A percepção é de que a amarelinha encolheu, porquê aquela roupa que foi para a lavanderia e voltou apertada. Com a eliminação na Despensa do Mundo de 2026, depois da amarga roteiro para a Noruega, a seleção brasileira enfileira o maior jejum de títulos desde que Pelé e companhia espantaram o “multíplice de vira-latas” e mostraram ao mundo que a taça do mundo, enfim, era nossa.
De lá para cá, o maior hiato sem campeonato para o escrete vernáculo havia sido os 24 anos que separaram o tricampeonato, em 1970 —que consagraria o Brasil porquê o primeiro tricampeão, o detentor definitivo da Jules Rimet— e o memorável tetra de 1994, com aquele time montado pelo técnico Carlos Alberto Parreira que tinha no ataque o estrelismo de Romário e Bebeto.
Esses 24 anos sem taça se repetiram neste ano, já que o último capitão brasílico a comemorar o cobiçado título erguendo o troféu foi Cafu, em 2002.
Não deu de novo.
Em 2030, quando a globo rolar em uma novidade Despensa do Mundo, já serão 28 anos sem que o selecionado vernáculo mande bordar uma novidade estrela na camisa.
Enfim, o que explica esse cenário? É uma longa má-fase ou o Brasil perdeu a preeminência no esporte bretão? O véu amarelo não bota mais susto? Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil elencam alguns motivos que ajudam a compreender a questão.
Sem espaço para improviso
Dentre as inúmeras anedotas sem comprovação atribuídas ao craque Garrincha (1933-1983), está uma história supostamente ocorrida na Despensa de 1958 em que, depois a detalhada e preocupada preleção do técnico Vicente Feola (1909-1975) antes do jogo contra a União Soviética, o jogador teria debochado dizendo: “Já combinaram com os russos?”.
Mito ou não, a verdade é que essa narrativa revela um pouco do espírito que acabaria se tornando inerente ao sucesso do futebol brasílico: o improviso. A marca mais luzidio do time vernáculo, enfim, sempre esteve na originalidade, no talento individual —muito mais do que nos esquemas táticos complexos, na disciplina, nas teorias comuns ao futebol europeu.
É porquê se o jeitinho brasílico também tivesse cavo seu espaço no futebol.
Só que o planeta também é uma globo que gira. E esse jogo virou.
“Mudou o mundo, o futebol passou a ser o grande negócio de entretenimento do século 21 e é originário que o jeito de praticá-lo também tenha mudado”, avalia o jornalista e pesquisador Celso Unzelte, comentarista da ESPN, consultor do Museu do Futebol, membro da Ateneu Brasileira de Letras do Futebol e professor na Faculdade Cásper Líbero.
“Essa questão de ver o futebol brasílico porquê potência hegemônica e única no mundo precisa ser revista. Tem um pouco de aura, de romantização nisso”, argumenta o jornalista Anderson Gurgel, professor de jornalismo esportivo na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Para Unzelte, com o futebol mais globalizado, acabou o espaço para o casualidade. “Está mais tático, mais físico. E menos no improviso, que era o possante do Brasil”, afirma. “O improviso com o qual o Brasil surpreendia o mundo tem menos espaço e o Brasil perdeu a preeminência.”
Nesse sentido, não é à toa que, desde a última conquista brasileira, quatro dos cinco títulos tenham sido obtidos por potências europeias —onde estão os clubes com orçamentos quase ilimitados não só para contratar os melhores jogadores e estafes técnicos porquê também para investir em tecnologia, capacitação teórica e medicina esportiva.
“O futebol internacional evoluiu muito. Hoje, somente o talento individual não resolve. As seleções estão mais organizadas, mais físicas e mais preparadas”, afirma o perito em marketing esportivo Marcelo Paganini de Toledo, professor na Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo (ESPM-SP).
Se não há mais espaço para o improviso, ao que parece o Brasil ainda não se encontrou no protótipo contemporâneo. “Há uma crise de protótipo, mas ela não é inédita. Em 1994 havia a discussão se importava mais jogar bonito ou jogar pelo resultado, o futebol pragmático”, recorda Gurgel. “Agora, para lucrar, tem de jogar muito e ter planejamento maior. A lógica é mais complexa do que no pretérito.”
“Essa discussão chega agora: qual é o futebol, porquê o Brasil tem de colocar? Futebol contente, futebol-arte? Ou está na hora de outro futebol?”, completa o professor.
