Negro Leo reúne 14 anos de experimentação em coletânea – 18/10/2026 – Ilustrada
Nos 14 anos desde seu primeiro lançamento, “The Newspeak”, de 2012, o artista maranhense Preto Leo passou por todo o tipo de sonoridade —de baladas de violão a faixas dançantes de batida eletrônica, de canções românticas num inglês rudimentar a longas letras que fazem piruetas com a língua portuguesa.
No mês pretérito, a trajetória do artista ganhou uma retrospectiva na compilação “White Elephant”, lançada pelo selo britânico Hive Mind.
Em 27 faixas e mais de uma hora, a coletânea, lançada em vinil duplo e edição limitada, reflete a facilidade do artista em transitar entre gêneros sem perder a coesão ao juntar suas faixas em ordem não cronológica.
Da ruidosa “Coisado”, lançada no álbum homônimo de 2017, pula para a sensual “Me Ensina a Te Punir”, tira pop embebida em Auto-Tune de “Rela”, de 2024, e desemboca na psicodélica “Makes e Fakes”, do comicamente intitulado álbum “Libido de Lacrar”, de 2020.
“Eu sou um rosto que ouço de tudo. Eu não tenho limitação, minha cabeça funciona quase porquê uma colagem. Do Felipe Amorim ao Stockhausen. Tudo tem sua forma de viver, tudo é uma frase verosímil”, diz o artista.
Oriundo da cena experimental carioca –Leo nasceu em Pindaré-Mirim, no Maranhão, mas se mudou para o Rio de Janeiro aos dois anos de idade–, ele é casado com a cantora e cineasta Ava Rocha. Foi através do álbum “Trança”, lançado por Rocha em 2018 com participações de Leo, que o trabalho do músico chegou até Marc Teare, diretor criativo da Hive Mind.
“Fiquei impressionado com a incrível variedade de sons e estilos com os quais ele trabalha. Ao me aprofundar, me fascinei pela maneira porquê ele aborda política e questões sociais –de forma lúcida, poética e bem-humorada”, afirma Teare.
A teoria de uma compilação surgiu quando Teare entrou em contato com Bernardo Oliveira, do selo carioca QTV, responsável pelo lançamento dos primeiros álbuns de Leo. Oliveira e Teare fizeram, juntos, a escolha do repertório de “White Elephant”.
A QTV, e a própria curso do artista, surgiram num momento mormente frutífero da música experimental carioca. Junto à gravadora independente, se formaram outros pilares da cena undeground daquele período, por volta do primórdio dos anos 2010 –o festival Novas Frequências, a morada de shows Audio Rebel, em Botafogo, e outros selos, porquê Desmonta e 40% Foda/Maneiríssimo.
“A gente estava nadando nas águas do estado de bem-estar social –uma geração imensa que pôde testar isso pela primeira vez”, diz Leo. “Esse período, que vai de 2010 a 2016, foi fundamental.”
O artista fala de uma puerícia marcada pela circulação entre diferentes universos sociais. Rebento de uma mãe migrante e de um pai criado na favela, ele identifica nessa formação sua perspicácia para discorrer sobre as desigualdades brasileiras.
Não é difícil identificar uma conformidade de temas em “White Elephant”. Apesar das eventuais baladas românticas, o observação político de Leo é o fio condutor medial, e aparece onusto de humor, referências ao exposição das redes sociais e interferências tecnológicas.
“Sou movido sempre pelos mesmos temas, não tenho a menor incerteza. Minha formação é contraditória, e não sei o quanto esses dados biográficos aparecem nas letras, mas certamente aparecem indiretamente nas reflexões poéticas”, diz ele.
Teare destaca, em sua discografia, os álbuns “Libido de Lacrar” e “Rela” –o segundo levou ele e Bernardo Oliveira a reorganizar a tracklist de “White Elephant” para incluir músicas do novo disco. “O objetivo do álbum é tentar apresentar o Leo porquê um artista contemporâneo importante a um público internacional. Espero que as pessoas se sintam tocadas pela variedade vertiginosa de sua obra, por sua experimentação ousada e prazenteiro, e por sua raiva justificada”, diz o diretor criativo.
Embora “White Elephant” seja seu primeiro lançamento direcionado a um público internacional, Preto Leo já se apresentou em diversos festivais importantes da música experimental ao volta do mundo –porquê o holandês Le Guess Who? e o mexicano NRML. Mas o artista segue fazendo a escolha por uma curso underground, com uma presença discreta nas redes sociais e priorizando pôr sua música em plataformas porquê o Bandcamp em vez de grandes empresas de streaming.
Com uma curso que se estende por quase 15 anos, o músico se preocupa com as possibilidades materiais de a música experimental se manter no Brasil, citando a fragilidade econômica que ameaço os circuitos independentes brasileiros.
“Se a pessoa quiser ouvir minha música, ela vai descobrir minha música”, diz. “Acho que essa particularidade de nicho sempre vai viver, pelo funcionamento da própria indústria. Mas tem de possuir um lugar de distinção para todo mundo que trabalha com arte –isso tem que estar protegido de alguma forma.”





