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"O Projeto" denuncia colonialismo e cobra responsabilidade da Europa
Brasil

“O Projeto” denuncia colonialismo e cobra responsabilidade da Europa

“A sociedade ocidental vive um estado de absoluta ignorância, de não saber, de não ter que saber e não responsabilidade saber”, analisa a intelectual portuguesa Grada Kilomba, no documentário O Projeto.

Trata-se do primeiro longa-metragem da cineasta Sabrina Fidalgo, co-dirigido pelo fotógrafo suíço Yvan Rodic. Discutindo séculos de colonialismo europeu, o filme estreia nos cinemas em 19 de novembro, no Mês da Consciência Negra.

Selecionado para a competição de documentários do 54ª Festival de Cinema de Gramado e exibido na buraco do Encontro de Cinema Preto Zózimo Bulbul, o filme também é um tentativa que secção de inquietações íntimas que levaram Sabrina e Yvan a refletir, em diálogo, sobre a premência de enfrentar as marcas de dominação colonial ainda atuais, porquê o racismo e a supremacia branca.

“Achamos que seria mais potente recontar [como se dá] esse projeto [colonial] através de nossas histórias, de nossos corpos, nos aproximando do público”, revelou Sabrina. “Senão, ia virar um documentário histórico, que não era o nosso intuito”.

 


Rio de Janeiro (RJ), 06/11/2026 – O fotógrafo Yvan Rodic e a cineasta Sabrina Fidalgo posam para fotografia em Laranjeiras, na zona sul do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 06/11/2026 – O fotógrafo Yvan Rodic e a cineasta Sabrina Fidalgo posam para fotografia em Laranjeiras, na zona sul do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

O fotógrafo Yvan Rodic e a cineasta Sabrina Fidalgo posam para retrato em Laranjeiras, na zona sul do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Escritório Brasil

Tino de urgência

O filme nasce também da indignação com o assassínio de George Floyd por um policial, nos Estados Unidos, em 2020. Na idade, pessoas saíram às ruas em todo o mundo em protesto contra a violência policial de base racista naquele país.

“Falando porquê um varão branco, parecia impossível vivenciar leste momento sem tomar uma atitude”, completou Yvan. “Havia um siso de urgência, tanto que, no início, a teoria era que O Projeto fosse mais focado em mim”, revelou.

A imagem marcante de Sabrina com um pregador de roupas apertando o nariz traz para a tela a diretora, que, mesmo oriunda da classe média, foi submetida à discriminação por ser negra e do Sul Global na juventude e em seus estudos em uma faculdade de cinema na Alemanha.

 


Brasília (DF), 16/11/2025 - Filme O Projeto. Foto: Gullane/Divulgação
Brasília (DF), 16/11/2025 - Filme O Projeto. Foto: Gullane/Divulgação

Sabrina Fidalgo com pregador do nariz em cena do filme “O Projeto”. Foto: Gullane/Divulgação

Yvan acrescenta ainda a sua perspectiva de alguém nascido na Suíça, onde a discussão sobre a responsabilidade do país no sistema colonial é recente.

“Até 2022, esse era um tema inexistente”, afirma o fotógrafo. “Alguns pesquisadores o abordavam, mas o grande público, não”.

A situação mudou, mas permanece a premência de envolver mais pessoas brancas na discussão. Por isso, ele também decidiu se colocar.

“Infelizmente, um filme antirracista realizado exclusivamente por uma pessoa negra despertaria muito menos interesse”, avalia.

‘Problema inventado pelos brancos’

Em O Projeto, os realizadores trazem à telona não só os ganhos financeiros dos países europeus com o colonialismo, mas o papel do setentrião global no enfrentamento à colonialidade.

O concepção amplia a noção de controle unicamente pela a ocupação de terras e envolve outras formas de dominação, por meio de arranjos políticos, econômicos e socioculturais que moldam relações de sujeição e subserviência.

A vice-presidenta da Associação de Profissionais do Audiovisual Preto (Apan), Janaína Refem, acredita que “o filme abre uma porta de diálogo com as pessoas brancas”.