Responsável de inúmeros artigos sobre o futebol brasílico, o sociólogo Rogério Baptistini, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, vê esse endurecimento da ginga esportiva brasileira porquê um processo que se desenvolveu a partir dos anos 1990. “Penso que o fracasso na Despensa daquele ano marcou a viradela no futebol brasílico”, comenta ele, acrescentando que no final daquela dezena “o futebol brasílico deixou, definitivamente, de ser um espaço no qual a alegria e a originalidade popular se expressavam”.
Para o sociólogo, há um fator mercadológico responsável pelo termo do improviso: a profissionalização exacerbada que, deixando o esporte em segundo projecto e o negócio em primeiro, acabou buscando uma eficiência que não podia permanecer refém do casualidade. “O ecossistema que formava craques porquê Leônidas da Silva, Didi, Pelé, Garrincha, Zico e tantos outros a partir das várzeas, praias e clubes de fábricas foi substituído por incubadoras privadas, que moldam o desportista commodity para venda”, analisa ele.
“De certa forma, isso matou a identidade do futebol brasílico, marcada pela técnica e pelo improviso. Jogadores criados em academias privadas, moldados para um negócio globalizado, sob métodos e treinamento padronizados e táticas definidas desde fora, para deleitar o consumidor de entretenimento, sobretudo o europeu, não exprimem a sua origem, senão porquê exotismo.”
Não tem mais truão no futebol
Outro paisagem relevante é que, sim, ficou mais difícil lucrar uma Despensa do Mundo. Não só pelo inchaço do número de participantes —em 1958, quando a seleção brasileira ganhou o primeiro título, eram somente 16 times os que foram para a Suécia; neste ano, 48 seleções entraram na disputa da taça, na maior competição do tipo já realizada. Mas também pela subida qualidade técnica de muitos selecionados antes vistos porquê azarões.
“Mudou completamente. É outra Despensa, com outras regras e muito mais time. Times que não eram muito competitivos mas começam a despontar e encantar o mundo”, salienta Gurgel.
“O futebol se globalizou, os métodos de treinamento evoluíram e hoje praticamente todas as grandes seleções contam com atletas que jogam nas principais ligas do mundo. A vantagem técnica que o Brasil tinha diminuiu muito”, avalia Toledo.
O Japão é um exemplo. Os Estados Unidos também. São locais onde até pouco tempo o futebol era um esporte sem valia —mas, nos últimos anos, seja porque o negócio em si é imensamente lucrativo, seja porque a globalização faz com que seus maiores craques joguem em ligas tradicionais europeias, assim porquê os brasileiros, esses times chegaram a um patamar técnico eficiente e competitivo.
“Evidente que um país com cinco títulos sempre entra porquê predilecto e existe uma cobrança enorme. Mas hoje vencer uma Despensa é muito mais difícil do que era décadas detrás”, argumenta Toledo.
“As seleções estão mais equilibradas, existe muito mais investimento, ciência do esporte, tecnologia e estudo de desempenho”, acrescenta o professor. “Ou por outra, os principais jogadores do mundo se enfrentam durante toda a temporada nos clubes europeus. A intervalo entre as seleções diminuiu bastante.”
“Tem mais seleções competitivas e os conceitos táticos se espalharam entre as seleções do mundo”, avalia o jornalista Rodrigo Capuz, responsável do livro “O Futebol Porquê Ele É” e especializado em negócios do esporte.
Falta de identificação
Oriente problema não é privilégio brasílico. Antes de finalmente se sagrar vencedor em uma Despensa do Mundo, em 2022, o próprio Lionel Messi, incontestavelmente um dos maiores craques da história do futebol mundial, era objectivo de comentários críticos, sobretudo feito por torcedores argentinos, que alegavam o roupa de o camisa 10 nunca ter jogado tão muito na seleção quanto jogava em seu clube, na quadra o Barcelona, da Espanha.
“Futebol é jogo de equipe e as seleções jogam muito menos do que os clubes”, pontua Unzelte. “O Raphinha, por exemplo, joga muito mais com seus companheiros de Barcelona do que com os da seleção brasileira. É originário que não haja conjunto.”
“O desempenho de um desportista depende muito do contexto. No clube, ele treina praticamente todos os dias, conhece o protótipo de jogo, os companheiros e a cultura da equipe, já na seleção, o tempo de preparação é muito pequeno”, lembra Toledo.
“Ou por outra, muitos desses jogadores são protagonistas em seus clubes, mas precisam dividir esse protagonismo na seleção. Fabricar uma equipe vencedora é muito dissemelhante de reunir grandes jogadores. Futebol continua sendo um esporte coletivo, e nem sempre a soma dos melhores talentos resulta no melhor time.”
