Michel Teló mistura tribos em disco eclético de medleys – 10/09/2026 – Ilustrada
Aos 45 anos, com 33 de curso, Michel Teló é a rosto simpática do sertanejo moderno. Além do carisma no palco, há anos ele tem circulado em programas televisivos de vários formatos. E a naturalidade diante da câmera fez seu sucesso crescer exponencialmente. “Eu me sinto à vontade falando de música”, diz o cantor. “E posso mostrar um lado mais pessoal do Michel sertanejo.”
Essa evidente cumplicidade com o público permitiu a Teló lançar um projeto despretensioso, somente por diversão. Depois de ter gravado no ano pretérito o primeiro álbum, chega agora “Sertanejinho do Teló, Vol. 2”. Nos dois repertórios, as escolhas de sucessos de outros artistas proporcionam regravações que ultrapassam o sertanejo.
Se o disco anterior reuniu hits de pop, rock, samba e outros gêneros, em performance descontraída, para o segundo volume, Teló manteve o ecletismo, mas radicalizou numa opção de formato que já despontava no promanação do projeto. O modo medley é seguido em todas as faixas, com duas músicas ligadas em uma única gravação.
“Juntar as canções é um tanto criativo e jocoso. O álbum inteiro saiu em poucos dias, eu e a orquestra na garagem de mansão. A gente tocava e sentia aquelas que batiam no coração. Escolhas afetivas”, define o cantor. E a seleção vai de Claudinho e Buchecha a Roberto e Erasmo Carlos.
Escutar as faixas de “Sertanejinho, Vol. 2” pode servir uma vez que risota entre amigos. Numa audição aleatória, o ouvinte pode ser desafiado a deslindar quais são os artistas das versões originais. E muitas canções “parceiras” soam muito entrosadas, uma vez que a união de “Burguesinha”, de Seu Jorge, com o hino do pagode “Sai da Minha Aba”, do Só Pra Contrariar.
Em alguns momentos, uma filete remete até a três artistas na memória afetiva do público. É o caso de unir “Na Rua, na Chuva, na Herdade (Casinha de Sapé)” com “Coração”. A segunda é um hit vernáculo do Aviões do Forró, enquanto a primeira pode tocar fundo em duas gerações diferentes, porque teve sucesso na voz de seu compositor, Hyldon, nos anos 1970, e foi apresentada a uma outra geração 20 anos depois, no cover do Kid Zangão.
“Eu reúno a orquestra na minha mansão, na garagem, no subsolo. É uma galera grande. Quatro percussionistas, guitarra, plebeu, batera, eu com a minha sanfona, e a gente sai tocando. Escolhe com qual vai debutar e o resto vai aparecendo.”
Muitas músicas são favoritas de Teló e dos integrantes da orquestra, mas algumas vêm de lembranças profissionais. Assim, é uma mistura de gerações, de Chrystian e Ralf a Luan Santana. “Eu recordo as músicas que tocava nos botecos de Campo Grande. Vira uma risota, gravar fica fácil.”
Essa opção por misturar gêneros em clima de sarau de perceptível modo transforma Teló numa representação de um fenômeno mais ou menos recente da música no Brasil. Até qualquer tempo detrás, as tribos de preferências musicais não se misturavam muito. A turma do rock não gostava do samba, e os públicos de sertanejo e pagode eram muito distintos, para permanecer em somente dois exemplos.
Hoje, a geração Z parece menos aprisionada a um gênero, e isso se reflete nos cada vez mais numerosos festivais de grandes palcos, nos quais vários gêneros se alternam diante de uma plateia eclética. Teló concorda com essa tese.
“É exatamente isso. Antigamente, quem gostava de tendência de viola só ouvia isso. O pessoal do rock não ouvia outra coisa, e andava sempre com as camisetas pretas. Cada um defendia sua tribo e até tinha raiva da outra. Hoje todos estão mais ecléticos. Eu vejo na minha família, os mais jovens escutam de tudo.”
Teló diz que a teoria do “Sertanejinho” veio mesmo das festas da família. “Tem nostalgia, a gente buscando músicas de momentos que cada um viveu. Tem músicas que ultrapassam os gêneros. Eu coloco nelas o toquezinho da sanfona, essa batida do sertanejo.”
Sobre levar essas músicas ao palco, Teló acredita que fazer um show só com o projeto “Sertanejinho” seria um tanto muito dissemelhante. “As gravações dos dois álbuns já reúnem mais de 40 canções”, diz Teló, estimando umas três horas no palco para dar conta de todo o repertório.
“Mas eu tenho que trovar as minhas músicas, né? E tem o modão de viola, que eu preciso trovar. Logo vou contemplar algumas no show. Porque se juntar os dois ‘Sertanejinhos’ não vai ter hora para perfazer.”
Teló admite que sua voz e até o jeito de trovar não podem ser classificados uma vez que um vocal sertanejo tradicional. “Nunca quis mudar o jeito de trovar. Minha voz é um pouco mais suave, não é um timbre procedente dentro da música sertaneja. Mas sempre fiz do meu jeito.”
Apesar de muitos sucessos na curso, uma vez que o hit internacional “Ai Se Eu Te Pego”, Teló deu um salto de popularidade com sua guinada para os estúdios de TV. A teoria inicial do programa de entrevistas “Muito Sertanejo”, no qual mostrava encontros com astros do gênero, era divulgá-lo no meio de Teló no YouTube.
“Nunca imaginei que o ‘Fantástico’ se interessaria. Gravamos um piloto, com o Xororó, e daí foram duas temporadas”, recorda. O sucesso trouxe o invitação para substituir o também sertanejo Daniel com um dos técnicos do “The Voice Brasil”.
E ele ficou marcado uma vez que um vencedor do programa, com muitos vencedores que participaram de suas equipes. “Eu descobri a televisão uma vez que um lugar em que eu sabor de estar. Eu me sinto em mansão.”





