É cada vez mais provável que a eleição de 2026 repita o padrão das duas últimas eleições presidenciais: um plebiscito em que cada sufragista decide qual lado deseja impedir que esteja no poder.
Em toda pesquisa, eleitores declaram-se fartos de tanta polarização; em todas elas, sinalizam que, no término das contas, acabarão votando para evitar o que lhes parece o mal mais fatal. Vota-se, enfim, não para resolver problemas, mas para evitar o problema político que o lado preterido representa. Não é voto, é veto.
De um lado, quem quer impedir a volta do bolsonarismo —ainda que venha em pele de cordeiro, isto é, de Tarcísio. De outro, quem vê o lulismo porquê a encarnação persistente de tudo o que há de inverídico na política e quer afastá-lo do núcleo do poder.
Nisso, as grandes urgências nacionais —segurança pública, propagação, instrução, pobreza, meio envolvente— cedem lugar àquilo que hoje enche nossos olhos e monopoliza nossos afetos: evitar que “o outro lado” ameace nossa existência ou a ordem institucional.
O país merecia mais que isso? Certamente. Mas é esta a situação em que nos colocamos desde meados da dez de 2010: a política, que deveria ser o instrumento para resolver problemas, passou a ser considerada o principal problema a ser reparado. Quando a política passa a se ocupar de si mesma, dificilmente se ocupa de outra coisa.
A teoria da agenda setting ajuda a entender o mecanismo: eleições se decidem quando uma narrativa vence a disputa sobre qual é o problema mais importante do país. A partir daí, os eleitores escolhem quem parece mais capaz de enfrentá-lo. Há uma disputa para definir a agenda e outra para parecer adequado ao papel que ela exige. Em outras palavras, partidos e candidatos precisam incorporar essa agenda, oferecer perfis que pareçam talhados para enfrentá-la e convencer a maioria de que têm credenciais e histórico que os qualificam para a missão.
Nossa história eleitoral desde a redemocratização alterna dois ciclos. No ciclo material, elegemos quem parece mais capaz a resolver problemas concretos. No ciclo político, votamos para neutralizar um risco trazido pela própria política.
Exemplos ajudam. Em 1989, Collor encarnou a promessa de resolver por fora o que a política não conseguia: trinchar “marajás”, modernizar o Estado, varrer privilégios. Era a política porquê vilã e o “não político” porquê remédio. Já em 1994 (e 1998), a agenda foi material e nítida —controle da inflação e responsabilidade fiscal—, e FHC parecia o personagem visível para a missão.
Em 2002 e 2006, a “questão social” organizou as prioridades nacionais, e Lula ofereceu biografia e oração ajustados à missão de enfrentar miséria, desigualdade e desemprego. Em 2010, Dilma vendeu cultura de gestão e perenidade das políticas sociais. Em 2016, com o impeachment e a posse de Temer, a expectativa pública majoritária recaiu sobre reformas (“as reformas de que o Brasil precisa”, dizia-se) —um retorno clássico ao ciclo material, ainda que por via do que foi, de trajo, uma eleição indireta.
A inflexão vem em 2018. A antipolítica e o antipetismo dominam a taxa; vende-se um político inexpressivo porquê “antissistema” para, supostamente, emendar a política por choque. A política entrou no roteiro não porquê solução, mas porquê vilã. A agenda material deu lugar à política: o problema passou a ser o próprio sistema político, seus atores e seus modos de operar. O voto deixou de responder à pergunta “quais problemas a política resolverá?” e passou a responder “porquê impedir que eles governem?”. A política do PT era o mal maior a ser retirado.
Em 2022, o plebiscito girou o tabuleiro: votou-se para sustar o estilo dominador e inepto do bolsonarismo e restaurar alguma normalidade institucional. Em ambos os casos, decidiu-se contra alguém, não por um caminho —é o voto preventivo.
E zero indica que 2026 fugirá dessa emboscada. O que se desenha é mais um plebiscito defensivo —o pavor do outro lado—, não uma escolha sobre porquê enfrentar os problemas que aguardam, na fileira, sua vez de serem resolvidos politicamente.
O curioso é que os ciclos em que elegemos quem parece mais capaz de enfrentar problemas reais —inflação, desemprego, desigualdade, crise fiscal— costumam gerar governos de resultados. Já os ciclos em que elegemos para punir a política ou nos proteger de determinados políticos terminam, invariavelmente, em frustração e retrocesso.
Enquanto a política continuar sendo considerada o principal problema vernáculo, nenhuma eleição servirá para resolvê-lo.
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