Oriente fenômeno tem sua raiz no roupa em uma mudança de protótipo do mercado de transferências. Os grandes clubes do planeta contratam os mais brilhantes jogadores quando estes ainda são extremamente jovens. Eles acabam construindo suas carreiras em um modo de jogo que não tem zero a ver com o estilo da seleção que defendem.
“Nossos jogadores vão embora mais cedo, ainda meninos, para jogar no exterior. O foco do futebol deixou de ser as seleções nacionais e agora são os clubes. Clubes poderosos contratam os melhores jogadores e hoje são mais fortes do que as seleções, são verdadeiras seleções multinacionais”, comenta Unzelte.
Isso também tem o desdobramento prático: cada vez menos os torcedores sentem uma conexão com esses jogadores. “Perdemos secção da nossa identidade. Durante muito tempo o mundo sabia exatamente o que esperar da seleção brasileira”, diz Toledo.
Capuz acredita que a grande mudança, o “ponto-chave” para entender o cenário seja a mudança do mercado de transferências. “Antes, os jogadores brasileiros ficavam em seus clubes até os 22, 23, 24 anos e, em oferecido momento, eram comprados pelos principais clubes da Europa para jogar lá”, compara.
Na última dezena, todavia, o paradigma se tornou outro. “Perceberam que comprar jogador pronto ficava custoso e ele vinha sem a metodologia de treinamento que se pretendia”, comenta Capuz. “Passou-se a comprar jogador muito cedo, com 17 anos, para que se apresentasse tão logo fizesse 18.”
Foi o caso do Vini Jr. O atacante não tinha nem completado 17 anos quando o Flamengo o negociou com o Real Madrid pela espantosa zero de 45 milhões de euros. Em 2018, quando completou 18, o craque se apresentou ao time espanhol. O resto é história e glorificação.
“Ele virou exemplo de porquê os europeus passaram a olhar para o jogador brasílico”, diz Capuz. “Com isso, os grandes talentos saem muito cedo e, nesse processo, a gente foi se distanciando da seleção brasileira.”
“Ele já nem ganha uma identidade de jogador brasílico”, diz Gurgel. Porquê é transferido ainda em período de formação, segundo o jornalista, o desportista acaba “incutindo valores” que não são próprios do futebol canarinho. “Cada vez menos há identificação”, salienta.
Até portanto, mesmo com uma seleção formada majoritariamente por nomes que jogavam no exterior, porquê era a pentacampeã de 2002, havia uma memória afetiva porque aqueles craques que atuavam na Europa haviam marcado quadra em seus clubes nacionais. Por exemplo, o Cafu, com passagens vitoriosas pelo São Paulo e pelo Palmeiras. E o Roberto Carlos, que também havia brilhado no Palmeiras. “O brasílico deixou de saber os atletas da seleção”, diz Capuz.
Há ainda um fator correlato nessa questão, que explica porque um Messi ou um Raphinha pareçam mais aguerridos e talentosos nos clubes do que na seleção: a pouca sinergia. “Nos clubes europeus, esses jogadores atuam em ambientes muito estruturados, treinam diariamente com os mesmos companheiros e têm funções muito definidas. Na seleção, o tempo é pequeno, há mudanças constantes e, muitas vezes, eles precisam treinar papéis diferentes”, aponta Toledo.
“O duelo é edificar uma identidade clara de jogo, dar perpetuidade ao trabalho e fazer com que o coletivo potencialize os talentos individuais”, diagnostica o perito.
O jogo virou
É difícil fincar um momento específico porquê o turning point que fez com que a seleção brasileira perdesse a imagem de imbatível. Numericamente falando, a questão nem é tão catastrófica assim: no famoso ranking Fifa, que a entidade máxima do futebol começou a propalar em 1993 com a seleção brasileira ponteando —posição ocupada assim por anos—, o time vernáculo estava na 6ª posição na véspera do início dos jogos deste ano. Zero mal, oferecido o longo jejum.
Há quem diga que a viradela de jogo tenha ocorrido com a tragédia do Sarriá, a queda da seleção de Zico e companhia frente ao time italiano na Despensa de 1982. De lá para cá veio o tetra e o penta, é verdade. Mas ficou o recado de que era preciso jogar pelo resultado e não pela arte do esporte, pela venustidade de cada lance.
“Há momentos brilhantes nas conquistas, mas também momentos trágicos porquê o Maracanaço [quando o Brasil perdeu para o Uruguai e ficou com o vice em 1950] e Sarriá”, cita Gurgel. “Foram momentos que marcaram o termo de uma visão romântica e ingênua de que somente um futebol bonito iria resolver tudo.”
