A escrita doeu no palestino Mohammed El-Kurd, enquanto trabalhava no livro “Vítimas Perfeitas e a Política do Apelo”.
Não era unicamente o luto pelos quase 70 milénio mortos em Gaza, explica ele no texto, mas também a dor de reconhecer que a termo escrita era insuficiente diante das “bombas de uma tonelada” lançadas por Israel desde o início do conflito em 2023.
O livro, publicado neste ano nos Estados Unidos e lançado logo em seguida no Brasil pela Tabla, é um tentativa sobre a Palestina. A tese de Kurd é que o mundo reduz os palestinos a unicamente dois papéis: o de vítimas e o de terroristas. Isso acaba impedindo o reconhecimento de sua humanidade.
O que mais labareda a atenção, porém, é o seu questionamento sobre o potencial —e os limites— da linguagem. É um tema a que volta com frequência, insistindo em que a crise na Palestina também é discursiva.
Mohammed El-Kurd é uma das vozes palestinas de maior alcance hoje. Aos 27 anos, esse jovem de Jerusalém mobiliza seguidores nas redes sociais com mensagens contundentes sobre a política.
Seu ativismo fez com que, nos últimos anos, fosse convidado a comentar o noticiário nos principais canais de TV e a discursar em grandes universidades. Em 2021, a revista Time o incluiu entre os nomes mais influentes do mundo.
O livro reúne uma série de ensaios, alguns já publicados em outros lugares. Em um deles, fala da jornalista Shireen Abu Akleh, morta por soldados israelenses em 2022. Em outro, relembra o poeta Refaat Alareer, morto nos ataques aéreos contra Gaza, em 2023.
No caso de Abu Akleh, Kurd reclama de porquê a prensa fez questão de enfatizar sua cidadania americana, porquê se aquilo fizesse dela uma vítima mais importante do que as outras. As menções ao passaporte americano davam a entender que havia uma jerarquia de vidas, sugere.
Já no caso de Alareer, ele conta que se recusou a redigir o obituário em inglês no site de notícias anglófono em que trabalhava. “Tentar louvar um varão palestino no léxico do colonizador é um autoflagelo”, escreve.
Kurd acusa com frequência a prensa estrangeira, ao tratar dessas e de outras mortes. “Correspondentes nos matam com voz passiva”, diz. As manchetes, enfim, costumam proferir que tantos palestinos “foram mortos” em Gaza —sem proferir quem os matou.
Kurd também reclama dos diplomatas que, da mesma maneira, se dizem preocupados com a morte dos palestinos, mas evitam responsabilizar o governo de Israel em suas falas.
O responsável critica ainda a ênfase que a prensa dá à morte de crianças e de mulheres palestinas em Gaza. “Uma das implicações disso é roubar das mulheres e das crianças sua capacidade de ação e suas contribuições políticas ou revolucionárias”, afirma.
Outro efeito é a demonização dos homens palestinos, diz, que parecem merecer a morte e perder o luto. Por essa razão, Kurd usa o gênero masculino em quase todo o seu livro.
Nessa investigação sobre a linguagem, Kurd pede aos leitores que repensem as palavras que usam. Diz que “colono”, por exemplo, é insuficiente para se referir aos israelenses instalados nos territórios que Israel ocupou em 1967. Esse termo “é suave, indulgente demais”, afirma. Ele se refere às Forças de Resguardo Israelenses porquê Forças de Ocupação Israelenses.
É o texto de um ativista e, por isso, pode incomodar quem pensa dissemelhante. Kurd não abre espaço para expor as justificativas de Israel, do qual governo afirma que está unicamente se defendendo em Gaza, depois ter sido escopo de um atentado em 7 de outubro de 2023, que resultou em 1.200 mortos.
O plumitivo não dá muita trela aos dissidentes, o que levanta a questão de se alguém, enfim, vai mudar de opinião depois de ler o livro.
Dito isso, o texto é ligeiro e, apesar do tópico, tem até lampejos de bom humor. Por exemplo, quando faz pouco caso do poeta americano Walt Whitman em uma nota de rodapé. Escreve “Walt Whitman ou um pouco assim”, em vez do esperado, que seria a referência completa ao texto. Isso, é simples, é um gesto político, provincializando os Estados Unidos.
Apesar de toda a suspicácia, Kurd se rende ao poder da linguagem ao longo do tentativa. É, enfim, com palavras que ele comunica sua posição política. “A linguagem, caso possamos dominá-la, pode transformar nossos sussurros anônimos em declarações estrondosas.”
