Quem abre “Monstros – O Dilema do Fã”, influente tentativa americano de sátira cultural, pode tomar um susto ao se deparar na título com uma frase familiar de Clarice Lispector. “Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isto é ser uma pessoa?”
Mas a citação de “A Hora da Estrela” vem a calhar neste livro que discute a complicada postura de amar uma obra de arte e odiar quem a criou. Primeiro, porque é uma interrogação aflita. Segundo, porque é uma pergunta voltada para dentro, não para o outro.
A sátira Claire Dederer, figurinha carimbada em veículos de referência porquê o jornal The New York Times e a revista literária The Paris Review, começa relatando sua inquietude em ver filmes de Roman Polanski sabendo de sua pena pelo estupro de uma menor de idade —a autora já contou em outros livros ter sido, ela mesma, vítima de insulto sexual.
O perturbador era não era só que ela continuava gostando dos filmes —ia além. “O Bebê de Rosemary”, terror lançado pelo cineasta em 1968, continha “uma visão surpreendentemente feminista de um varão cuja biografia parece colocá-lo contra o feminismo”.
A questão sobre separar a obra do artista é literalmente secular, porquê o próprio livro reconhece, e parece já esgotada por todos os ângulos sem qualquer resposta definitiva. O feito da autora foi ter conseguido lucrar relevância —e não perder— diante dessa sinuca de ponta.
O livro, que sai agora no Brasil pela Amarcord, decide repelir de rostro “o mito da resposta objetiva” a uma obra de arte. “Quando comecei a ortografar, achava que o conflito tinha a ver com a ruindade do delito versus a grandeza da obra”, diz a autora, em entrevista por vídeo à Folha. “Levei muito tempo para compreender que a maneira porquê se responde a um trabalho artístico é subjetiva a cada um.”
Estava arraigada nela a teoria de que havia uma concepção precípuo, universal, do que era uma grande obra de arte. “Aí me caiu a ficha de que essa teoria não é importante para o problema que eu enfrentava. Não tem sentido. O que importa é o valor que a obra tem para nós, individualmente. E esse valor tem a ver com emoção.”
É por isso que “Monstros” se tornou, nas palavras da autora, uma autobiografia do público —de porquê nós nos sentimos diante da arte e por que temos uma reação tão visceral quando nos decepcionamos com seus autores.
É útil ilustrar com exemplos colhidos do livro. Primeiro, as reações furiosas de fãs que cresceram com “Harry Potter”, muitos deles pessoas com identidades LGBTQIA+, quando sua autora, J.K. Rowling, passou a militar na contramão da comunidade trans. “Por ordinário da fúria, havia uma profunda tristeza; a tristeza da mancha de um tanto querido”, escreve.
Esse concepção de mancha é médio para seu argumento—a teoria de que a obra fica manchada pelo comportamento de quem a criou, porquê caneta-tinteiro estourada no lençol, queiramos ou não. “Nenhum de nós quer saber o que sabemos sobre Michael Jackson”, afirma ela.
“Quando o documentário ‘Deixando Neverland’ foi lançado, ninguém quis observar. Era uma tarefa árdua que achávamos que devíamos completar”, escreve, sobre o filme de 2019 que traz depoimentos contundentes de dois jovens com relatos de insulto sexual pelas mãos do cantor quando eles eram crianças, nos anos 1980 e 1990.
O libido de saber mais sobre as pessoas é tão vetusto quanto a humanidade, diz Dederer, uma mulher calorosa de 58 anos, com cabelo castanho-claro levemente ondulado e uma vontade confessa de tanger honesta em todas as respostas que dá. “Mas hoje, toda a economia da informação se baseia em saber da vida alheia. É o combustível das redes sociais.”
A subjetividade é traço crucial da estudo de Dederer não por escolha, mas porque lhe parece inescapável. É esse olhar que leva críticos homens que são seus bons amigos a respeitar as qualidades estéticas de “Manhattan”, filme de Woody Allen, enquanto ela não consegue desviar os olhos da trama que traz um protagonista de 42 anos enamorado por uma colegial menor de idade.
A repartição de gênero é fundamental na discussão proposta pela autora —porque, segundo ela, foi o que permitiu que um olhar subjetivo se passasse por objetivo por muito tempo.
“Eu odeio usar o termo ‘varão branco’ porque é redutor e inflamatório, mas nesse caso é factual. Se você tem um artista varão branco, um crítico branco e um testemunha que também se espera ser um varão branco, nós, que não somos, temos a sensação de que estamos vendo falso essa arte —porque não estamos vendo da mesma maneira que eles.”
Mas Dederer tampouco quer se impor porquê uma novidade voz de domínio. “Se eu apresentasse uma lista exaustiva de monstros e lhe dissesse qual é a minha resposta a eles, eu estaria agindo com
um tipo de falsidade”, escreve ela.
“Consumir uma obra de arte é o encontro de duas biografias”, argumenta a autora no ponto fulcral de todo o tentativa. “A biografia do artista, que pode atrapalhar a visualização da arte; e a biografia do testemunha, que pode moldar a recepção da arte. E isso ocorre em todos os casos.”
Por isso interessa tanto a ela uma estudo individualizada, a reação pessoal de cada pessoa, e não uma discussão sobre a “cultura do cancelamento”, um concepção que lhe é pouco inspirador.
Ao mesmo tempo, ela se diz aliviada que o livro tenha saído em 2023, e não cinco anos antes, porque deu tempo de toda essa discussão —e ela mesma— lucrar nuances. Na obra, ela relata porquê sua compreensão do próprio alcoolismo a ajudou a ter novas noções do que pode ser a monstruosidade.
É um livro que ganha camadas conforme sua autora mostra mais de si mesma. O repórter questiona se ela o escreveu simplesmente para permanecer mais à vontade com a teoria de que gosta dos filmes de Polanski. Dederer sorri.
“Foi ele que abriu a porta, por justificação da profundidade dos meus sentimentos e do meu interesse”, diz. “Eu queria conciliar dois fatos inamovíveis —que eu amava seu trabalho além da razão e que ele foi réprobo por fazer coisas terríveis. Queria aproximar os dois. Sempre me interessa olhar para os desejos desagradáveis que me animam.”
