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O Sorveteiro: Filmes 'gore' divertem com violência absurda 06/09/2026
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O Sorveteiro: Filmes ‘gore’ divertem com violência absurda – 06/09/2026 – Ilustrada

Crianças brincam no recreio. Elas jogam cabeças, pulam corda com tripas humanas e deitam em poças de sangue. Em “O Sorveteiro”, já nos cinemas, quem consome os sorvetes do personagem-título entra em um transe psicótico e comete assassinatos em tamanho.

Lançado em agosto nos Estados Unidos, o filme de Eli Roth foi detonado pelo uso da violência extrema e da lucidez sintético —ele afirma que a tecnologia o ajudou a contornar o ordinário orçamento, já que estúdios renomados recusaram o projeto.

Não é a primeira vez que o diretor de “O Albergue” flerta com o excesso —em 2023, ele uniu horror e humor em “Feriado Sangrento”. No longa, um “slasher” sobre um celerado mascarado, ele ri do consumismo ao tornar uma Black Friday num massacre generalizado.

Há quem diga que longas do tipo se resumem ao sangue gratuito. Outros os veem porquê uma maneira de rever o que é considerado admissível. Para Roth, a teoria é divertir a plateia com o sem razão, mesmo quando as risadas são involuntárias.

Filmes porquê “O Sorveteiro” existem há décadas, mas eles têm ganhado espaço nos últimos tempos. Embora o trote ande de mãos dadas com títulos independentes —o palhaço de “Terrifier”, por exemplo, arrecadou dezenas de vezes o orçamento dos três filmes da saga—, a estratégia tem conseguido prêmios e grandes estúdios.

Em 2024, as transformações corporais de “A Substância” arrancaram gargalhadas, e o filme chegou ao Oscar por debater o etarismo e pressões estéticas. Um ano depois, a Warner fez o público morrer de rir com o termo de “A Hora do Mal”, apesar do tom sombrio da trama.

Na cena, a feitiçeira Gladys é perseguida por crianças. Elas quebram janelas, invadem casas e fazem de tudo para desmembrar o seu corpo. Depois viralizar, a sequência inspirou a esquete de buraco do último Oscar.

Outra safra que segue divertindo é a dos animais mortais —recentemente, os ataques vieram de macacos, aranhas e até de um bicho-preguiça. Ainda que histórias absurdas cruzem linhas tênues, cabe diferenciar esses filmes do “terrir”, subgênero que parodia códigos do terror e costuma ser mais sossegado.

Longe da franquia “Todo Mundo em Pânico”, o pesquisador Carlos Primati cita Ivan Cardoso, que ironizou clichês de monstros porquê a Múmia com a rebeldia do cinema marginal. São filmes que se diferenciam, explica Primati, dos de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, que encarava dilemas existenciais em um Brasil ditatorial. Ainda assim, os visuais amadores e os exageros do personagem tiram várias risadas.

Em casos grotescos, diz o cineasta Steven Kostanski, o riso surge porquê uma resguardo contra o choque. Já para Wheeler Winston Dixon, professor emérito da Universidade de Nebraska–Lincoln que estudou a história do horror e a comédia sombria do cinema de 1960, quem ri dessas cenas “morreu por dentro”. Ele cita as críticas sociais de “A Substância” e coloca o filme entre os poucos de terror que o agradaram nos últimos anos.

Kostanski, por sua vez, afirma que nem tudo precisa oferecer lições de moral. “Não sinto prazer com a dor alheia. Só estou rindo da insanidade das cenas”, adiciona ele, profissional em efeitos “gore”, que mostram órgãos expostos e outros elementos explícitos. Suas obras emulam longas infantojuvenis da dezena de 1980, mas põem a inocência desses títulos e a violência em rota de colisão.

Em “Manborg”, por exemplo, um soldado enfrenta demônios em lutas dignas do game “Mortal Kombat”. Já “Goreman” segue um estrangeiro sociopata, forçado a obedecer a uma moçoila de oito anos. “Buddy”, longa de Casper Kelly recém-lançado no giro americano, explora um contraste parecido —nele, o mascote de um programa distribui machadadas entre a pequenada.

“O terror é um enorme guarda-chuva. Quando é cômico, pensa a violência de forma caricata. Em registros mais dramáticos, oferece cenas difíceis de se processar”, afirma Paulo Biscaia, que trabalha o horror nos palcos e nas telas. “De um jeito ou de outro, o gênero estabelece um pacto com quem vê —’estamos num mundo lúdrico, cuja violência extrema integra a trama.’”

Fundador da produtora Vigor Mortis, ele joga sangue falso sobre espectadores e já levou peças para um necrotério. Em seus filmes, a devastação de corpos se inspira em HQs. Em uma das obras mais famosas, “Necrotério Story: Sangue, Baiacu e Quadrinhos”, que surgiu no teatro e virou um longa, uma cartunista e um vendedor de seguros entram na mira de um médico legista.

