Mistério japonês chega ao Brasil com enigmas frescos 13/03/2026

Mistério japonês chega ao Brasil com enigmas frescos – 13/03/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Da investigação clássica ao terror psicológico, a literatura japonesa de mistério vive um momento de invenção no Brasil. Em meio ao prolongamento do interesse por narrativas de suspense e noir vindas do Japão, editoras apostam tanto na recuperação de autores fundamentais do gênero ainda inéditos por cá, quanto em nomes já publicados.

Independente do lugar onde é escrito, um livro de mistério costuma partir de uma estrutura conhecida: o violação, a investigação e a revelação de um culpado. A simplicidade desse esquema, porém, não torna o gênero previsível. O caminho que um responsável percorre do violação até sua solução registra o seu estilo e revela sua cultura.

Embora muitos livros cheguem cá sendo comparados a Agatha Christie, são poucas as semelhanças entre os modos de narrar e desvendar mistérios. Enquanto a Rainha do Transgressão domina o “whodunit” (histórias que buscam responder “quem fez isso”), os japoneses se aproximam mais do que seria um “howdunit” (ou “porquê fez isso”).

No Poente, a dez de 1920 marcou a consolidação da ficção policial com autores porquê Dorothy L. Sayers, Ellery Queen e os últimos trabalhos de Arthur Conan Doyle. No Japão, o desenvolvimento do gênero ocorreu de forma mais discreta, interrompido durante a Segunda Guerra Mundial, quando narrativas policiais foram consideradas inapropriadas.

Quem mudou esse cenário foi Tarō Hirai. Sob o pseudônimo de Edogawa Ranpo (nome que soa propositalmente porquê o do repórter Edgar Allan Poe ), ele introduziu o imaginário cultural nipónico à lógica dedutiva ocidental e deu um novo rumo ao suspense no Japão.

“A partir daí, o policial nipónico passa a assumir características próprias”, afirma Ana Paula Laux, jornalista especializada em suspense e mistério. Ranpo é tido porquê o primeiro responsável moderno de mistérios no Japão e fundador da organização Mystery Writers of Japan (Escritores de Mistério do Japão).

O objetivo dessa sociedade, que no mês de junho completará 60 anos, é pesquisar e publicar literatura policial vernáculo e estrangeira.

Edogawa foi introduzido ao Brasil com “A Besta nas Sombras”, publicado pela HarperCollins. A narrativa metalinguística apresenta um responsável recluso em uma trama de mistério em que uma amiga é vítima e seu rival é o maior suspeito.

Na obra, ele divide os escritores policiais em dois tipos: “os ‘criminosos’, interessados exclusivamente em crimes e que só se satisfazem ao discorrer acerca da psicologia brutal do criminoso mesmo quando escrevem romances policiais baseados em deduções; e os ‘detetivescos’, sempre de olhos voltados para as ações de um detetive racional e inteligente, indiferentes à psicologia do malfeitor”.

“Acho essa classificação muito interessante porque ela traduz a origem do gênero policial, uma tensão permanente entre o olhar do detetive e a mente do criminoso”, afirma Laux. Segundo a jornalista, o legado de Edogawa se percebe principalmente na exploração do grotesco, da tensão psicológica e do lado obscuro da natureza humana.

Um responsável que embarcou nas dimensões mais psicológicas propostas por Edogawa é Seichō Matsumoto, responsável que chega ao Brasil pela Todavia. Seu “O Expresso de Tóquio” é um mistério exposto de maneira incomum. A história acompanha um investigador que procura derrubar um álibi, mas sua obstinação logo se torna preocupação.

É também uma história intrinsecamente japonesa em que a pontualidade, pilar fundamental da cultura, sustenta uma trama em que horários de partidas e chegadas de trens guardam a solução do mistério.

Outro que chega ao Brasil nessa mesma leva é Tokurō Nukui, que tem seu “Os Gritos” publicado pela Rocco. O livro noir acompanha a investigação de uma série de raptos e assassinatos de meninas.

“Acredito que as emoções humanas, a curiosidade e o libido são universais. As diferenças nos contextos nacionais e culturais moldam a forma porquê essas qualidades se expressam e esse talvez seja um dos aspectos que os leitores estrangeiros consideram interessantes”, diz o responsável, atual presidente do Mystery Writers of Japan.

Segundo Tokurō, a tradição da ficção de mistério gerou uma poderoso demanda por abordagens novas. Isso explica o apelo de trazer histórias inéditas para o Brasil.

Uketsu é mais um nome que chegou recentemente ao Brasil. Sob um pseudônimo, ele também comanda um via no YouTube no qual não revela seu rosto e posta vídeos com significados ocultos. Por cá foram publicados seus títulos “Casas Estranhas” e “Casas Estranhas 2”, pela Intrínseca, e “Imagens Estranhas”, pelo selo Suma, da Companhia das Letras —todos com tramas de mistério contadas por meio de desenhos e vegetalidade arquitetônicas.

Dissemelhante dos outros autores, que recorrem a uma escrita mais vaga e ambígua, Uketsu adota um estilo direto e literal, sem pudor ao descrever horrores. A avaliação é do tradutor de seus livros, Jeferson José Teixeira. “O nipónico procura sempre evitar expressar as coisas diretamente”, explica, reafirmando a exceção.

Os livros que chegam ao Brasil exploram cenários tipicamente japoneses e privilegiam a investigação do que a construção dos personagens vítimas e suspeitos. Muitas vezes, as vítimas não têm seu pretérito narrado e os assassinos permanecem em silêncio. São obras que não poupam os leitores dos detalhes e abusam do noir.

Essas diferenças, no entanto, jogam em prol do gênero. A chegada de uma novidade linguagem de mistério ao Brasil permite saber novos parâmetros para o gênero e abre as portas para a chegada de novos nomes, porquê Seishi Yokomizo, Akimitsu Takagi e Natsuo Kirino.

Folha

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