inventivas da música paulistana dos anos 1980.

Nem mesmo ali, porém, havia a sensação de juntura. O grupo chegou a gravar pela Warner, mas nunca encontrou espaço confortável na indústria fonográfica.

A curso solo também foi marcada por desencontros. Discos porquê “Na Tradição” e “Reprofundar na Surpresa”, hoje celebrados por uma geração de músicos paulistanos, passaram quase despercebidos quando lançados nos anos 1990. “Nessa era, pensei ‘vou grafar meu último disco e depois vou caçar um tarefa’”.

Foi unicamente nos anos 2000, quando uma novidade geração da cena independente passou a redescobrir sua obra, que a trajetória ganhou novo impulso. Artistas porquê Rodrigo Campos, Kiko Dinucci, Juçara Marçal ajudaram a reposicionar seu trabalho diante de um público que via em suas canções uma referência para a música produzida em São Paulo e que faziam um claro ode à cidade.

Pereira também viveu uma curiosa inversão de papéis. Por um período, virou “o pai do Tim Bernardes”. Ele viu no sucesso do fruto e no surgimento de uma novidade cena paulistana a oportunidade de voltar a circunvalar entre músicos mais jovens, que passaram a enxergar em sua obra uma influência direta.

Hoje, aos 66 anos, Pereira se vê contornado justamente por músicos de diferentes gerações. “O Dia da Girafa” reúne parceiros porquê Rômulo Fróes, Edison Natali, Lu Horto, Tim Bernardes, Chico Bernardes, que também é fruto do cantor, e o produtor Biel Basile, responsável por dar unidade ao disco. Além de Thiago França, que traz sua charanga para a filete “O Leme É um Lugar Genial”.

O encontro, diz, aconteceu por afinidade. Pereira costuma manifestar que precisa tocar com músicos capazes de compreender o que suas letras querem manifestar antes mesmo de pensar nos acordes.

Essa convívio também ajuda a alongar qualquer teoria de nostalgia. Embora fale com frequência sobre rádio, discos e a indústria fonográfica do século pretérito, Pereira evita transformar o presente em simples decadência.

Ele lamenta que o streaming tenha reduzido drasticamente a remuneração dos artistas independentes e acredita que a opulência de lançamentos tornou mais difícil erigir carreiras duradouras. Ao mesmo tempo, celebra a possibilidade de deslindar músicas vindas de qualquer lugar do mundo e continua prudente ao que músicos mais jovens produzem. Admite, porém, que ouvir música já não acontece da mesma maneira.

Pereira ainda é responsável do livro “Minha Cabeça Trovoa – As Letras que Eu Fiz e Suas Histórias”, escrito a partir da pergunta “Quando a gente canta alguém presta atenção na letra?”, na música “Um Dia Útil”. Depois de mais de quarenta anos de curso, a resposta parece ser “sim”.

E mais que isso, Maurício Pereira parece ter encontrado um lugar que passou boa secção da vida procurando. “Eu passei muitos anos querendo ser simples. Depois entendi que o meu caminho não era esse.”

Folha

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