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Morte em set reascende debate sobre condições de trabalho
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Morte em set reascende debate sobre condições de trabalho – 27/06/2026 – Ilustrada

Há dois domingos, um técnico de elétrica morreu enquanto trabalhava no set de filmagem de “Delegacia de Homicídios”, série do Disney+ com produção daAfroReggae e da Formata, depois de desabar do segundo marchar de um prédio usado nas gravações, no Rio de Janeiro.

Luiz Fernando Martins tinha 55 anos de idade e duas décadas de experiência. Sua morte acendeu o alerta para uma suposta precarização e falta de segurança em sets de filmagem no país.

Procurada, a produção diz, em nota, que “logo posteriormente o acidente, os protocolos de emergência e primeiros socorros foram prontamente acionados”. Diz ainda que o profissional recebeu atendimento e foi guiado ao hospital. A reportagem perguntou se havia no set ambulância, profissionais da dimensão da saúde ou bombeiros, uma vez que é norma em ambientes com grande aglomeração de pessoas, mas não obteve resposta.

Também foram procurados representantes da Disney no Brasil e da Strima, associação que representa os serviços de streaming agora em atuação no país, mas nenhum deles quis se manifestar.

O Sindcine, o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica e do Audiovisual, diz que “houve falhas graves no planejamento e na segurança” daquele set. A organização afirma que o técnico foi eleito para realizar um trabalho em fundura sem equipamento de proteção individual, sem plataformas elevatórias adequadas e sem pontos de ancoragem seguros. Destaca ainda a pouquidade de suporte de emergência, uma vez que brigadistas e ambulâncias.

A presidente do sindicato vai além. “O que presenciamos foi uma sucessão de erros previsíveis, decorrentes da aceleração desenfreada dos projetos e da redução drástica dos tempos de pré-produção e filmagem”, diz Sônia Santana. “A pressão sobre as equipes técnicas têm atingido níveis insustentáveis e é agravada por orçamentos reduzidos que impõem cargas de trabalho excessivas, frequentemente executadas em infraestruturas inadequadas”, acrescenta.

A deputada Dani Balbi, do PCdoB, acionou o Ministério Público do Trabalho, que apura as circunstâncias da morte e as condições de segurança. O MPT deu um mês para que as produtoras responsáveis apresentem provas de quais medidas corretivas tomaram, se havia equipamento de proteção individual, certificados de treinamento e estudo prévia de risco.

Ainda são poucas as informações públicas sobre as circunstâncias do acidente, portanto, não é provável declarar se houve falhas nos protocolos ou eventual negligência, afirma Bruno Casalotti, que pesquisa o mercado de trabalho do audiovisual na Unicamp, a Universidade Estadual de Campinas.

“Qualquer desfecho nesse sentido seria precipitada. Ainda assim, casos uma vez que esse inevitavelmente reacendem o debate sobre as condições de trabalho no setor audiovisual brasílico”, diz.

De congraçamento com Casalotti, dois problemas recorrentes nos sets merecem atenção peculiar por seu potencial de aumentar os riscos de acidentes —o acúmulo de funções e as jornadas excessivas.

Não se sabe ao visível o orçamento de “Delegacia de Homicídios”, mas é uma produção robusta de uma grande plataforma de streaming e tocada por grandes produtoras do Rio de Janeiro e de São Paulo. “Não foi por falta de verba. Isso é importante estar evidente, porque a precarização do trabalho no cinema costuma ser associada a grave orçamento”, diz Lia Bahia, pesquisadora e professora da Universidade Federalista Fluminense.

É um consenso entre as pessoas ouvidas pela reportagem, na requisito de anonimato, que as condições de trabalho nos sets brasileiros estão aquém do ideal. Mas, há quem diga que, dadas as circunstâncias de precariedade, é de se surpreender que acidentes mais graves não sejam mais comuns.

“Uma morte é sempre uma coisa terrível, mas, com esse volume de produção que a gente tem no Brasil, o índice de acidente é grave. A última morte no Rio foi há 14 anos”, diz Luiz Antônio Gerace, presidente do Sindicato Interestadual dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica e do Audiovisual.

