Era preciso rasgar o rosto para reencontrar a espírito. Esta poderia ser a premissa radical de “Escute as Feras”, peça que adapta o relato autobiográfico da antropóloga Nastassja Martin – atacada por um urso na Sibéria –, mergulhando nas feridas abertas da exigência humana no Antropoceno. O solilóquio, protagonizado por Maria Manoella e concebido em conjunto com a diretora Mika Lins e a filósofa Fernanda Diamant, transforma uma história de sobrevivência em experiência sensorial e filosófica, onde os limites entre humano e bicho, cultura e mito, se dissolvem no palco.
O acidente vivido por Martin funciona porquê rito de passagem arquetípico. A antropóloga se transforma em miêdka, um termo da cultura dos Evens – grupo étnico que vive em regiões inóspitas, porquê a tundra e a taiga siberiana – para nomear a “pessoa marcada pelo urso”, um ser “meio a meio”. Esta não é uma personagem, mas um estado de existência que Maria Manoella incorpora em cena. Seu corpo é o campo de guerra onde se trava uma luta silenciosa entre a razão ocidental e o chamado indomável do selvagem.
Para dar forma ao indizível, o espetáculo abandona o realismo e investe na geração de um microclima onírico. A dramaturgia sonora, assinada por Lúcio Maia, é a presença invisível da fera. A música ao vivo constitui a paisagem psíquica da peça, materializando o inconsciente que irrompe na narrativa. A iluminação de Caetano Vilela esculpe esses estados liminares, alternando entre a frieza clínica do hospital e a floresta primordial, enquanto o figurino de Fábio Namatame transforma a cicatriz em um planta simbólico de renascimento.
A escolha por uma geração majoritariamente feminina imprime um olhar específico sobre o traumatismo. A violência sofrida pelo corpo feminino é encenada porquê ponto de partida para uma rebelião ontológica. A protagonista não luta contra um urso, mas contra as estruturas binárias que tentam definir quem ela deve ser em seguida a ruptura. Sua jornada é uma reescrita radical de si, uma recusa em se resignar às categorias pré-estabelecidas.
O espetáculo nos convida a uma escavação interno. Sua proposta mais ousada é a de que a única saída para a crise do sujeito moderno talvez seja aprender a escutar as feras que habitam em nós – e, naquele limiar de sombra e instinto, encontrar uma novidade possibilidade de ser.
Três perguntas para…
… Mika Lins
Poderíamos encetar falando sobre o processo de tradução dessa experiência subjetiva – o traumatismo, a transformação, o encontro com o selvagem – em uma linguagem cênica concretamente percebida pelo público. Porquê esse vocabulário visual, sonoro e corporal foi concebido e desenvolvido pela direção?
Essa é a questão medial. Desde o início, nós – eu, a Fernanda e a Manoella – tínhamos muito simples que o coração da peça não estava na estudo antropológica que a personagem faz, mas na experiência sensorial e brutal daquele encontro. Para mim, pessoalmente, tudo girava em torno do urso. Era a imagem que me obsedava desde a primeira leitura do livro. Porquê colocar o público dentro da cabeça daquela mulher? Porquê fazer com que eles não exclusivamente ouvissem, mas sentissem aquele impacto? A gente sabia que o risco era a peça virar uma palestra ou alguma coisa literal que mataria a potência simbólica.
A linguagem, logo, nasceu daí. Foi um processo orgânico que começou com a Manoella e o Lúcio explorando a sonoridade, criando uma atmosfera que era quase um personagem. A Daniela [Thomas] criou aquele cenário vulcânico, lunar, de borracha, que não representa um lugar real, mas um estado interno. A minha teoria para a encenação era: quanto menos a gente “abrisse” a experiência para o público, escolhendo momentos muito específicos de contato, mais próximo o testemunha ficaria da solidão e da intensidade daquela vivência. A luz, as projeções, a música… tudo converge para essa teoria de entrar no corpo e na mente daquela pessoa que, de certa forma, também se transforma em urso. É uma hibridização que a gente tentou trasladar em todos os elementos.
Pode nos racontar porquê foi esse diálogo entre a equipe de geração e porquê elementos específicos, porquê a cabeça de urso e a sonoridade, emergiram e ganharam camadas de significado durante o processo?
Foi uma construção coletiva maravilhosa, onde as ideias iam se encaixando. O cenário da Daniela, um praticável predisposto e com essa textura de borracha, já estabelecia um campo de instabilidade, um não-lugar que era perfeito. O figurino nasceu de uma roupa minha, que tinha um ar hospitalar, e que o Fábio Namatame transformou naquela vestimenta que é ao mesmo tempo um uniforme galeno e uma segunda pele vulnerável.
Agora, a história da cabeça do urso é privativo. Um dia, o Lúcio, que é pernambucano, nos contou sobre o “La Ursa”, um conjunto de carnaval de Pernambuco [e da Paraíba]. Fomos pesquisar a origem e descobrimos que vem dos Balcãs, de uma prática cruel onde ursos eram adestrados para dançar sobre brasas quentes. A proibição do método não apagou a imagem do urso que dança, que veio parar no Brasil. Essa invenção foi um presente. Aquela crueldade antepassado ecoava perfeitamente com a história da nossa personagem.
E foi aí que a teoria luzidio da Fernanda se encaixou: dar voz ao urso. Não só a visão da mulher, mas a dele. Isso deu o fechamento que a peça precisava. Criamos aquele final em que o urso, com a cabeça da La Ursa que mandamos fazer diretamente de Pernambuco, fala. É quando todas as linhas se conectam: a história individual da mulher, a cultura popular brasileira, a música do Lúcio (que inclusive traz um Chico Science), e essa força da natureza que, de repente, olha para nós com deboche e questionamento. É a universalidade que a gente buscava.
Porquê você vê a sonância dessa história de traumatismo e reconstrução da identidade com o público contemporâneo? E o que o trabalho com a Maria Manoella, uma atriz com uma presença tão uno, revelou sobre essa jornada?
Eu acho que o que toca as pessoas é exatamente ver porquê o traumatismo, aquilo que quase a destrói, é metabolizado e acaba se tornando secção da identidade dela. Não é sobre superar no sentido de extinguir, mas de incorporar. Ela perde secção do rosto, perde a face social, e precisa se reconstruir a partir dali. A cicatriz vira secção de quem ela é. Isso é profundamente humano e contemporâneo: a teoria de que não saímos ilesos da vida, mas que podemos, de alguma forma, nos reconstituir com as marcas.
E a Manoella foi a condutora perfeita para isso. Ela é uma atriz incrivelmente técnica, disciplinada e, o que é um dom para um diretor, absolutamente “dirigível”. Ela tem uma seriedade e um desprendimento em relação ao próprio ego que são raros. Trabalhamos com a Vivien Buckup na direção corporal, e a Manu fez um lindo trabalho de observar e impregnar seu corpo com a movimentação dos ursos. São sutilezas, zero óbvio, mas que mostram essa fusão. Ela aceitou ser dirigida por duas pessoas – eu e a Fernanda, na nossa primeira experiência de co-direção – com uma magnanimidade incrível. E a amizade entre nós três foi o terreno fértil onde essa afinidade estética pôde florescer. A gente ainda hoje, eu e a Manu, nos mandamos imagens de ursos toda semana. A peça criou um repertório afetivo que continua vivo.
Teatro Estúdio – rua Mentor Nébias, 891, Campos Elíseos, região medial. Qua. e qui., 20h. Até 11/12. Duração: 80 minutos. A partir de R$ 50 (meia-entrada) em sympla.com.br
