Em 1989, o quadrinista Robert Crumb, um ícone da contracultura, desenhou uma história sobre um patente empresário nova-iorquino, que atuava no ramo imobiliário e era descrito uma vez que um dos homens mais malvados do mundo. Terminava com duas mulheres enfiando a sua cabeça dentro da privada e dando descarga. O empresário era Donald Trump.
O incidente aparece na recém-lançada biografia “Crumb: A Cartoonist’s Life”, em que o pesquisador Dan Nadel esmiúça a vida de um dos artistas americanos mais importantes do último século. O livro, que teve uma óptimo recepção, deve transpor no Brasil pela Todavia em meados de 2026.
Crumb, de 81 anos, é publicado pela sátira social, uma vez que a de Trump, e também por incorporar temas adultos e solidificar o gênero das HQs autorais. Sem ele, talvez não existisse um mercado para nomes uma vez que Marjane Satrapi (“Persépolis”), Joe Sacco (“Palestina”) nem Daniel Clowes (“Mundo Fantasma”).
Nadel diz que decidiu redigir a obra ao se dar conta de que Crumb viveu e registrou todas as grandes transformações sociais das últimas décadas. “Foi um grande sintetizador do século 20.” O livro não é somente uma biografia, mas também uma estudo da cultura —e da contracultura— dos Estados Unidos.
Robert Crumb nasceu na Filadélfia em uma família pobre e conturbada. Cresceu vendo o esfarelamento do sonho americano, que o excluía. Ainda pequeno, começou a rascunhar retratos daquele mundo instável, duro, violento e desigual. Deformou as formas humanas, exagerando suas proporções.
Entrou na idade adulta nos anos 1960, justo quando os Estados Unidos embarcavam em movimentos contraculturais que incluíam a libertação sexual e a experimentação psicodélica. Transformou tudo aquilo em nanquim, às vezes carregando na sacanagem.
Seu estilo era inconfundível desde a largada. Crumb se apropriou e atualizou a estética dos cartuns do século 19, em próprio, de Thomas Nast, pai da charge política americana. É um ilustração pesado, marcado pela técnica de hachura —linhas paralelas e cruzadas que criam volume, sombra e textura.
Não tardou para que o público reconhecesse que aquele jovem desenhista era um dos melhores tradutores de suas angústias. Suas revistinhas, uma vez que a “Zap Comix”, influenciaram toda uma geração. Entre seus fãs estava a cantora Janis Joplin, para quem desenhou a toga do álbum “Cheap Thrills”, de 1968.
Foram diversas revistinhas, coletâneas e livros desde os anos 1960, e uma das grandes qualidades de Crumb é nunca ter largado o lápis. Em 2009, publicou uma de suas obras-primas: “Gênesis”, em que ilustra o livro bíblico em pormenor. Segue trabalhando em novos projetos.
Agora está fundamentado na França. Em 1991, desiludido com a guinada conservadora dos Estados Unidos, incluindo a subida de Trump no mundo dos negócios, o quadrinista se mudou para uma vila medieval, onde ainda vive.
Foi ali que Nadel se sentou com Crumb por longas temporadas durante a pesquisa para o livro. Entrevistou também uma centena de familiares, amigos e colegas do artista. A isso, somou as pilhas de documentos que Crumb guardou compulsivamente desde os 15 anos, entre diários, recibos, anotações e fotografias. “Ele me enterrou com papéis”, brinca.
Apesar de sua nomeada de misantropo, Crumb recebeu muito o biógrafo, e eles se aproximaram. Não pediu para ler o texto antes da publicação. Sua única exigência era que Nadel não escrevesse uma hagiografia, isso é, a biografia de um santo. Queria que o livro refletisse sua vida —incluindo seus desvios e erros.
Uma das questões mais delicadas de sua curso foi o retrato que fez das populações negras e das mulheres. Crumb reproduziu, na página, muito da violência de raça e de gênero com que cresceu. A própria história dos gibis uma vez que formato, uma vez que mostra Nadel, é bastante racista e machista.
Nadel conta que Crumb está cônscio da sátira e a aceita. “Ele se interessa pela discussão e quer que ela exista”, diz. O quadrinista chegou a riscar e publicar algumas de suas conversas com as feministas que criticavam sua obra. “Mas ele não se desculpa”, afirma o biógrafo. Não pode mudar o que já traçou.
Foi de todo modo a crueza do olhar de Crumb que encantou leitores e alimentou uma longa curso, uma vez que sugere o novo livro. “Ele acessa o inconsciente coletivo”, diz Nadel. É, finalmente, um espelho da sociedade americana e de suas contradições, e aquilo que reflete está sujo e rachado.
