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Nydia Licia é dama do teatro em documentário da TV
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Nydia Licia é dama do teatro em documentário da TV Cultura – 22/09/2026 – Ilustrada

Ao trespassar da Itália, com 13 anos, Nydia Licia já havia testemunhado a mais de 30 óperas, influenciada pela vida cultural intensa da família judaica —o pai, médico e professor universitário, e a mãe, pianista formada em ciências musicais.

Era uma vida preenchida pela arte. Com o pai, ela aprendeu a ler verso. Da mãe, herdou o paixão à música.

O documentário inédito “Nydia Licia – O Espetáculo Continua”, produzido pela TV Cultura, usa a voz da própria atriz para descrever essa e outras histórias da pioneira dos palcos e da TV no Brasil. A obra estreia nesta quarta, às 22h30, para festejar o centenário da artista, nascida em 30 de abril de 1926, em Trieste.

“Estávamos no tempo do fascismo. De repente, eles perderam os empregos. Meu pai disse: vamos embora”, ela relata em um prova sobre a decisão de fugir para o Brasil.

As entrevistas da atriz, apresentadora, diretora de teatro e TV são a base do documentário de 55 minutos, com roteiro e direção de Simão Scholz. Licia conta episódios uma vez que a chegada a São Paulo, depois a família evadir das garras de Benito Mussolini.

“Achei o Brasil maravilhoso. Em dois meses eu estava falando português”, afirma. A rapariga já havia estudado música e dança na Itália e no Brasil soube que Pietro Maria Bardi iria montar um museu, o Masp, Museu de Arte de São Paulo, a invitação de Assis Chateaubriand.

A jovem se apresentou e foi escolhida uma vez que uma das assistentes de Bardi, inicialmente no prédio dos Diários Associados, na rua 7 de Abril, no núcleo da capital paulista.

A exigência geográfica levou Licia ao teatro. A primeira sede do Masp era próxima à livraria Jaraguá, dirigida por Alfredo Mesquita, fundador de um grupo de teatro diletante e, depois, fundador da EAD, a Escola de Arte Dramática da USP. Ela soube que Mesquita precisava de uma moça loira, de cabelos compridos, para o papel de Laura Wingfield em “À Margem da Vida”, de Tennessee Williams. Era ela.

No TBC, o Teatro Brasiliano de Comédia, fundado por Franco Zampari no bairro do Varíola, a atriz conviveu com Cacilda Becker, Walmor Chagas, Adolfo Celi, Cleyde Yáconis e Paulo Autran.

Ela ficou no TBC até março de 1953, quando saiu com o ator Sérgio Cardoso, seu marido. Os dois foram para uma temporada na Companhia Dramática Pátrio, no Rio de Janeiro. “Naquela estação, o teatro ainda era um passatempo. Ainda era uma atividade paralela”, diz a médica Sýlvia Cardoso Leão, filha da atriz, entrevistada no documentário.

Com rico pilha de imagens e depoimentos, o filme tem o valor de lembrar a origem do teatro profissional em São Paulo, a partir da reunião de grupos amadores no TBC, estimulados pelo patrocínio e pelas exigências do italiano Zampari.

“Na hora de dormir, todo ator brasílio rezava: que Deus nos Zampari”, afirma com bom humor o crítico teatral Décio de Almeida Prado numa das entrevistas resgatadas.

As artes cênicas desenvolvidas no casarão do Varíola tinham ares europeus, com diretores uma vez que o italiano Adolfo Celi e o polonês Zbigniew Ziembinski, ambos também atores.

Além da história, o documentário tem bastidores divertidos, uma vez que as lembranças de Ziembinski dormindo em cena. Em uma dessas ocasiões, Licia ficou sozinha no palco, tocando flauta, porque a soneca impediu o polonês de voltar.

A movimentação no Varíola levou a atriz ao profissionalismo, a partir de 1950, com a peça existencialista “Huis Clos”, de Jean-Paul Sartre, ao lado de Cacilda Becker, uma grande amiga e mestra.

Ela e Cardoso fundaram em São Paulo a própria companhia teatral, o Teatro Bela Vista, inaugurado com o clássico “Hamlet”, de Shakespeare. A empreitada teve o espeque financeiro da escol paulistana e, na comemoração de um ano, o par montou “Chá e Simpatia”, de Robert Anderson, sucesso de público e sátira.

Os atores se separaram cinco anos depois o himeneu e partilharam muitas dívidas. Por regra judicial, Cardoso precisou viajar com apresentações e lucrar quantia para remunerar os credores, enquanto Licia ficou no Bela Vista, até 1970. O prédio vetusto foi demolido e deu origem ao atual Teatro Sergio Cardoso.

Já mais velha, Licia produziu e encenou teatro infantil, uma vez que empresária artística bem-sucedida. Fez novelas nas televisões Paulista, Tupi e Bandeirantes e comandou, a partir de 1969, programas na TV Cultura, uma vez que o “Quem é Quem”, “Presença” e “Porque Hoje é Sábado”.

Na Cultura, a atriz enfrentou a repreensão, com recta a um revólver em cima da mesa em uma das ocasiões, e nunca esqueceu a última conversa com Vladimir Herzog, morto sob tortura da ditadura militar, em 1975. “Ele disse: você não tem susto de falar comigo? Eu respondi: deixa de bobagem. No dia seguinte, ele morreu.”

Na TV, uma vez que diretora, ela criou o Teatro 2, com a montagem de 116 peças em uma temporada sátira para os artistas, e liderou diversos programas. “Ela foi uma mulher de visão, primeiro de seu tempo, e a TV Cultura se orgulha de festejar sua trajetória no ano de seu centenário”, diz a presidente da Instauração Padre Anchieta, Maria Angela de Jesus.

O documentário se encerra com uma frase de Licia. “Quando o espetáculo termina, zero sobra do trabalho de um ator. A não ser algumas fotografias, uns recortes de jornal, alguns troféus, e as saudades que permanecem no público.”

Folha

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