Ele diz que o público atual se habituou a essas cenas, já que a violência é manchete diária. A lógica se aproxima da que provocou o declínio do Grand Guignol, teatro gaulês que encenava histórias violentas.

Em seu auge, nos anos 1920 e 1930, era festejado pelo naturalismo das peças, que chocavam turistas com barbaridades convincentes. Na Segunda Guerra, porém, as cenas perderam impacto, incapazes de competir com o horror cotidiano.

O Grand Guignol fechou em 1962, e coube ao cinema continuar essas tramas. Na mesma dezena, longas porquê o gaulês “Os Olhos Sem Rosto”, em que um cirurgião refaz o rosto da filha com peles de mulheres alheias, e “Festim de Sangue”, fenômeno em drive-ins americanos, mostraram que a violência servia também a dramas psicológicos e filmes pipoca.

Com o tempo, diretores porquê Roger Corman e Dario Argento tornaram histórias de assassinos em transes lisérgicos, com imagens estilizadas, e abriram espaço para as mortes surreais, algumas mais cômicas do que outras, que seriam exploradas pela produtora independente Troma e por diretores porquê Tobe Hooper.

O último, aliás, se frustrou com a repercussão de seu “O Massacre da Serra Elétrica”, clássico de 1974 que é festejado pela trama sombria em que jovens entram na mira de canibais. Segundo ele, poucos captaram o humor ácido do longa, tido por fãs porquê uma sátira aos Estados Unidos da quadra.

Doze anos depois, ele lançou uma sequência escrachada, em que os antagonistas comandam uma marca de chili e o patriotismo de Reagan vira piada. No mesmo período, nomes porquê Sam Raimi, de “A Morte do Demônio”, e Peter Jackson, de “O Senhor dos Anéis”, se consolidaram com sangue e diversão — em “Rafa Bicho”, terceiro longa de Jackson, um jovem acolhe um bebê zumbi durante uma epidemia.

“O terror é um dos gêneros que melhor realça a originalidade e a habilidade humana”, diz Kapel Furman. Em agosto, ele exibiu “Remanente – Voltagem” no Festival de Gramado. O longa em que paramédicos acordam um espírito maligno ampliou a pequena lista de filmes de terror já exibidos no evento.

Para Marcelo Miranda, pesquisador e curador do festival fantástico Djanho, sucessos porquê “Hereditário” e “Preocupação” explicam a aproximação entre o público e o grotesco. “O terror passou a dialogar com pessoas não habituadas ao gênero. Elas são atraídas por questões porquê luto, vingança e repressão e encontram a violência gráfica. Não é que essas cenas se multiplicaram.”

Ele reforça o horror porquê um gênero de fortes reações físicas, sujeitas à individualidade. “Não é verosímil associar uma obra a um gênero só pelas reações. Um gênero cinematográfico é definido por códigos que se repetem, não pelas sensações que provoca.”

Sobre discussões morais levantadas por filmes porquê “O Sorveteiro”, Miranda ainda diz que o “true violação” dificulta a leitura de obras puramente fictícias. “A violência só é admissível na ficção. Não vemos pessoas sendo realmente destruídas. São autores criando cenas insólitas e desconfortáveis. Não creio em limites da ficção, mas em limites da geração. Cada instituidor firma seus limites, carteira suas ideias e deve ter em mente a repercussão que pode promover.”

Proprietário da Witchcraft, que produz longas de terror e documentários criminais, Rod Blackhurst diz que penou para lançar “Dolly”, que chegou ao Brasil em maio e ficou pouco tempo em papeleta. Na trama, uma mulher é sequestrada por um ser mascarado, e juntos vivem uma dinâmica doentia de mãe e filha.

Entre orelhas arrancadas e outros ataques, o diretor descreve sessões com gargalhadas, mormente nas cenas em que a vítima imita um bebê para sobreviver. Ele compara o filme com títulos de “true violação” que lançou no streaming.

“Dolly é uma figura extrema, que só conhece a dor. A violência do filme é justificada pelas ações e reações dos personagens”, explica. “Tragédias reais me deixam mais desconfortável do que a violência fictícia. Nunca entendi o argumento de que filmes e jogos violentos podem levar alguém a ser violento.”

Blackhurst e o diretor Steve Kostanski citam filmes de “torture porn”, em que a tortura de personagens é o núcleo da trama, porquê obras que não querem reproduzir. Eles citam o sérvio “Terror Sem Limites”, em que um ator pornô investe em cenas de pedofilia e necrofilia, e há quem atribua o termo às obras de Eli Roth.

Outra sátira recorrente a filmes violentos é o estigma contra corpos femininos. No livro “Men, Women, and Chain Saws”, Carol J. Clover diz que mortes femininas costumam ser mais detalhadas que as masculinas. A estudiosa e diretora Xanthe Pajarillo reforça a teoria. “Mulheres são submetidas a mais traumas nesses filmes. Não precisamos parar de exibir essa violência —tudo depende de porquê ela é retratada”.

Folha

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