Mostra de Randolpho Lamonier analisa a natureza do desejo – 11/05/2026 – Ilustrada
Sobre a mesa, repousam um copo, uma garrafa e um instrumento fálico, itens que evocam libido, indulgência e hedonismo.
Alguns detalhes dessa cena, porém, maculam a atmosfera de celebração e criam uma paisagem de contornos surrealistas. A mesa é sustentada por quatro pernas que parecem prestes a caminhar, enquanto a cadeira é repleta de objetos pontiagudos que fazem o traste parecer uma máquina de tortura.
Na gravura de Randolpho Lamonier, dor e prazer se entrelaçam para gerar um cenário onde a morbidez convive com o erotismo. Não à toa, a tela faz secção de uma série intitulada “Uma Noite de Paixão com Eros e Tânatos no Inferno”, ou seja, um encontro entre o deus da paixão e a personificação da morte na mitologia grega.
Esse mesmo trabalho também dá nome à exposição de Lamonier em papeleta na galeria Verve, na região meão da capital paulista. Com 26 obras, a mostra marca as duas décadas de curso do artista. O mineiro tem obras nos acervos de instituições uma vez que Masp, Pinacoteca de São Paulo e Denver Art Museum, no estado americano do Colorado.
“Por meio dessa exposição, eu apresento um pouco os caminhos que percorri ao longo da minha curso. Acabei ficando mais espargido nos últimos anos pela produção têxtil, mas trabalho com várias outros suportes.”
Lamonier de vestuário chamou a atenção do mercado por estandartes que trazem costuradas mensagens sobre os dramas brasileiros, da violência à falta de oportunidades. O artista, porém, deu os primeiros passos na arte com gravuras, motivo pelo qual a série “Uma Noite de Paixão com Eros e Tânatos no Inferno” é o ponto de partida da exposição.
O trabalho traz ilustrações que ora geram fascínio, ora provocam espanto. “O paixão e o libido são atravessados por pulsões de vida e de morte”, diz o artista. “Esses desenhos falam de uma intimidade que acontece num campo de muita tensão.”
Em algumas das obras, a privança de espaços domésticos é rompida por cenas tétricas, uma vez que aquela que mostra uma indivíduo com quatro seios tomando banho. “São lugares situados entre o contexto doméstico e o subjetivo.” Nas gravuras, esse território híbrido acontece durante a penumbra, o que se faz sentir por meio da recorrência de tons pretos e vermelhos.
“Eu estou buscando os alicerces do libido tendo a noite uma vez que metáfora do inconsciente pessoal e coletivo, um espaço em que essas duas instâncias conversam, mas também se estranham”, diz o artista, para quem o libido não se resume à procura do prazer. “Ele é construído num sistema de poder que é permeado por afeto, paixão e zelo, mas também ladeado por violência.”
Esse conflito se faz presente em um dos textos que foram impressos nas paredes da galeria. Nele, Lamonier relata uma situação pela qual passou quando fazia a primeira confraria. À idade, diziam que a hóstia viraria sangue logo que entrasse na boca daqueles que viviam em vício.
Dias antes, ele havia se excitado ao ver o personagem de Keanu Reeves no filme “O Jurista do Diabo”. Por esse motivo, temia que a previsão se concretizasse quando chegasse a sua vez de comungar.
“Por um milagre de Deus, ou do Diabo, passei incólume pelo teste da hóstia, mas no meu íntimo, a culpa e a autocensura me torturavam”, diz o texto.
Espalhados pela exposição, relatos uma vez que esse não são exclusivamente um complemento às obras, mas também funcionam uma vez que expressões artísticas independentes. “A escrita era uma forma de me aproximar do público, mas depois foi ganhando autonomia. Esses textos são uma vez que pílulas de histórias sobre a minha vida.”
Outro destaque da mostra é a gravura “Diários de Fast-Food”. Nesse trabalho, o artista misturou cenas de sexo grupal em um banheiro com imagens de lanches do McDonald’s, promovendo uma fricção entre o libido do sexo e a voracidade da míngua.
“Esses símbolos atravessam a exposição porque estou falando não exclusivamente sobre libido sexual, mas também sobre libido de consumo”, diz o artista, acrescentando que costumava passar o dia vagando em shoppings quando era juvenil. “Antes de aprender a ser gente, eu aprendi a ser cliente. O shopping foi um lugar social onde eu me sentia seguro.”
Imagens ligadas ao consumo permeiam também as obras da série “O Paixão dos Monstros e dos Bichos Selvagens”. Nesses trabalhos, vemos as logomarcas de empresas uma vez que MTV, Fiat, Lacoste e Toshiba. Ao lado desses símbolos, o artista desenhou caveiras e esqueletos humanos, criando uma espécie de pesadelo dentro desse delírio de consumo.
“Quando eu estava pensando nessa exposição, me ocorreu que ela está em um lugar entre os filmes da Sessão da Tarde e os longas de terror.”
A secção açucarada da mostra pode ser sentida em “República Zero”, trabalho em que Lamonier reúne num grande mural fotografias de pessoas e momentos importantes para ele. “Essa obra mostra uma jornada de autoconhecimento, em que aprendi valores importantes sobre sexo, paixão e libido.”
A mostra volta a lucrar dimensões mais soturnas em “Festinha”, trabalho que Lamonier fez em parceria com Victor Galvão. Sobre uma tenda no solo, há dezenas de objetos tão diversos quanto latas de cerveja, uma cadeira de praia e um pênis de borracha. A instalação parece retratar uma sarau que acabou de forma abrupta, deixando para trás exclusivamente caos e silêncio.
“Para mim, faz sentido pensar nesse trabalho sobre a solidão, alguma coisa que pode suceder em uma sarau abarrotada de gente”, diz Lamonier. “Cá, existe claramente um desencontro e uma inoperância do libido.”





