Ocean Vuong: Sonho americano é uma alucinação para pobres

Ocean Vuong: Sonho americano é uma alucinação para pobres – 14/11/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Da sua vivenda na região de New England, nos Estados Unidos, Ocean Vuong conta que o clima começou a esfriar, e as folhas no soalho mostram que o outono chegou. É a sua temporada favorita. “Estamos nos preparando para o Dia de Ação de Graças, é uma era aconchegante, vejo porquê a estação do repórter”, diz por telefone.

A rotina caseira vem a calhar. Desde maio, o responsável vietnamita-americano rodou o país e a Europa para publicar seu quarto livro, “O Imperador da Felicidade”. Por cá, a tradução de Rogério Galindo acaba de transpor pela Rocco.

Vuong foi reconhecido pela sátira —recebeu a “bolsa para gênios” da Instalação MacArthur— e adoptado pela cultura pop. O novo romance entrou no clube do livro da apresentadora Oprah Winfrey e ele já deu duas entrevistas para a cantora Björk.

O livro acompanha o garoto Hai, de 19 anos, do outono à primavera. Prestes a cometer suicídio, ele é dissuadido por Grazina, uma mulher lituana octogenária com demência. Esquecidos pelas famílias e pela sociedade, eles se tornam amigos e dividem intimidades ao morarem no mesmo espaço.

Se não fosse fruto de vietnamitas, será que Hai aceitaria a proposta de cuidar de Grazina? “As pessoas acham essa história exótica, mas o desvelo intergeracional é geral em famílias asiáticas. Sem essa bagagem cultural, talvez ele tivesse vergonha, mas não sou branco, logo não consigo imaginar esse cenário.”

O trabalho absorve as ideias apresentadas no seu primeiro romance, o premiado “Sobre a Terreno Somos Belos por um Momento”, de 2019. Levando a regularidade da verso à prosa, a obra foi traduzida para 40 idiomas. “Fico surpreso com porquê foi muito recebido. É um livro estranho, esotérico.”

Há ecos entre as duas histórias, já que ambas bebem da vida do repórter de 37 anos, um simpatizante de Clarice Lispector —”a rainha da estranheza”— que estreou com a coletânea de poemas “Firmamento Noturno Crivado de Balas”, editada pela Âyiné.

Nascido em Saigon, Vuong cresceu no estado americano de Connecticut e, assim porquê Hai, também se viu em becos sem saída, lidou com o insulto de drogas e trabalhou em redes de fast food.

Nesse período, testemunhou colegas escolherem entre a criminalidade e o salário mínimo. E esteve muito perto disso. “Um camarada me convidou para vender drogas, e eu fui. Enquanto estava no sege, percebi porquê estava nervoso e não ia conseguir fazer aquilo, mas esse caminho fazia sentido para muita gente”, lembra o responsável.

O desfecho geral, porquê a overdose ou a ergástulo, poderia ter sido o seu. Ao jornal The New York Times, ele revisitou o dia em que foi detrás de uma arma para matar um traficante que roubou sua bicicleta. “Desde cedo, percebi que o sonho americano de prosperidade era uma alucinação para os trabalhadores pobres”, reflete.

O uso de drogas funciona porquê válvula de escape da veras, mas o humor também pode ser medicamento. “As mulheres da minha família contavam histórias traumáticas sobre o pretérito e o ar ficava tão denso que elas riam. Era um jeito de entender porquê a violência era absurda”, lembra.

Cada um usa as armas que tem. Ainda que a vida seja dura e os personagens sejam pobres, eles podem se amparar uns nos outros. ‘A maioria das pessoas é frágil e medrosa”, diz o protagonista. “Basta conversar com alguém por mais de meia hora para perceber que tudo o que essa pessoa faz é uma farsa para evitar que ela desmorone”.

Para os anti-heróis do livro, a falência do Estado e os sintomas do capitalismo são sentidos na pele —essas pessoas não têm reviravoltas ou ascendem de classe. Dia em seguida dia, batem ponto no trabalho e tentam não sucumbir.

Os dois últimos livros de Vuong têm um quê de romance de formação, com protagonistas recém-saídos da juventude que não se sentem em vivenda no seu país. “Somente os poderosos e bem-sucedidos têm suas juventudes celebradas, as pessoas nas margens não recebem o mesmo tratamento. Quis redigir um contraponto a isso.”

Na sua visão, a teoria de que escritores gerem ideias totalmente novas, sem ingerir da própria vida, é um “fetiche ocidental”. “A literatura de Frederick Douglass e Harriet Jacobs usa a autoficção porquê uma forma de reclamar sua narrativa. Herman Melville, Sylvia Plath, J.D. Salinger —são todos autobiográficos.”

“Meus personagens nunca fariam um pouco que eu mesmo não considerei fazer. A venustidade da ficção é gerar experimentos e simulações, ver personagens em situações que eu nunca vou viver. Tenho exclusivamente um rascunho da minha vida, mas eles podem ter 15 versões.”

O livro levou quatro anos para ser concluído. O rascunho foi feito à mão, depois editado nas máquinas de redigir Smith-Corona e Olivetti Lettera 32 e, por término, chegou ao computador. “Percebi que tenho simpatia por Deus, porque eu olhava para todos aqueles personagens e tentava movê-los da melhor forma”, brinca.

Na última dez, Vuong intercalou verso e prosa. Agora, em paralelo à curso de professor na Universidade de Novidade York —que diz ser sua real vocação—, prepara um fotolivro. “Não tenho fidelidade a um gênero. Sou um noviço das palavras.”

Gosta de se definir porquê poeta na etimologia grega, por se ver porquê um instituidor, mas quer se reinventar a todo projeto.

“Quando você publica um livro, há muita conversa em torno dele, e as coisas ficam rígidas. Adoro a teoria de ser estúpido. Não quero ser perito, porque é mal a originalidade morre. Quero me maravilhar com as coisas mais simples.”

Folha

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