Em seguida 18 meses de inteiro silêncio, o Mosteiro de São Bento, em Olinda, reabriu suas portas com uma grande invenção histórica. Uma pintura escondida há aproximadamente 140 anos foi identificada durante obras de restauração na Basílica. Localizado no revestimento do nártex, logo na ingressão da igreja, o monumento estava encoberto sob três camadas de tinta branca, desde o final do século 19.
Os desenhos, que datam entre 1770 e 1778, dão vida a balaústres adornadas com jarros e guirlandas de flores, formando um pintura cromatizado com 11,5 m de comprimento por 4,6 m de largura. Mas, para poder revelar a pintura e preservar sua integridade material e suas características estéticas originais, foi necessário um diagnóstico detalhado fundamentado em investigação histórica, estudo material e critérios de conservação.
O principal duelo enfrentado pela equipe de restauração foi remover as camadas de tinta sem comprometer os pigmentos e os traços da pintura original.
“Antes de qualquer remoção, foram realizados estudos e testes específicos de solvibilidade para identificar produtos capazes de atuar exclusivamente sobre cada classe de repintura, sem afetar a pintura subjacente”, diz Pérside Omena, conservadora-restauradora e coordenadora universal da obra.
Ao término da remoção na dimensão trabalhada, executada de forma gradual, classe por classe, era realizado o enxague da superfície para expulsar qualquer vestígio dos solventes empregados. À medida em que a pintura original ia sendo revelada, foi verosímil restaurar a concepção estética do revestimento, concebido para produzir a ilusão de uma buraco para o firmamento, propriedade marcante da pintura barroca.
Ainda segundo a restauradora, as maiores dificuldades foram o avançado estado de degradação dos suportes de madeira, provocado pela umidade decorrente de infiltrações e os danos causados por agentes biológicos, uma vez que cupins, morcegos e pombos.
“Foi necessário tratar os suportes, desinfetar as peças e consolidá-las com materiais compatíveis. Nas áreas com perdas, executamos enxertos em madeira de cedro. Para as próximas etapas na Sacristia, Capela do Santíssimo, Capela Abacial e os vitrais da sala capitular, a metodologia seguirá os mesmos critérios técnicos e científicos adotados no início da restauração”, afirma Pérside.
Iniciado em dezembro de 2024 e com previsão de peroração em meados de julho de 2027, o conjunto de obras de restauro no Mosteiro contou com investimento de R$ 16 milhões, com recursos do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Vernáculo), por meio do Novo PAC, e gerenciado pela Fundarpe (Instauração do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco).
Levado pela Grifo Diagnóstico e Preservação de Bens Culturais, o restauro devolveu ao público a nave e a capela-mor da igreja, além das intervenções estruturais que garantem a preservação e a segurança do monumento.
Do ponto de vista histórico, o encobrimento da pintura original obedeceu uma mudança de mentalidade cultural na transição entre o século 20. O professor de história e sociologia Wellington Estima disse que, no final do século 19, a concepção estética preponderante era bastante distinta da atual, influenciada pelo neoclassicismo e por correntes higienistas.
“O barroco não detinha o mesmo prestígio que vemos na sociedade hoje. Dentro do contexto daquela idade, ele era visto uma vez que poluído ou de manutenção complexa. Vários elementos decorativos foram sendo simplificados, reduzidos, e passar uma pintura branca pressupõe essa teoria de simplificação.”
Visão compartilhada por Pérside, que avalia ser fundamental considerar que os interiores das igrejas barrocas no Brasil foram concebidos uma vez que conjuntos integrados, nos quais arquitetura, douramentos, pinturas e policromia formam uma unidade estética e simbólica.
“A partir do final do século 19, muitas dessas igrejas tiveram seus interiores repintados de branco, em consonância com o paladar neoclássico da idade, ocultando por décadas ou mesmo séculos pinturas e decorações originais”, disse a responsável técnica e coordenadora universal da obra.
A primeira segmento da mediação no mosteiro, muito uma vez que a reabertura do espaço aos fiéis, aconteceu no final de junho.
Para a presidente da Fundarpe, Renata Borba, a entrega reforça a unidade e a simetria de um dos principais símbolos barrocos do estado e também do Brasil.
“É um monumento que está relacionado à fé cristã, o que desperta o interesse do povo pernambucano em se apropriar desse espaço de história, cultura, de referências identitárias”, diz Renata. “Fortalece também essa relação de pertencimento e de responsabilidade para preservar o Mosteiro e toda a sua riqueza histórica”.
Uma das primeiras visitantes ao recém-aberto mosteiro foi a jornalista e empresária Amanda Remígio, 25, que foi conferir de perto as novas intervenções. “Admiro muito a relação entre história e arquitetura, e o mosteiro é um patrimônio histórico pátrio e da humanidade. Logo, ter a oportunidade de deslindar essa pintura, que estava escondida há séculos, ressignificou a bela história que existe por trás desse lugar.”
Durante a entrega da primeira lanço das obras de restauração, também foi lançado o livro “Mosteiro de São Bento – O Patrimônio Cultural no Novo PAC”, terceiro volume da coleção Restauro, que reúne os registros da obra, técnicas empregadas e resultados alcançados na recuperação do monumento que é um dos símbolos da história de Pernambuco.





