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Oficina discute violência contra a mulher com '7 Gatinhos'
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Oficina discute violência contra a mulher com ‘7 Gatinhos’ – 05/07/2026 – Ilustrada

Nelson Rodrigues (1912-1980) ganhou um dos seus primeiros prêmios ainda aos oito anos, durante um concurso de redação na escola. O texto, que não pôde ser lido em voz subida para os colegas, narrava um caso de traição que culminava na morte da mulher adúltera, conforme conta Ruy Castro, na biografia “Criancinha Pornográfico”.

Ao longo dos anos, esse tema, assim porquê outras formas de violência contra mulheres, se tornaria recorrente em suas obras —antes da Lei Maria da Penha, da geração do termo feminicídio e de a tese da “legítima resguardo da honra” deixar de ser aceita.

Em 1958, Nelson escreveu a peça “7 Gatinhos”, que retrata um patriarcado fragilizado, mantido por aparências. Prostituição e diversas violências comandadas por um pai de família compõem as cenas.

Mais de seis décadas depois, o coletivo Viradas da Encruza, constituído por artistas do Teatro Oficina Uzyna Uzona, majoritariamente jovens, optou por inserir uma sequência de notícias recentes de feminicídio e estupro, deslocando a montagem para o presente.

No final do segundo ato da peça, a iluminação adquire um tom indiferente e sons estridentes tomam o espaço projetado por Lina Bo Bardi, no bairro do Bixiga. Os atores se contorcem, correm e gritam enquanto as telas exibem as manchetes.

A cena foi incluída na reestreia, em 20 de junho, sendo o único improviso em toda a encenação.

A soma mostra o contexto que não está explícito nas falas dos personagens, explica a diretora Joana Medeiros, também tradutor do patriarca Noronha.

“Quer expor: olha o que está por debaixo do tecido, porquê os nossos corpos não aguentam isso. Olha porquê, na hora que alguém vai pegar no meu corpo, eu grito, fujo”, diz Medeiros. “Olha porquê as televisões em qualquer panificação estão mostrando as coisas e eu finjo que não vejo, mas por dentro sei.”

Desde a estreia da montagem no Oficina, em 24 de dezembro de 2024, estima-se que, em média, 187 mulheres tenham sido estupradas por dia. Murado de quatro foram vítimas de feminicídio, segundo dados do Planta Vernáculo da Violência de Gênero.

Na peça, porém, quem morre em maioria são os homens. Foi a partir daí que a diretora Joana Medeiros viu um tema de revanche feminina no texto de Nelson, apesar das identificações do jornalista com posições políticas conservadoras e de suas críticas ao feminismo de logo.

As mulheres não são santas, diz Medeiros —nem na peça, nem na vida— mas também são vítimas.

Quando o coletivo entrou em contato com o texto pela primeira vez, identificou-se imediatamente. “Parece que estava na nossa boca. Falamos: É muito atual. Que loucura! É de agora para agora”, diz Medeiros.

Essa leitura não é casual, segundo o crítico literário Luís Augusto Fischer. Professor e estudioso da obra de Nelson Rodrigues, ele entende que o responsável escreveu teorias sobre a sociedade brasileira.

Nelas, retratava incessantemente o patriarcado e suas contradições, afirma, mesmo que não fizesse uma denúncia: “Para ele, [o patriarcado] era porquê o Sol, simplesmente existe”, diz Fischer sobre o jornalista.

A antropóloga e professora do Museu Vernáculo Adriana Facina afirma que Nelson narrava o extenuação do patriarcado —concepção usado por Gilberto Freyre para explicar o país— frente à modernidade.

“Ele revê essa teoria e vê que esse pai de família não existe mais. Existe enquanto uma representação e não tem mais eficiência”, afirma a autora do livro “Santos e Canalhas: uma Estudo Antropológica da Obra de Nelson Rodrigues”, da editora Cultura Brasileira.

Ao mesmo tempo, diz Facina, o jornalista mostrava porquê os homens reagiam com violência a essa ruinoso. “Na reação, esse sistema fica cada vez mais perverso.”

Para ela, a possibilidade de a peça relacionar o texto a questões atuais mostra uma perpetuidade histórica.

“A gente tem uma evolução importante das leis, mas mulheres continuam morrendo, ganhando menos que o varão, sofrendo mais violência porquê estupro. O dedo na ferida continua lá.”

No processo de preparação para a peça, os atores compartilharam seus próprios traumas em relação a terem sido abusados e também abusadores.

Essa é uma forma de socializar as violências, diz Bianca Terraza, que interpreta Arlete. “Quando a gente fez esse movimento de compartilhar, virou uma responsabilidade coletiva. Quando a gente fala, consegue resolver. Consegue olhar para o outro e falar: e agora, o que a gente faz?”

Esse é o movimento que eles tentam passar para a plateia. “Quando a gente pega essa dor e pincela nossa ruinoso pessoal, depois corre pelas galerias, o público, que já estava inserido, não tem mais porquê fugir. De repente, é parceiro da ruinoso”, diz Ana Clara Cantanhede, que faz a personagem Hilda.

Dissemelhante do final do filme “7 Gatinhos”, de Neville d’Almeida, de 1980, que termina com as mulheres em um bordel dentro da lar, na peça do Oficina, as mulheres saem do teatro. Unicamente uma fica em cena, encarando o varão morto.

As portas fecham e quem fica dentro da lar com o patriarcado ruindo é o público.

“Não é meu, não é dela, é da gente, é um problema social. A gente diz: Você vai trespassar daqui? Você vai fazer o quê? Porque isso também é seu”, diz Terraza.

Folha

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