Em 2012, um varão morreu eletrocutado durante a instalação de um equipamento num set de filmagens na zona portuária do Rio de Janeiro. Em São Paulo, há casos mais recentes. Há três anos, o técnico de audiovisual Celso Guimarães Silva morreu dois dias depois de suportar uma descarga elétrica num estúdio do influenciador do dedo Pablo Marçal, em Barueri.

Uma outra morte recente em set de filmagem no Brasil, em 2017, aconteceu durante a gravação de um vídeo para o banco Itaú, em São Paulo. O assistente de maquinário Carlos José Cunha, espargido uma vez que Cacá, morreu depois de levar uma descarga elétrica e desabar de um andaime a oito metros de fundura.

Cunha não tinha seguro na quadra. Depois de sua morte, o sindicato aprovou uma convenção coletiva que tornou obrigatória a contratação de seguro de vida e de acidente de trabalho.

Antes disso, é difícil encontrar registros de acidentes fatais ou graves em sets no país, o que não necessariamente quer expor que eles não ocorriam.

“As pessoas evitam falar de condições precárias nos sets”, diz Casalotti. “Têm pânico de se queimar quando falam sobre esse tema, não só referentes a condições de segurança no trabalho, mas a direitos também.” Os que falam, porém, não são otimistas com a situação.

“Se você não se policiar, todo dia vai enfrentar situações em que vai estar pondo a sua vida ou a vida de alguém em risco”, afirma o contrarregra Pedro Lisboa, há quase 20 anos no audiovisual.

“Ontem mesmo eu tive que rivalizar para a produção tirar pessoas do elenco que estavam sentadas numa mesa, enquanto eu pendurava em cima uma calha, a oito metros de fundura”, diz Lisboa. “Tive que dar um grito, ficou aquele clima. Pelos caras [da produção], estava tudo muito. As pessoas embaixo e eu pendurando uma coisa pesando 30 quilos.”

Profissional experiente, ele diz que prefere decorrer o risco de ser chamado de plano ou de permanecer “na geladeira” do que pôr vidas em risco. Quando mais novo, ele conta ter derrubado de uma escada —ele se machucou e acabou com uma lesão no tripa. Estava sozinho, depois de 14 horas seguidas de trabalho. “Acho que o maior risco de segurança que a galera do audiovisual enfrenta é a equipe reduzida e o tempo. Muito pouco tempo para fazer coisas que são perigosas e com pouca gente.”

Nos últimos anos, posteriormente a chegada das plataformas de streaming ao mercado brasílico, o ritmo de produção se acelerou e os prazos ficaram mais curtos.

“Pelos relatos dos sindicalizados e das associações, sabemos que as condições de trabalho pioraram muito com a ingressão do streaming. Muita pressão, jornadas exaustivas, assédios. Isso compromete a segurança no trabalho”, diz Caio César Loures, da diretoria executiva do Stic, sindicato que atua no Rio de Janeiro.

No caso da série “Delegacia de Homicídios”, há uma produtora carioca e outra paulistana, por isso tanto o Sindcine quanto o Stic, que cobrem jurisprudências diferentes, têm se envolvido, direta ou indiretamente.

“Na quadra da película, a gente fazia cinco sequências por dia, um longa era feito em oito ou 12 semanas. Hoje em dia você faz 20, 25 sequências num dia”, diz o técnico de som Toninho Muricy.

Outro fator que mudou o trabalho no audiovisual foi a reforma trabalhista. Hoje, praticamente todos estão em contratos uma vez que pessoa jurídica.

Muricy está no audiovisual desde 1984. O técnico lembra que antigamente as contratações eram feitas na forma de CLT temporário, com recta a 13º salário e com desconto do INSS. Quando o contrato terminava, ele recebia uma rescisão. “A ‘pejotização’ acabou tirando direitos e a proteção sindical que a gente tinha”, afirma o técnico.

