Muitas coisas são debatidas em “Narciso”, longa mais recente de Jeferson De. A principal, que talvez englobe todas as outras, é a premência de roboração.
Racismo, desigualdade social, delinquência juvenil e etarismo são problemas intimamente ligados, no filme, a essa premência, e a dificuldade de consolidá-la.
Narciso, o protagonista vivido por Arthur Ferreira, deseja ser aceito por alguma família que o adote, mas deseja mais ainda ser aceito em qualquer grupo, qualquer que seja. De notório modo, todos os personagens do filme desejam qualquer nível de roboração.
O diretor parece disposto a tentar alguns truques para enriquecer seu cinema, imagens de efeito que nem sempre estão adequadas ao desenrolar da trama, mas eventualmente enriquecem nossa reparo.
Nesse sentido, impressiona que a câmera se detenha no rosto do jovem Narciso, no banco de trás de um carruagem, por longos segundos, um tempo consideravelmente longo dentro do que normalmente se espera de um filme com sede mercantil.
Toda a sequência inicial, aliás, construída sem diálogos, impressiona pela segurança no relato das tensões que estão em jogo, só com imagens e olhares, lembrando que o bom cinema pode ser feito sobretudo de olhares.
As primeiras falas de Narciso são justamente “não estou com inópia”. Ele é um órfão que acaba de ser devolvido por uma família que o adotou. Volta, portanto, para a vivenda de Carmem, personagem de Ju Colombo que acolhe crianças e adolescentes nessa requisito. Ela também deseja ser aceita por esses jovens, que geralmente voltam meio revoltados com a repudiação.
Um dos momentos iniciais em que o racismo é tematizado, justamente sob o véu da roboração, é o sonho de Narciso com uma família de mercantil de pasta de dentes, todos loiros, sorrindo em um lugar paradisíaco e pleno de luz de telenovela.
Num determinado dia, Narciso acorda com o quicar de uma esfera de basquete. Ele a colheita e acerta três arremessos na cesta improvisada no quintal onde mora. É o chamado do gênio interpretado por Seu Jorge.
O libido de Narciso é o de ter uma família. Não só: uma família rica. Porquê só os brancos são ricos, pensa, ele precisaria ser branco. Mas para poder ser reconhecido pelos amigos, ele precisa continuar preto.
O gênio portanto formula a magia: para os brancos, Narciso será visto uma vez que branco. Para os pretos, Narciso será visto uma vez que preto. Ele só não pode ver o próprio revérbero, de propósito, no espelho, pois isso iria desfazer o portento. Ou seja: Narciso escolhe ter uma vida de fábula. Mas tem o poder para voltar à verdade.
Saber uma vez que o filme irá se desenrolar daí por diante é a perdão. Nesse sentido, podemos antecipar que se sai minimamente muito na equação expectativa-realização, mesmo que não explore todas as possibilidades propiciadas pela trama.
Porquê Narciso irá viver sendo visto de maneiras diferentes por brancos ou pretos? Que consequências isso terá na sua maneira de ser? E uma vez que o filme vai tratar essas diferenças?
O trabalho com reflexos atravessa o filme inteiro, na segmento realista e na segmento fantasiosa. Reflexos da sociedade racista em que Narciso vive e das dificuldades de compreensão do problema pela segmento privilegiada.
Mas é também o revérbero de si mesmo que pode perfazer com o manipanço. Ou seja, Narciso precisa viver no revérbero de seus desejos e negar da verdade. Será feliz assim?
O filme também trabalha a dicotomia preto e branco. Quando o manipanço inicia, a imagem perde as cores. O preto e branco reflete a simplicidade do libido de Narciso e de seu entendimento de mundo, diante da vida real na sociedade.
Quando a mãe de fantasia pede um pente para pentear o cabelo do fruto, Josefa, a empregada negra, leva dois pentes: um para brancos, outro para negros. Sumptuoso observação sobre a moca que Narciso escolheu para si.
Em outro momento, ele joga xadrez com Jaime, o motorista. As peças são brancas e pretas. Jaime avisa: as brancas sempre começam. Ele faz o movimento e leva o xeque-mate.
No cinema, as referências são fundamentais. Jeferson De realiza, com “Narciso”, seu melhor trabalho. Justamente porque soube adequar o que parece ser sua principal referência neste filme, o cinema de Jordan Peele, sobretudo em “Corra”, para o seu universo de lutas e críticas.
Os preceitos do “Dogma Feijoada”, que o diretor ajudou a gerar, continuam valendo, agora assentados na maturidade e na consciência de um estilo.
