Morre escritor luis fernando verissimo aos 88 anos 30/08/2025

Morre escritor Luis Fernando Verissimo aos 88 anos – 30/08/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

O repórter Luis Fernando Verissimo morreu na madrugada deste sábado, aos 88 anos. A informação foi confirmada por sua mulher, Lucia Verissimo. Ele estava internado na UTI do hospital Moinhos de Vento, em Porto Contente, desde o dia 11. Segundo o hospital, a morte foi decorrente das complicações de uma pneumonia. Ainda não há informações sobre o velório.

Em reclusão havia anos, ele vinha lidando com as consequências de um acidente vascular cerebral que sofreu em 2021, quando deixou de redigir suas crônicas. Ele deixa a mulher, três filhos e dois netos.

Foram mais de 50 anos de textos escritos para jornais e revistas, quase 40 anos de livros publicados —nos dois casos quase sempre entre os mais lidos e queridos do país— sem não largar sua posição nítida no campo da esquerda reformista.

Milhares de páginas escritas para bem-sucedidos programas de humor de televisão, centenas de sensíveis comentários sobre cultura exigente —livros, filmes, peças, espetáculos, shows—, muitos relatos de viagem ao volta do planeta, com preferência para a França e os Estados Unidos, mas sem negligenciar os festivais e feiras de livro Brasil afora, em todos os casos com sucesso notável de público.

Conferencista relutante, entrevistado lacônico; parceiro músico competente no campo do jazz, camarada evidente e solidário com jovens escritores; sutil observador do futebol e torcedor confirmado do Internacional.

Foi um fruto que honrou a memória de seu pai, repórter maiúsculo, não por ser também repórter, mas por zelar pela permanência de sua obra. E possuinte de pose artística igual a zero, conseguível e gentil sem terebrar mão de sua singeleza e sua timidez, que não são a mesma coisa.

Era competente domador da língua em que escreveu, com rapidez, força, precisão e humor fino, tendo nela inscrito algumas figuras imorredouras, uma vez que o Crítico de Bagé, o detetive Ed Mort e a Velhinha de Taubaté.

Luis Fernando Verissimo, uma vez que se constata rapidamente, é um caso vasqueiro em sua profissão, pela soma de suas virtudes, que ficam melhores ainda com a enumeração de suas idiossincrasias.

Quanto prazer intelectual têm causado os milhões de exemplares de seus livros que neste exato momento estão sendo retirados de prateleiras em todo o país para leitura ou, mais provavelmente, releitura atenta, a leitores dos mais maduros aos mais jovens, de intelectuais sofisticados a alunos da sétima série? De quantos outros escritores poderemos expressar o mesmo, em qualquer tempo e em qualquer língua?

Vale explicitar algumas dessas experiências. Rebento de Erico Verissimo, repórter de imenso público leitor —traço vasqueiro mesmo em sua geração, de grandes romancistas— e consagrado ainda em vida, Luis Fernando Verissimo demorou para definir seu mergulho no metiê letrado.

Nascido em 1936, viveu anos essenciais de sua formação nos Estados Unidos, quando o pai trabalhava primeiro em Los Angeles, de 1944 a 1945, depois na costa atlântica, em Washington, de 1953 a 1956, o que o habilitou na vivência em inglês num nível profundo.

Alguma coisa do ritmo de seu texto maduro por evidente poderá ter origem nesse bilinguismo. Foi nesses anos da juventude que estudou sax e assistiu a shows agora lendários, em Novidade York.

Foi redator publicitário por alguns anos e entrou para o mundo do jornalismo autoral meio por possibilidade, em 1969, para entupir férias de um portanto prestigiado historiógrafo porto-alegrense.

Quase imediatamente seu texto fluente e bem-humorado alcançava outros níveis, com uma originalidade inesperada. Fajutava a pilastra de horóscopo com um deboche novo, inventava lugares de diversão, sugeria roteiros imaginários, num momento de grande controle da increpação sobre os jornais, de grande pânico da invenção livre.

Verissimo foi iniciador e protagonista de uma modalidade de geração literária que, com o tempo, teve importantes praticantes, muitos dos quais nascidos na redação publicitária. A diferença em seu obséquio era um fundo de cultura moderna sofisticada, em literatura, cinema e música, de que muito poucos dispunham.

Seu primeiro livro, “O Popular”, reunião de crônicas, foi lançado em 1973 e em pouco tempo encontrou leitorado maciço. Nisso mais uma vez foi iniciador e beneficiário de uma novidade hoje muito velha —exatamente em meados dos anos 1970 foi que a crônica uma vez que gênero literário passou a ser admitida em sala de lição.

Com sua verve, sua perceptibilidade, seu manejo excitante da língua portuguesa, a frase curta, os diálogos rápidos e certeiros, as situações narrativas de grande economia e basta rendimento, fez sucesso imenso e nunca mais saiu desse volta de leitura.

Tanto sucesso de mercado teve, que, já no auge de sua curso, com livro novo a cada ano e colunas para jornais de todo o país, além dos textos de humor para a televisão, em programas de Jô Soares e outros, foi objeto de uma ruidosa mudança de mansão editorial.

Tendo feito muito sucesso na porto-alegrense L&PM, teve seu passe comprado pela Objetiva e relançado em grande estilo, o que projetou sua obra mais ainda no cenário vernáculo. Sem saber os números, podemos mesmo assim declarar que seus contratos estão entre os mais valorizados de sua geração, ao lado de Rubem Fonseca e poucos outros.

Tanto sucesso de leitura, em nosso país de tão precária alfabetização literária, o pôs na berlinda no tempo da redemocratização. A eleição de Fernando Collor, o governo Itamar Franco e os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso foram acompanhados pelo público brasílio tanto no noticiário quando nos comentários de Verissimo —a ponto de FHC chegar a se referir a ele em entrevistas coletivas, tentando se tutelar de ironias.

Com a chegada de Lula ao poder, sendo Verissimo um simpatizante, foi muitas vezes cobrado para manter sua verve sátira no campo da política, que de trajo se atenuou nos anos petistas.

Em meio a tudo isso, sempre teve residência fixa em Porto Contente e torceu pelo Internacional. Viajou muito, passando temporadas no exterior já com sua mulher Lúcia, grande figura humana, e os três filhos, mas sempre mantendo laços importantes com seus parceiros de geração na cidade mesmo, uma vez que Moacyr Scliar, e fora dela.

É impossível prognosticar agora o fado de tanto texto, entre crônicas, diálogos, contos e romances. Neste último, o sublime formato que consagrou Erico Verissimo, Luis Fernando Verissimo talvez seja agora menos considerado, mas não duvide que qualquer título, uma vez que “Borges e os Orangotangos Eternos”, venha a figurar uma vez que um clássico no gênero policial, categoria sábio e irônico.

Quanto aos formatos curtos, porém, é evidente que tem lugar de figura mediano numa tradição fortíssima entre nós, aquela que abriga Rubem Braga e Nelson Rodrigues, Antônio Maria e Millôr Fernandes, Aldir Blanc e Ivan Lessa. E nem se falou de sua verso ou suas tiras, que zero devem ao melhor nível, na língua portuguesa, e que, uma vez que em tudo o mais, teriam feito curso de sucesso em língua inglesa, que era também sua, de coração.

Consagrado relativamente cedo uma vez que historiógrafo de jornal e repórter de livros, Luis Fernando Verissimo alcançou a glória de ser plagiado, mal citado e arremedado infinitas vezes. Agora, é tratar de fixar nossa atenção em seu vasto legado, garantia de prazer místico para sempre.

Folha

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