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Nova geração do pagode resgata influência da black music – 21/08/2026 – Ilustrada

Thiaguinho lançou recentemente o álbum “Muito Black”. Péricles está confirmado no Rock in Rio 2026 com um espetáculo devotado aos clássicos da gravadora Motown. O cantor Coimbra, um dos nomes em subida do segmento, viralizou nas redes sociais ao interpretar “I’ll Be There”, do Jackson 5, ao som da batucada. A influência da black music, que ajudou a moldar o pagode dos anos 1990, volta a nascer com força entre artistas da novidade geração.

Quando Felipe Trotta escreveu sua tese de doutorado, que culminou no livro “O Samba e suas Fronteiras”, publicado em 2011 pela Editora UFRJ, os embates entre sambistas tradicionais e os pagodeiros modernos estavam mais à flor da pele. O primeiro grupo acusava o pagode de ser resultado do mercado fonográfico, pasteurizado e sem raiz. Já o segundo buscava se legitimar dizendo que também eram praticantes do samba, mas com um estilo dissemelhante —tese defendida por Trotta.

“Não existe diferença entre gêneros. Me parece mais que são maneiras diferentes de tocar o samba”, diz o pesquisador. “O pagode é um estilo de samba que foi fundamental, nos anos 1990, para reposicionar o samba no topo das paradas de sucesso no Brasil”.

E um dos grandes méritos da série “Anos 90: A explosão do pagode”, dos diretores Emílio Domingos e Rafael Bolsinha, que está disponível na Globoplay, é provar que esse estilo não nasceu de geração espontânea ou foi desenvolvido nos confins das gravadoras multinacionais. Mas, sim, que passou pelas mentes e mãos de uma juventude, sobretudo paulista, perspicaz e enxurrada de referências locais e globais.

“Os bailes blacks foram a grande influência desses grupos de pagode, não só músico, mas também estética. Quando eles subiam no palco, eles já vinham com uma bagagem de testemunha, de ter visto espetáculos de artistas negros norte-americanos promovidos pela Chic Show, Zimbabwe ou Kaskatas”, diz Domingos.

Por uma ensejo de fatores econômicos e culturais, e uma astúcia dessa geração, o pagode conseguiu se associar às engrenagens do mercado fonográfico e da mídia, principalmente a televisão. “O pagode colocou uma juventude negra de periferia dentro do mercado, ocupando espaços antes muito restritos. Portanto, tem uma prestígio muito grande para o jovem preto brasílico se ver representado, uma espécie de espelho para grande segmento da sociedade”, diz o diretor.

Passados 30 anos do boom do pagode dos anos 1990, talvez só agora seja provável compreender a dimensão simbólica daquele fenômeno, segundo Acauam Oliveira, professor de literatura da Universidade de Pernambuco e crítico cultural. “Para quem estava no início daquele processo, porquê agente, era difícil ter o distanciamento histórico necessário para entender o que estava fazendo. Hoje, à luz das discussões decoloniais e afrodiaspóricas, conseguimos elaborar outras narrativas sobre o que aconteceu.”

Para o pesquisador, o pagode deixou de ser interpretado porquê um rebaixamento do samba e começa a ser reconhecido porquê uma linguagem negra própria, um tipo de pop periférico. “A sátira seguia esse caminho porque tentava compreender o pagode 90 exclusivamente porquê perenidade da experiência do Cacique de Ramos e do Fundo de Quintal. Mas o Cacique foi exclusivamente uma de suas matrizes. Hoje conseguimos enxergar o pagode também porquê fruto da black music. O que aqueles artistas construíram foi outra vertente da música pop periférica”.

Evidente que é difícil definir quais seriam as raízes de um estilo que, desde a sua geração, provocou rupturas. A partir da sonoridade criada pelo Raça Negra, grupos porquê Negritude Júnior, Só Pra Contrariar, Sensação, Katinguelê, Soweto e tantos outros caminharam nessa traço tênue entre um samba mais tradicional e a música pop, que estava em subida na estação.

“Talvez a melodia mais didática daquele período seja ‘Cohab City’, que começa com uma menção a ‘ABC’ do Jackson 5, depois vai para um balanço estilo Bebeto, para no refrão valorizar a batucada tipo a do Cacique de Ramos”, diz Oliveira.

Se nos anos 1990 o pagode buscava provar que também era samba, hoje já não precisa mais fazê-lo —o estilo acumulou repertório, memória e referências suficientes para ingerir da sua própria manancial. A black music, antes vista porquê uma descaracterização do samba, aparece hoje porquê um dos elementos constitutivos da sua identidade— e um porto seguro para artistas da novidade geração.

Folha

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