Mostra sobre surrealismo em SP tem obras de Dalí e Tarsila – 17/06/2026 – Ilustrada
Uma mulher estende o braço e tira uma selfie em frente a uma pintura de René Magritte. A cena labareda a atenção pelo contraste entre o sorriso dela e o tom soturno de “La Fin du Monde”, quadro dos anos 1960, em que vemos uma paisagem no lusco-fusco e a silhueta de uma figura vestindo chapéu-coco, típica das obras do surrealista belga.
Na mesma sala, um grupo de senhoras conversa animadamente ao lado de uma tela de Tarsila do Amaral, e, na ingressão do casarão histórico, uma jovem faz uma pose exagerada ao ser fotografada junto ao letreiro da Pinakotheke, a galeria ali sediada.
Era mais um dia na exposição “Surrealismos: Arte para Além da Razão”, oportunidade no final de maio e que marca a inauguração do novo lugar da galeria carioca em São Paulo. A Pinakotekhe, de Max Perlingeiro, um dos mais tradicionais galeristas do Brasil, ficou por 25 anos no bairro do Morumbi até se mudar há pouco para Higienópolis, onde está instalada numa mansão de quase centena anos próxima à avenida Paulista.
São muro de 250 visitantes por dia na mostra, diz Max Morales, diretor da galeria e rebento do fundador. No sábado do feriado de Corpus Christi, o público ultrapassou milénio pessoas, uma movimentação praticamente inédita para espaços do tipo em São Paulo, que costumam permanecer o tempo todo vazios —exceto pelo dia da início de vestígios, quando as pessoas aparecem para fazer contatos regados a vinho gratuito. Há até um aviso na porta da Pinakotheke informando que a lotação é de centena espectadores.
O diretor conta que vários influenciadores fizeram vídeos, tanto da mansão quanto das obras da exposição, e divulgaram no TikTok, o que acabou atraindo bastante público. Uma procura na rede social de vídeos curtos confirma o sucesso —usuários propagandeiam um “novo rolê cultural gratuito em São Paulo” e aparecem pagando de cultos junto a pinturas de Miró, Diego Rivera e Cícero Dias, trilogia digna de museu.
“Surrealismos: Arte para Além da Razão” foi idealizada por Max Perlingeiro —que ficou obcecado pelo movimento surrealista depois de ver uma exposição sobre Magritte em Paris— e pelo curador Tadeu Chiarelli. A dupla garimpou obras em coleções privadas no Brasil, trabalhos que pouco ou nunca deixaram as paredes das casas de seus donos, e agrupou o conjunto de centena pinturas, esculturas, fotografias e vídeos nesta mostra que celebra, depois da hora, o centenário do surrealismo, festejado há dois anos.
Na exposição, os curadores mostram o surrealismo de duas formas. A tradicional, que vai da dez de 1920 à de 1940 e engloba artistas europeus clássicos do movimento —porquê André Masson, Jean Cocteau, Francis Picabia e Salvador Dalí—, e uma outra, “que entende o surrealismo porquê um tipo de subjetividade e que vai além do surrealismo histórico”, afirma Chiarelli. Neste entendimento, o tema é maior do que a estética específica de um período.
A definição expandida permite à mostra incluir artistas brasileiros e latinos de fora do cânone, mas que lidam com a questão da irracionalidade, do sonho e do fantástico, tal qual faziam os surrealistas centrais. Por exemplo, há uma assustadora caixa de resina recheada com fios de computador e cabeças de boneca feita pelo mineiro Farnese de Andrade, e também uma estátua em bronze da paulistana Erika Verzutti em que uma forma alongada lembra elementos das telas de Tarsila do Amaral —a modernista aparece com a pintura “O Lago”.
Ao sobrepor artistas de linguagens estéticas e momentos históricos distintos, a exposição evidencia porquê não faz sentido limitar o surrealismo a uma sintoma artística do entreguerras na Europa. A aproximação de trabalhos aparentemente diferentes revela “mais pontos de contato do que de ruptura entre algumas obras”, diz Chiarelli, acrescentando que “a arte é uma coisa que se dá no presente”.
Por outro lado, para quem procura o feijoeiro com arroz muito muito feito, há os nomes esperados. Dalí, o surrealista por superioridade, tem obras em diferentes suportes —uma estátua de corpo feminino com um relógio liquefacto na cabeça, uma tapeçaria, três azulejos em cerâmica, uma aquarela e o filme que fez com Luis Buñuel, “Um Cão Andaluz” —película símbolo da vanguarda da primeira metade do século 20. De Jean Cocteau aparecem três broches em bronze folheado a ouro, nas formas de gato, lagarto e olho.
O meneio ao tropicalismo acontece num espaço devotado a Maria Martins, com três esculturas, gravuras em metal e litogravuras. Na dez de 1940, quando morava nos Estados Unidos, a mineira fez segmento do círculo de surrealistas exilados em Novidade York com seus trabalhos de figuras femininas híbridas informadas por mitos amazônicos e formas vegetais.
A novidade sede da Pinakotheke se insere num roteiro de galerias de arte —vizinha da Gomide & Co e da Vermelho, deve ser adotada porquê direcção pelo público interessado. Ela ocupa um casarão da dez de 1930, não protegido pelos órgãos de patrimônio, onde já foi uma residência, um museu do vinho e o comitê de um partido político. Perlingeiro conta que o imóvel “estava absolutamente destruído, não tinha zero, só um endereço” quando chegou.
Foi necessária uma reforma de um ano, a incumbência do arquiteto Luciano Dalla Marta, para refazer a mansão de quatro andares —dois de espaços expositivos e dois subsolos, sendo um para suplente de obras e outro para os escritórios— interligados por uma escada em caracol pintada em azul dramático. Do lado de fora, um moca e uma livraria funcionam porquê superfície para se debater com amigos o que se viu dentro.
Por que, depois de 25 anos no Morumbi, realocar a galeria para a região da Paulista? “Aprendemos que o paulistano não atravessa a ponte”, diz o galerista, em referência à via sobre o rio para chegar ou trespassar do bairro.