“Infelizmente, essa verdade não é exclusiva do setor artístico, do cinema e da TV. O mercado de trabalho brasílico é marcado pela falta de liberdade dos trabalhadores de denunciar os ilícitos trabalhistas”, diz o procurador do trabalho Raymundo Lima Ribeiro.

Segundo ele, os sindicatos é que deveriam executar esse papel de denúncia dos ilícitos trabalhistas, mas eles se encontram enfraquecidos, posteriormente a reforma trabalhista de 2017 ter concluído com a obrigatoriedade do imposto sindical.

O sindicato atuante no Rio de Janeiro admite estar mais enfraquecido em anos recentes e que, por isso, faz menos visitas aos sets de filmagem.

Outro motivo é a “pejotização”. “Porquê o sindicato laboral representa trabalhadores, e não empresários, essa forma de contratação inviabiliza a atuação dos sindicatos”, diz Loures. Há quem faça cinema por paixão, dizem profissionais da dimensão, mas nem todos podem se dar a esse luxo. Não porque têm menos apego aos filmes, mas porque têm mais contas a remunerar do que sonhos a realizar.

No final das contas, a gente patroa profundamente o que a gente faz”, diz Toninho Muricy, o técnico de som. “Não quero mudar de profissão. Não sei fazer outra coisa e não quero fazer outra coisa. Quero que a gente veja com nitidez os problemas para trabalhar melhor.”

Excesso de horas de trabalho, desigualdade salarial, insalubridade, “pejotização”, pânico de reclamar e ser posto de escanteio. Zero disso é uma exclusividade do trabalhador do audiovisual. Mas, há um elemento que atinge o setor cultural mormente. Para muitos, o cinema representa mais que um ofício —é paixão, realização pessoal e a concretização de sonhos.

Existe uma partilha muito clara, importada de Hollywood, que põe os “criativos”, uma vez que atores e roteiristas, de um lado e os “não criativos”, uma vez que técnicos de som, do outro. Essa lógica hierarquiza a calabouço produtiva do audiovisual. “As grandes produções costumam ter uma desigualdade muito maior do que as produções menores, entre salários e responsabilidades”, afirma Lia Bahia, que escreveu um cláusula ao lado do pesquisador Bruno Casalotti sobre o trabalho no campo cinematográfico.

Enquanto técnicos costumam se enxergar uma vez que trabalhadores, os “criativos” se veem mais pela lente de artistas. Isso acaba inviabilizando o trabalho e as demandas dos técnicos, afirma Bahia.

Pesquisadores americanos, da Universidade de Oklahoma, da Universidade de Oregon e da Universidade Duke, em Durham, analisaram 80 profissões num estudo publicado em 2019 pela Associação Americana de Psicologia. Primeiro, eles avaliaram o quanto o trabalhador se mostrava enamorado pelo que fazia. Depois, a verosimilhança de um profissional admitir trabalhar voluntariamente além do horário, inclusive aos finais de semana, trabalhar horas extras sem remuneração suplementar, interromper um passeio com a família para resolver uma demanda e realizar tarefas desconfortáveis e sem relação com sua função. A desfecho foi que os participantes consideraram mais plausível explorar ou ser explorado se a pessoa em questão “patroa o que faz”.

Segundo a pesquisadora Patrícia Andrade Mourão, trabalhadores da cultura se deixam seduzir por uma imagem de excepcionalidade. “Narcisicamente acreditamos em nossa excepcionalidade e em nossa missão”, escreveu a autora num tentativa. “A imensa maioria dos problemas de saúde do trabalho que existem no setor são relacionados à saúde mental”, afirma ainda Casalotti.

Na indústria cinematográfica, nem todos se expõem tanto a riscos de acidentes físicos quanto os profissionais da dimensão técnica. Mas, com uma crescente demanda por produtividade, num mercado tomado por plataformas com subida demanda por novidades, podem ter consequências mais drásticas para trabalhadores específicos.

“Quem mais sofre são os técnicos, por culpa da própria natureza do trabalho intermitente. Técnicos de som direto, assistentes de produção, de câmera, maquiadores, figurinistas et cetera. São pessoas que não podem permanecer muito tempo paradas. Quem fica muito tempo ‘off’ acaba perdendo capital social e depois não arruma trabalho”, afirma Casalotti.