“Nós, do movimento preto, há anos, afirmamos: o racismo não é problema nosso. O racismo é um problema inventado pelos brancos, assim porquê a discriminação, a diferença e o ódio. E o filme da Sabrina desenha isso”, completa a cineasta.

Acompanhando a trajetória de Fidalgo, o cineasta e pesquisador Joel Zito Araújo celebra o primeiro longa da diretora.

“Da novidade geração, Sabrina é uma cineasta muito original e talentosa e eu espero logo poder ver o filme”, elogia Joel Zito.

 


Rio de Janeiro (RJ), 06/11/2026 – A cineasta Sabrina Fidalgo posa para fotografia em Laranjeiras, na zona sul do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 06/11/2026 – A cineasta Sabrina Fidalgo posa para fotografia em Laranjeiras, na zona sul do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

A cineasta Sabrina Fidalgo posa para retrato em Laranjeiras, na zona sul do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Escritório Brasil

Pesquisa e entrevistas

“O Projeto” foi realizado ao longo de seis anos e visitou sete países.

Concebido durante a pandemia, o filme recorre também à pesquisa histórica para estribar reflexões dos entrevistados sobre o pretérito e o presente e cita uma reportagem da Escritório Brasil, “Racismo afeta saúde desde o promanação até a morte”, porquê secção de sua fundamentação.

A lista de entrevistados inclui a filósofa Djamila Ribeiro, o redactor Anderson França, ativistas porquê Preto Zezé, a arquiteta e urbanista Joice Berth, entre outros artistas e lideranças que propõem formas de resistência.

Do outro lado do  Atlântico, os realizadores se encontram com o historiador suíço Hans Fässler, a artista visual afegã Moshtari Hilal, a jornalista francesa Rokhaya Diallo e o geógrafo de origem tâmil, do Sri Lanka, Sinthujan Varatharajah, por exemplo.

A produção ainda integrou a 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e será exibido, nas próximas semanas, também no 36º Cine Ceará.

 


Brasília (DF), 16/11/2025 - Filme O Projeto. Foto: Gullane/Divulgação
Brasília (DF), 16/11/2025 - Filme O Projeto. Foto: Gullane/Divulgação

 Sabrina Fidalgo e Yvan Rodic em cena do filme “O Projeto”. Foto: Gullane/Divulgação

Inferior, os melhores momento da entrevista com os diretores:

Escritório Brasil: Vocês trazem uma abordagem ensaística para a cena. Qual a razão dessa opção?

Sabrina: Achamos que seria mais potente e interessante, a partir das nossas experiências de vida, recontar essa teoria de projeto colonial. Logo, contamos através das nossas histórias, dos nossos corpos. Foi uma decisão de se aproximar mais [do público] também. Porque, senão [o filme], ia virar um documentário histórico, uma coisa muito quadradinha. O nosso intuito era mostrar a nossa visão em relação aos acontecimentos históricos, no intercepção com nossas vivências. Facilitou a gente entrar na história também.

Escritório Brasil: Quais foram as referências narrativas e fotográficas de vocês nesse trajectória?

Sabrina: Várias referências. A principal, acho que foi a Agnés Varda, uma diretora francesa, principalmente, o Visages, Villages, um dos últimos filmes que ela fez junto com o artista urbano e fotógrafo JR [pseudônimo de Jean René]. Também nos referenciamos no documentário Eu Não Sou Seu Preto [de Raoul Peck], entre outros, mas esses são os principais, porque são ensaios.

Escritório Brasil: Sabrina, porquê foi trazer essa experiência pessoal, de racismo, alguma coisa tão íntimo, resumido naquela performance com o pregador de nariz?

Sabrina: A performance surgiu de uma reparo do Yvan.

Yvan: Ela conta que fazia isso na juventude. Eu achei aquilo uma loucura. Antes de encontrar a Sabrina e saber dessa história, eu aprendi muito com ela, eu fiquei chocado, isso era muito poderoso.

