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Mira Schendel atiça o interesse do mercado global 28/09/2026
Celebridades Cultura

Mira Schendel atiça o interesse do mercado global – 28/09/2026 – Ilustrada

Mira Schendel usou a linguagem para dar novo ritmo à arte. Em finos papéis translúcidos, a suíça naturalizada brasileira pôs letras e números para dançar. Ao conceber esse balé gráfico, era porquê se ela almejasse ultrapassar fronteiras linguísticas para se libertar das barreiras territoriais. A julgar por seu sucesso internacional, não seria excesso proferir que ela alcançou esse objetivo.

Agora, porém, essa internacionalização ganhará fôlego novo com uma série de projetos no exterior. As novidades incluem o pregão de que a artista passará a ser representada pela Lisson, uma das galerias mais tradicionais do mundo, com sedes em Londres, Novidade York, Los Angeles e Xangai.

Morta há 38 anos, Schendel já tem representação no Brasil pela Gomide&Co, instituição paulistana voltada à arte moderna e contemporânea. Com essa parceria, as duas galerias unem forças para vitaminar a presença internacional daquela que é uma das artistas mais relevantes do século 20.

“Desde que a Gomide começou a simbolizar a Mira, em janeiro de 2025, a gente sabia que precisaria expandir essa representação para que ela tivesse uma presença global”, diz Thiago Gomide, fundador da galeria. Não que a artista seja pouco apreciada no exterior. Longe disso.

Em 2009, ela ganhou uma retrospectiva no Museu de Arte Moderna de Novidade York, o MoMA, uma das instituições mais respeitadas do mundo. Quatro anos depois, a pintora teve trabalhos expostos no Tate Modern, célebre museu britânico.

Com a parceria entre a Lisson e a Gomide&Co, o que se procura é justamente ampliar essa presença internacional. “Acho que as portas vão se terebrar mais institucionalmente”, diz Gomide.

Esse processo de rombo, aliás, já começa a ser percebido. A Dia Beacon, instituição nova-iorquina que é um celeiro do minimalismo e da arte conceitual, comprou a instalação “Ondas Paradas de Verosimilhança”, um dos trabalhos mais ambiciosos de Schendel.

“É a segunda obra de um artista latino-americano que eles adquirem e a primeira de uma artista latino-americana mulher. Isso é realmente muito importante”, diz Gomide.

Além da compra dessa obra, o nome de Schendel está em subida também em razão do pregão de exposições com seus trabalhos. A partir de 12 de outubro, entrará em papeleta na galeria Luxembourg + Co., em Londres, a mostra “Mira Schendel: In Transit”.

A exposição reunirá mais de 70 obras produzidas entre as décadas de 1950 e 1980, porquê pinturas e trabalhos sobre papel. Em paralelo, no dia 14 de outubro, a artista ganhará uma mostra individual na Frieze Masters, a seção da feira Frieze, em Londres, dedicada a obras de artistas já consagrados.

“Essa mostra vai ser totalmente voltada ao uso da cor, enquanto a exposição na Luxembourg é muito mais sombria”, diz Gomide, para quem essa profusão de novos projetos é fundamental para a cultura pátrio.

“Mira claramente lidera o movimento de internacionalização da arte brasileira. Ela está caminhando para se tornar uma das grandes artistas do mundo.”

Opinião parecida tem Alex Logsdail, presidente da galeria Lisson. “É um trabalho que dialoga com muitos dos poetas concretos que estiveram na Europa nas décadas de 1960 e 1970”, afirma o galerista, acrescentando que Schendel também tinha interesse pela arte do Leste Asiático. “Nesse sentido, acho que ela é uma artista muito global.”

A decisão de representá-la se deu porque a Lisson já tem experiência em trabalhar com artistas brasileiros, porquê Hélio Oiticica, Tunga e Dalton Paula. “A gente sempre representou também um grupo muito internacional de artistas profundamente envolvidos com abstração e minimalismo. A Mira se encaixa perfeitamente nisso.”

Com Schendel em seu catálogo, o galerista pretende jogar luz sobre produções menos conhecidas da artista. Esse projecto será posto em prática em maio do ano que vem, quando serão exibidas obras feitas em papel na filial da galeria em Novidade York.

Foi usando esse suporte que a artista concebeu secção da série “Objetos Gráficos”, projeto em que letras e números parecem flutuar sobre folhas de papel de arroz. É um trabalho que mostra a centralidade da linguagem na obra de Schendel, artista que precisou reprofundar em diferentes realidades linguísticas ao longo da vida.

Nascida em uma família judia na Suíça, ela migrou para a Itália, onde foi criada porquê católica. Para evadir do fascismo e do antissemitismo, foi forçada a se lançar num périplo, saltando de país em país, entre Bulgária, Áustria e a antiga Iugoslávia. Em 1949, chegou ao Brasil, onde fixou residência em Porto Contente. Logo depois, decidiu se mudar para São Paulo, onde viveu o resto da vida.

“A questão de não pertencer a uma pátria foi uma dor gigantesca para ela. Talvez a maior pátria que ela encontrou tenha sido quando se casou com meu avô e teve minha mãe”, diz o fotógrafo Max Schendel, neto da artista. “Ela foi alguém que nunca mais pôde voltar para morada. São os horrores da guerra.”

Anos mais tarde, a brutalidade confrontou novamente a artista. Dessa vez, porém, o terror foi instaurado pela ditadura militar brasileira.

Em 1969, ela participou da décima edição da Bienal de São Paulo —mostra marcada pelo boicote de artistas em protesto contra os desmandos do regime. Apesar disso, decidiu continuar na exposição.

“É evidente que Mira era contrária à ditadura. Mas, para alguém que já tinha pretérito pelos terrores da guerra, a frase dela era: ‘Uma guerra não se luta com armas’”, diz Max. “E ela entrou na bienal com o silêncio.”

Por isso, apresentou “Ondas Paradas de Verosimilhança”, instalação que agora fará secção da Dia Beacon. A obra é formada por milhares de linhas de náilon que pendem do teto e por um salmo do Velho Testamento fixado à parede. “E depois do queimação veio a voz de um suave sussurrar”, diz o texto.

Essa frase não deixa de ser uma síntese para o projeto estético de Schendel, uma artista de obras lacônicas e sussurrantes.

“Eu diria que o excesso que a gente vê hoje é um pouco vazio demais”, diz o fotógrafo. “O vazio dela é exatamente o oposto. É um vazio referto demais.”

Schendel, por fim, gritava por meio da arte, mas se recusava a fazer fragor.

Folha

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