Noemi jaffe revê sua vida no livro 'te dou minha

Noemi Jaffe revê sua vida no livro ‘Te Dou Minha Palavra’ – 05/09/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Nas páginas que abrem “Te Dou Minha Termo”, a escritora Noemi Jaffe se narra olhando para o espelho. Vê em seu rosto, hoje de 63 anos, rugas que são “uma vez que rasgos”. “Alguém disse que a vida é um processo inflamatório, e vejo a vida queimando, a pele dobrada e redobrada, vincada de tanto uso.”

O contraste com a maneira uma vez que ela se sente hoje engatilhou o processo de reviver uma Noemi de meio século detrás. “A gente vai virando meio juvenil com 60 anos”, diz, enérgica, sentada na cadeira de uma das salas da Escrevedeira, meio de cursos de escrita que abriu há quase dez anos em São Paulo.

“É uma idade libertadora. Você não tem mais amarras com ninguém e pode realizar o que não fez na juvenilidade porque tinha que ser adulto, trabalhar, lucrar quantia, ter morada, fruto, himeneu. Agora pode falar: eu quero pirar.”

Uma das principais escritoras brasileiras em atividade, a paulistana não se constrange em definir esse livro uma vez que um tipo de culminação de toda a sua trajetória, usando as palavras que maneja com tanta destreza para arquitetar uma espécie de autobiografia.

Mas uma vez que ela mesma escreve, “histórias, memórias, é difícil separá-las”. Logo são também relevantes os fatos narrados e os livros que leu, discos que surrupiou, piadas que escutou da família. E são lembranças compostas das diversas línguas que a moldaram.

Passam pelo iugoslavo que seu pai adorava ostentar, o judeu que ela sentia precisar na escola para falar com Deus, o húngaro que era a “língua do Diabo” para Guimarães Rosa e também a língua de uma juventude mais antiga —a de sua mãe, Lili, personagem médio de seu projeto literário em obras uma vez que “O que os Cegos Estão Sonhando?”.

Os pais são, novamente, secção fundamental da narrativa agora. Judeus radicados no Brasil depois evadir o inominável do Sacrifício, ambos encarnam uma dualidade: se o pai exercitava a memória quase uma vez que questão de honra, assumindo a incumbência de se lembrar para nunca repetir, a mãe sempre pendeu mais à libertação representada pelo esquecimento.

“Para o meu pai, ter sobrevivido era também um fardo, a obrigação vitalícia de lutar pelo que ele mesmo não sabia se valia a pena. Para a minha mãe, a salvação se deveu ao Sorte e, no final da vida, ela dizia tolerar mais do que na guerra, já que a recordação doía mais que o vestimenta.”

A filha não declara um lado explícito entre os dois na narrativa, mas nem precisa —ela está escrevendo um livro de memórias.

“Quem quiser nascer precisa destruir um mundo”, diz a frase do livro “Demian”, do teuto Hermann Hesse, que conversa diretamente com o processo de maduração narrado por Noemi.

Qual o sentido, portanto, de grafar um livro tão hipotecado em rememorar esse mundo que a autora destruiu há tanto tempo? “Para entender o que provocou o libido de devastação desse mundo, que é um libido permanente, inclusive atual. É o que também estou fazendo ao grafar esse livro. Descobrindo a origem desse querer estar sempre rompendo.”

Isso não se confunde com desprazer ou desprezo pelo pretérito —basta ver o afeto que derrama de cada página—, mas se explica porque esse mundo com que a autora rompeu a constrangia em um tradicionalismo severo, antônimo da liberdade. Que também é capaz de render risadas.

Em uma das muitas anedotas do folclore judaico pontuadas durante o livro, Noemi conta da viagem de um rabino e seu discípulo. Eles param para dormir numa hospedaria e o mais jovem pede para o empregado do lugar o contratar muito cedo para pegar um trem.

Sacudido ainda de madrugada, o discípulo se veste sonolento e, por ilusão, pega a roupa do rabino em vez da sua. Chegando à estação de trem, se vê no espelho e fica paralisado. “Que criado idiota! Pedi que ele me acordasse e, no término, acabou acordando o rabino.”

A situação combina com aquela cena de Noemi vendo sua própria imagem sem se reconhecer. E a escritora se diverte com a conferência.

“Essa disparidade entre o que você sente e o que você vê é muito chocante. E as duas coisas estão certas, tanto meu sentimento de juventude quanto a verdade biológica. O que eu vejo no espelho é a aproximação da morte. Mas eu me sinto mais viva.”

Folha

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