 


Rio de Janeiro (RJ), 06/11/2026 – O fotógrafo Yvan Rodic posa para fotografia em Laranjeiras, na zona sul do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 06/11/2026 – O fotógrafo Yvan Rodic posa para fotografia em Laranjeiras, na zona sul do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

O fotógrafo Yvan Rodic posa para retrato em Laranjeiras, na zona sul do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Escritório Brasil

Sabrina: Quando a gente estava discutindo o roteiro, nós falamos de nossas vivências, e eu fiz essa confidência. Lembrei desse indumentária. [A estratégia mais clássica de embranquecimento] é rasar o cabelo. Mas isso eu não fiz. Mas eu tinha esse lance do pregador, um momento na juventude, depois que uma vizinha veio com esse presciência para eu conseguir apurar o nariz.

Escritório Brasil: Você também confronta a colonialidade com o próprio filme, ao recontar essa história e propor uma discussão entre Brasil e Europa, manifesto?

Sabrina: Olha, são 20 anos de curso. Comecei fazendo curtas na escola. Considero o meu primeiro curta profissional, que entrou no mercado, o Black Berlin, de 2009, que viajou bastante e ganhou prêmios.

Não sei, se eu fosse uma diretora branca, já teria realizado meu primeiro longa. Mas nunca me preocupei com isso, na verdade. Acho que meus outros filmes, médias e curtas, também fazem secção da minha estratégia de curso. O longa é uma coisa muito séria quando você é uma cineasta autoral. Logo, acho que veio tudo na hora certa.

O Projeto era para ser um filme do Yvan. Eu entraria porquê produtora e roteirista. Mas, quando teve os levantes pela morte de George Floyd, conversando, começamos a colocar porquê era, para o Yvan, branco, suíço, europeu, um continente que colonizou o resto do mundo, porquê era esse lugar de branquitude mesmo, de privilégios. O filme começa cá. Só depois decidimos que meu ponto de vista deveria entrar também. 

Yvan:  Quando tivemos aquelas conversas, parecia que estávamos tocando em alguma coisa muito sensível, alguma coisa que fervilhava. Parecia que nossa conexão era um revérbero do que estava acontecendo ao volta do mundo e, por isso, sentimos que precisávamos fazer alguma coisa.

Pelo menos da minha secção — falando porquê um varão branco —, parecia impossível vivenciar leste momento sem tomar uma atitude. Havia um siso de urgência. No início, a teoria era que o projeto fosse mais focado em mim, mas logo percebemos que não faria sentido apresentar unicamente a minha perspectiva.

Seria muito mais interessante — e, na verdade, percebemos isso durante a produção — incluir o próprio processo de geração, que era tão fascinante quanto o filme em si. Por isso, decidimos incorporar esse processo à obra; é por isso que nós dois aparecemos — respondendo, assim, à sua pergunta anterior.

 


Rio de Janeiro (RJ), 06/11/2026 – A cineasta Sabrina Fidalgo e o fotógrafo Yvan Rodic durante entrevista à Agência Brasil, em Laranjeiras, na zona sul do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 06/11/2026 – A cineasta Sabrina Fidalgo e o fotógrafo Yvan Rodic durante entrevista à Agência Brasil, em Laranjeiras, na zona sul do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

A cineasta Sabrina Fidalgo e o fotógrafo Yvan Rodic durante entrevista à Escritório Brasil, em Laranjeiras, na zona sul do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Escritório Brasil

Escritório Brasil: A presença do Yvan parece fundamental para transfixar o diálogo com o público do Setentrião Global. Essa foi a teoria desde o início?

Sabrina: A gente quer chegar ao público branco sim. Principalmente porque as pessoas pretas, o público não-branco, já sabe. Mas as pessoas brancas, no Setentrião Global, não.

Tenho a sensação de que, no Brasil, a conversa sobre racismo e decolonialidade está mais avançada, mesmo que possa evoluir. Na nossa visão, na Europa, dependendo do país, tem décadas de detido na discussão, porquê na França. Logo, a gente sempre pensou, sim, em chegar à Europa.