“Tive relatos de pessoas que às vezes trabalham em dois ou três projetos simultaneamente. Ou, portanto, quase nunca têm férias”, diz o pesquisador.

“Daí começam aqueles problemas básicos de saúde mental, uma vez que depressão, ‘burnout’, insulto de drogas”, diz ainda.

Acidentes nos sets são uma permanente quase tão antiga quanto o cinema. Um dos casos recentes de maior repercussão é o de “Rust”. O ator Alec Baldwin atirou acidentalmente contra a diretora de retrato Halyna Hutchins, que morreu, ferindo ainda o diretor Joel Souza. O caso criminal contra Baldwin, por homicídio culposo, foi arquivado em julho de 2024, mas ele ainda deve enfrentar um julgamento social por negligência, já que era produtor do longa.

Brandon Lee, que protagonizava “O Corvo”, morreu durante as gravações do filme, em 1993, depois de ser atingido por uma projéctil que deveria ser de festim, mas era real. Na Índia, em 1989, um incêndio durante as filmagens da série “The Sword of Tipu Sultan” deixou pelo menos 42 mortos e 25 feridos, incluindo o ator principal, que teve queimaduras de terceiro proporção em 65% de seu corpo.

Em “Sangue de Bárbaros”, de 1956, John Wayne interpretou Gengis Khan. O filme foi rodado no estado americano de Utah, a 220 quilômetros de uma zona de testes nucleares. Segundo uma reportagem da revista People, de 1980, dos 220 membros da equipe, 91 desenvolveram cancro, incluindo Wayne. Todo o elenco principal morreu por culpa da doença anos depois.

Uma das primeiras mortes em sets de filmagem de que se tem registro é de 1914, no filme mudo “Across the Border”. A atriz Grace McHugh se afogou depois de desabar no rio Arkansas, enquanto filmava uma cena. O operador de câmera, Owen Carter, pulou na chuva para tentar salvar a moça, mas também se afogou.

No dia seguinte à tragédia, o jornal The Colorado Transcript publicou uma nota com o título “Grace McHugh, jovem de Golden, se afoga” —Golden é uma cidade nas imediações de Denver.

Ali já se mostrava uma separação entre os “talentos” e os “técnicos”. O texto começa destacando que McHugh era sobrinha de um juiz, C.S. Staples. E termina dizendo que “ela era uma jovem excepcionalmente encantadora e talentosa”. O operador de câmera só é mencionado no terceiro parágrafo, um coadjuvante na história de sua própria morte.

Poucos meses depois, um jornal sítio já anunciava a estreia nos cinemas de Denver do filme pelo qual “a bela e ousada protagonista perdeu a vida”.

Um dos casos mais folclóricos é o de “Fitzcarraldo”, de Werner Herzog, de 1982, no qual moradores locais arrastaram o navio a vapor SS Molly Aida por cima de uma serra na Amazônia.

“Não devo fazer filmes nunca mais. Devo ir direto para um manicômio”, disse o cineasta teuto no documentário “Burden of Dreams” —ou o fardo dos sonhos—, que registrou os bastidores do longa-metragem, em que centenas de indígenas atuaram uma vez que figurantes.

O diretor de retrato do filme, Thomas Mauch, relatou na revista American Cinematographer alguns dos percalços enfrentados pela equipe. Depois de decidirem por uma locação inicial, caiu a ditadura peruana, o acampamento foi invadido e o posto médico incendiado.

“Tem sido dito que Herzog punha sua equipe em transe permanente. Isso é um excesso”, escreveu Mauch. “Sim, é verdade que alguns indígenas morreram durante as filmagens. Mas não foi devidamente noticiado pela prensa.”

Uma aeroplano que transportava indígenas para o sítio de trabalho caiu, e alguns chegaram com ferimentos graves. “Nenhum deles morreu. Outros morreram de disenteria”, escreveu o diretor de retrato. “Eles se recusavam a se consultar com o nosso médico.”

Folha

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