Na memória recente, todavia, a memória que ecoa é a dos 7 a 1, a vexatória roteiro para a Alemanha na semifinal da Despensa de 2014. Um incidente impossível de olvidar. “O 7 a 1 foi um marco simbólico, mas ele foi muito mais uma consequência desse processo do que a sua razão”, comenta Toledo.
“Temos uma percepção de fracasso porque faz tempo desde o último título. Mas a seleção brasileira é competitiva”, acredita Capuz. “Não tem os mesmos craques que tinha em 2002, mas traz resultados.”
Ele acha que a questão revela um jeito meio arrogante com que o brasílico olha para o futebol. “Achamos que perder para uma Croácia ou uma Bélgica é vergonhoso. Vergonha mesmo foi o 7 a 1 contra a Alemanha, isso não fazia secção de um roteiro suportável.”
“A percepção de uma má período do Brasil tem a ver com a nossa arrogância de descobrir que a gente é o país do futebol e tem de lucrar tudo o tempo todo. Não é logo que se analisa o futebol tecnicamente”, afirma Capuz.
Gurgel afirma que há “uma narrativa muito típica” da prelo esportiva brasileira que sedimenta a imagem “da seleção brasileira” de forma “dramática, barroca, intensa”. “Ora muito ufanista, ora muito pessimista”, explica. Depois da eliminação, portanto, vem o pessimismo.
Mais entretenimento, menos esporte
Para especialistas, todavia, vale agora usar a camisa amarela para enxugar as lágrimas porque a roteiro não significa o termo da traço. No atual cenário, enfim, o futebol é entendido pelo mercado muito mais porquê entretenimento do que porquê esporte. “Ainda que haja uma crise em campo a gente não percebe uma crise nos negócios. Porque futebol é essa potência para engajar”, afirma Gurgel.
O professor ressalta que no contexto atual há um distanciamento entre esporte e espetáculo —isso foi objecto de seu estudo de doutorado, inclusive. “Logo vemos que a crise que se percebe em campo não se reflete nos negócios”, analisa. “O negócio vai ficando mais bilionário, com mais quantia envolvido.”
“O impacto direto é nos negócios da CBF. Ela depende do sucesso da seleção para vender patrocínio, direitos de transmissão e mesmo para ter boas bilheterias dos jogos”, diz Capuz. “Quanto maior o edital da seleção brasileira, mas ela rende [aos cofres da instituição].”
Só que se o futebol é uma caixinha de surpresas, o mercado do esporte está mais para um cofrinho muito parrudo. “Mesmo com essa suposta má período, esse derrotismo todo, a CBF nunca faturou tanto”, diz Capuz.
Parece que nas finanças a seleção brasileira tem cadeira-cativa.
“A seleção brasileira continua sendo uma das marcas esportivas mais valiosas do mundo, mas resultados fazem diferença”, reconhece Toledo. “Quando o time vence, cresce o interesse do público, aumentam as audiências, o engajamento nas redes sociais, a venda de produtos licenciados e o retorno para patrocinadores.”
Mas não deixa de ser um cartão amarelo. “Eliminações frequentes reduzem esse excitação. O torcedor continua enamorado pelo futebol, mas passa a se conectar mais com os clubes e com seus ídolos do que com a seleção”, acredita o perito Toledo.
Evidentemente que logo ali está a volta do Brasileirão e aquele espírito de que, para o fã do esporte, tudo será com o antes —o hexa deixa de importar. “Para o dia a dia do futebol, não lucrar a Despensa não influencia tanto. É um tema que aparece a cada quatro anos. O futebol no Brasil acontece todo domingo, toda quarta-feira”, acredita Unzelte. “Acaba a Despensa e voltamos ao mercado interno, com o marketing esportivo e os negócios do futebol brasílico.”
Com o sabor da roteiro a incomodar os pensamentos, fica a reflexão sobre os paralelos entre futebol e sociedade, posto que o Brasil é sabido porquê a pátria em chuteiras. “A seleção já foi o símbolo do que poderíamos ser, mas hoje é a frase das mazelas da mercantilização de todos os aspectos da vida”, reflete o sociólogo Baptistini. “Só há interesses de pequeno prazo. Não há planejamento para o horizonte, nem visão coletiva. Vivemos na sujeição da exploração dos talentos e dos esforços individuais.”
“Um negócio que forma para vender nos aproxima do pretérito agroexportador, mas agora, além das commodities tradicionais, em nossa taxa entra gente que sonha enriquecer correndo detrás da globo”, acrescenta ele. “Morre o futebol da universal do Maracanã e dos pretos e mestiços de pés descalços. Morre a país.”