Yvan: Na Suíça, por exemplo, a discussão sobre a responsabilidade do país no sistema colonial era inexistente no debate público convencional até a pandemia, ou melhor, até 2022. Alguns pesquisadores abordavam o tema, mas, para o grande público, ele simplesmente não existia.

No entanto, nos últimos quatro anos, essa conversa tornou-se mais frequente no debate universal. É evidente que a situação não é a mesma que no Brasil, mas houve, sim, mudança.

Quanto ao nosso público, concordo com a Sabrina, desde o início, tínhamos a consciência de que a minha presença abriria portas. É triste, mas um filme antirracista realizado por uma pessoa negra despertaria muito menos interesse nesse tipo de público branco.

Escritório Brasil: Porquê vocês escolheram os entrevistados?

Sabrina: A Grada Kilomba, que eu conheci em 2019, se não me miragem, foi um ponto de partida. O livro dela traz toda essa questão do traumatismo colonial.

Dali, Yvan trouxe outros nomes mais conhecidos na Europa, pessoas interessantíssimas, porquê o geógrafo Sinthujan, do Sri Lanka [ex-colônia de Portugal, Países Baixos e Reino Unido] e a artista afegã Moshtari Hilal, que vive em Hamburgo. Ali, estão pessoas pelas quais temos surpresa também, que seguimos há qualquer tempo, porquê Anderson França. O testemunho dele é um dos melhores.

Escritório Brasil: O filme contou com patrocínio de canais de televisão. Ele foi pensado para esse formato, pensam em transformar em série?

Sabrina: Ainda não sabemos. Vai depender da recepção. A estreia internacional também só está prevista para o termo do ano, dezembro.

Escritório Brasil: Vocês utilizaram na produção uma reportagem da Escritório Brasil, que é um veículo de mídia do sistema público, no Brasil. Qual a opinião de vocês sobre esse tipo de mídia?

Yvan: Acho a TV pública importante. Principalmente hoje em dia, com a subida das redes sociais, a opinião pública acaba, cada vez mais, sob o controle de um pequeno grupo de pessoas que têm o poder de influenciar o que as outras pensam.

Por isso, acredito que a mídia pública seja um dos últimos mecanismos de proteção das democracias. É alguma coisa importante, absolutamente importante.

Sabrina: Eu cresci assistindo à TVE, e eu ia muito lá também com o meu pai, acompanhá-lo [o pai dela era ator]. Lembro dos programas infantis, da Bia Bedran, do Patati Patatá. Tinha programa de linguagem, gálico e inglês, programas em formato de revista.

Eu tinha 12 ou 13 anos e lembro disso. Cresci vendo TV pública, e a gente viu sua preço quando foi atacada em governos anteriores. É um consolação agora ver a TV Brasil livre. Que tenha autonomia e traga um diferencial em relação às demais emissoras privadas.

 


Rio de Janeiro (RJ), 06/11/2026 – A cineasta Sabrina Fidalgo posa para fotografia em Laranjeiras, na zona sul do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 06/11/2026 – A cineasta Sabrina Fidalgo posa para fotografia em Laranjeiras, na zona sul do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

A cineasta Sabrina Fidalgo posa para retrato em Laranjeiras, na zona sul do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Escritório Brasil

Escritório Brasil: Sabrina, o filme dá perenidade a investigações estéticas anteriores ou inaugura um caminho que você pretende aprofundar?

Sabrina: A minha intenção é ser uma artista livre e eu tenho a minha sofreguidão de falar sobre assuntos amplos, não permanecer presa a nenhum nicho. Eu senhor cultura japonesa e espero, quem sabe, um dia, fazer um filme com essa estética.

Esse filme também é muito importante para mim, por eu poder me colocar no meu lugar, de mulher preta cosmopolita, que fala línguas, que viaja, que circula, que morou fora… Esse lado, não é muito reconhecido e valorizado. 

Fonte EBC

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