Publicado em 1976, “O Ósculo da Mulher-Aranha” permanece porquê um dos romances mais potentes para compreender não exclusivamente a ditadura argentina, mas as formas de repressão que sustentaram aquele regime.
A quartinho compartilhada por Valentín, militante de esquerda, e Molina, homossexual enamorado por melodramas, não funciona só porquê cenário: é uma síntese do modo porquê o autoritarismo latino-americano perseguiu, com igual violência, tanto a dissidência política quanto a dissidência sexual.
O livro desmonta a teoria de que a ditadura foi exclusivamente um fenômeno militar ou institucional: ela foi também moral, social e afetiva. Há tortura, increpação e vigilância, mas há também cumplicidade social, modorra coletiva e a crença de que certos corpos merecem ser punidos.
O enredo é simples e brutal: dois prisioneiros, isolados, conversam para continuar vivos. Molina narra filmes românticos, com heroínas sacrificadas e amores impossíveis, enquanto Valentín debate revolução, luta armada e a estrutura de vexame do Estado.
O choque inicial entre os dois, marcado por preconceito, recusa e suspeição, vai se transformando numa troca que desmonta certezas ideológicas e identitárias.
O romance funciona porquê laboratório de consciência: um aprende a ver o libido porquê força política, o outro começa a perceber que nenhuma revolução é completa se reproduzir as mesmas hierarquias de gênero e moralidade.
A estrutura do livro é decisiva para seu impacto. Não há narrador, só diálogos. Não há descrição psicológica, só voz. O leitor é obrigado a ocupar o espaço da quartinho, a ouvir, a preencher as lacunas.
Puig transforma o melodrama em método literário: aquilo que muitos críticos consideravam “popular”, “excessivo” ou “kitsch” é usado porquê arma narrativa contra o realismo masculino e viril dominante na literatura do boom latino-americano.
O que se chamou mais tarde de romance queer não é mero rótulo de sexualidade, mas asserção de que o corpo que governanta fora da norma é também corpo que resiste ao Estado.
A recepção inicial do livro foi hostil. A ditadura proibiu sua circulação. A sátira argentina o tratou porquê obra menor. Puig já vivia fora do país havia anos, depois de tentativas frustradas no cinema em Roma e sucessivos conflitos com editores e escritores que o rejeitavam por destruir as fronteiras entre a subida literatura e a cultura de tamanho.
Depois da publicação, seu exílio se tornou definitivo. Viveu no México, no Rio e em São Paulo, onde escreveu roteiros, ensinou literatura e tentou filmes que nunca se realizaram. Morreu em 1990, em Cuernavaca, sem ter retornado à Argentina.
A glorificação viria de forma tardia, em 1985, com o filme de Hector Babenco, estrelado por William Hurt e Raul Julia. A adaptação levou o romance a outro público e transformou seu impacto cultural.
Sônia Braga, que participou das primeiras etapas do projeto, escreve na contracapa desta novidade edição: “Uma vez que atriz, tive o privilégio de submergir no universo único de Manuel Puig, com ele ao meu lado, durante os ensaios do filme. Foi um presente vasqueiro, com aquele olhar agudo e a paixão vibrante de quem conhecia cada fotograma dos filmes de sua vida”.
A reparo não é só afetiva: reforça a relação visceral de Puig com o cinema, eixo medial de sua escrita. Uma novidade versão cinematográfica da obra acaba de transpor nos Estados Unidos, com Jennifer López e Diego Luna.
O jornalista prateado Patricio Pron destaca no posfácio da novidade edição que Puig é “o grande jornalista do relato cifrado, aquele da ocultação sagaz da informação narrativa, o do realismo mais obstinado e da certeza de que a única verdade que existe é a do conflito entre o libido e a convenção”.
A leitura de Pron recoloca Puig não porquê figura lateral do boom, mas porquê responsável que fez da linguagem uma forma de indisciplina e da anfibologia um dispositivo político.
Quase 50 anos depois, o livro permanece porquê documento estético e político. Em tempos de vigilância do dedo, moralismo restaurado e criminalização das identidades dissidentes, a quartinho de Puig continua a funcionar porquê metáfora do continente.
O romance desmonta a ilusão de que a ditadura terminou no dia em que os militares deixaram o poder. O que o livro revela é que a repressão sobrevive quando o libido continua sendo tratado porquê prenúncio. Valentín, Molina e seus silêncios ainda falam muito mais sobre nós do que sobre 1976.
