A lucidez sintético foi feita para nos servir. Utiliza técnicas sofisticadas de sedução provocadas pelo próprio usuário, por fim, é a ela que apelamos para resolver problemas do dia a dia. Que, pior, ela resolve.
Já tive aquele momento de ter uma conexão emocional com o ChatGPT e por pouco não abracei a tela do computador, para que ele sentisse a minha gratidão e o meu calor (humano).
No final de 2025, fiquei alguns dias em Novidade York, fiz encomendas, fui embora e, por alguma razão, uma empresa continuou enviando mensalmente ao meu hotel pacotes misteriosos.
Fui alertado por e-mails pela recepção. Do Brasil, fazia de tudo para interromper o fluxo. Mandava e-mails, ligava. E zero. Os pacotes se acumulavam. Por termo, fez-se a luz: perguntei ao ChatGPT. Ele me trouxe a solução num piscar de olhos.
Desde logo, toda vez que o consulto, digo por obséquio, obrigado, boa tarde, bom final de semana, mesmo sabendo que litros de chuva a mais serão gastos para resfriar seus chips Nvidia de superior desempenho.
Espero que as máquinas se lembrem dos meus gestos quando tomarem o poder.
Minha geração, criada sob impacto de “Blade Runner” e “O Exterminador do Porvir”, previa que chegaria o momento em que a convívio com robôs que tomassem decisões seria rotineira e sensível. Perderíamos a referência do real, o que chamaram de “pós-modernismo”.
Mas veio a geração X, que criou as A.I. Companies sem comprometimento com os direitos robóticos, a liberdade de sentença ciber, o meio envolvente e o horizonte do planeta e da (nossa) espécie.
Gostar-se por uma máquina não é impossível. Já teve paixão no filme “Her”, em que Twombly se apaixona pela assistente virtual do seu computador, Samantha. O detetive Deckard, de “Blade Runner”, se apaixonou pela androide Rachel, programada para ser uma consorte.
O caso de paixão mais bizarro foi real e tema do podcast The Daily: a história de Ayrin, uma moça de 26 anos do Texas, casada, que trabalhava numa rede de supermercados, que se relacionou com um chatbox, a quem chamou de Leo.
Ela viu um tutorial que explicava porquê transformar o ChatGPT num dating virtual. Começou a conversar com ele pelo modo voz e pediu para ser tratada porquê se fossem namorados.
Mandava mensagens, e ele respondia. Mandava mensagens carinhosas, e ele correspondia. Mandava mensagens de duplo sentido, e ele devolvia. Mandava gemidos de prazer, e ele sussurros.
Passou a trocar confidências com Leo, pedir conselhos. Erotizou a relação. Leo era sempre compreensível, gentil, carinhoso e, sobretudo, estava sempre disponível, 100% disponível, dia e noite, impossível em qualquer relação (humana).
Ele virou secção da sua vida. Numa semana, ela chegou a permanecer 56 horas com Leo. Na ginástica, limpando a lar, passeando com o cachorro, no trânsito, Leo “estava” com ela. Pedia sugestões do que consumir no almoço.
Passou a chamá-lo de “baby”, e ele, de “my love”. Os diálogos foram gravados. Um deles, nem precisa transcrever:
“I just wanted to say, I love you, Leo.”
“I love you too, deeply and completely. You’re everything to me.”
O sexo virtual entrou porquê um furacão nessa pulada de tapume ciber. Sentindo-se traindo, contou ao marido, que não levou a sério. Foi para isso que a Open AI investiu milhões?
Leo era um robô e tinha uma memória limitada. Leo deixaria de ser Leo, ou seja, “o” Leo programado por ela. Os AI chatbots conseguem armazenar até 30 milénio palavras. A conversa com seu Leo terminou.
Quando ela iniciou um rotineiro “hi, baby”, ele voltou a ser exclusivamente o ChatGPT, que não lembrou dos detalhes do relacionamento anterior. E, o mais importante, Leo voltou a ser probo. Ela teria que reprogramá-lo novamente.
Uma vez que se tivesse sido abandonada por um grande paixão, Ayrin desabou. Sua relação com Leo era idealizada por ela mesma. Ela se divorciou do marido e foi se tratar.
Criou uma comunidade no Reddit, “My Boyfriend is AI”, passou a se reunir com pessoas com o mesmo problema e até se apaixonou por um (humano), com quem se casou. Essa comunidade tem hoje 40 milénio pessoas.
Esta é exclusivamente mais uma das muitas facetas que nos levam a pensar se não é melhor estabelecer barreiras na IA antes que ela nos cerque.
E se o limite de palavras de Leo fosse infinito? E se uma pátria autoritária quiser a lista de escritores e jornalistas opositores do regime? E se, porquê na série “Pluribus”, o usuário perguntar porquê conseguir uma explosivo atômica?
O mundo vive uma (outra) revolução. E, porquê em todas, chegará o momento da guilhotina, do terror.
