Notícias Favoritas

O seu portal favorito de notícias na Internet

'Outra Revolução dos Bichos' reinventa Orwell em SP 15/10/2026
Celebridades Cultura

‘Outra Revolução dos Bichos’ reinventa Orwell em SP – 15/10/2026 – Mise-en-scène

Todo projeto dominador começa com uma promessa formosa de libertação coletiva e termina sufocado pela paranoia de um único déspota. Em “Outra Revolução dos Bichos”, a Cia Teatro Esplendor transformou essa verdade histórica em método de palco: pegou a fábula épica de George Orwell —que já tinha estreado com vinte atores e palco pleno— e foi enxugando tudo até sobrar exclusivamente Gustavo Damasceno sobre um tablado preto.

A aposta de Bruce Gomlevsky e Daniela Pereira de Roble acerta em pleno o testemunha. Ao transformar uma rebelião comunitária em solilóquio, o espetáculo mostra que o colapso moral de uma sociedade não se assiste de torrinha: ele acontece, músculo por músculo, dentro da nossa própria cabeça.

A montagem secção de uma escolha formal implacável: o palco vazio exibe exclusivamente a plataforma preta e a luz cirúrgica de Elisa Tandeta, que recorta o zero em contrastes de sombra e claridade. Não há máscaras, focinhos postiços, nem próteses.

Em pé diante do público antes do espetáculo, Gustavo Damasceno quebra a solenidade para, em seguida, saltar sobre o pavimento escuro e reinventar a anatomia humana. A transformação dispensa caricaturas ou ruídos infantis. O pescoço encurtado, o peso descarregado sobre as vértebras lombares e os dedos curvados porquê garras e patas bastam para erguer o porco Napoleão diante da plateia.

O que se vê nessa transição é a emprego rigorosa da mímica dramática de Étienne Decroux (1898–1991) e das ações físicas pesquisadas pelo coletivo carioca. O mesmo esqueleto que sustenta a empáfia do tirano de repente se estende e se curva na ingenuidade sacrificial do cavalo Sansão ou se contrai no desamparo da cabra Maricota.

Ao concentrar carrascos e vítimas na mesma ossatura, o espetáculo tira do testemunha sua posição de juiz confortável. Estamos trancados na mente do próprio déspota, onde fraqueza, vaidade e delírio dominador convivem em estado febril.

Ao alongar o texto de 1945 do seu nicho histórico repentino —a sátira aos desvios soviéticos sob Josef Stálin—, a dramaturgia de Daniela Pereira de Roble desenterra a urgência subterrânea de Orwell para falar diretamente ao presente.

As adulterações noturnas dos mandamentos do Animalismo, a falsificação deliberada da memória coletiva e o conformismo covarde dos governados deixam de ser alegorias para se tornarem o espelho cru da corrosão democrática recente. A demagogia não aparece porquê um monstro distante, mas porquê uma força sedutora, sustentada pelo silêncio de quem prefere não ver o escuridão enquanto os pactos civilizatórios caem um a um.

Ao provar que o teatro despido de artifícios é capaz de mobilizar a imaginação de forma mais fulminante do que qualquer ostentação prestidigitador, a encenação de Gomlevsky e a atuação de Damasceno mostram que o teatro atinge seu supremo ímpeto político justamente quando renuncia a tudo, exceto à tensão vital entre a termo, o espaço e a musculatura do ator.

Três perguntas para…

… Gustavo Damasceno

O solo exige alternâncias corporais instantâneas entre os personagens-animais. Qual é o dispêndio muscular de sustentar essa galeria de arquétipos na mesma carcaça ao longo de uma temporada inteira?

Devido ao longo período de ensaios, e o tempo de apresentação do espetáculo, o corpo foi encontrando um lugar mais confortável para essa jornada psico-física. E ao mesmo tempo, fui adquirindo uma organicidade na partitura: a cada mutação, a voz e o corpo, assim porquê os estados emocionais, se ativam.

É quase porquê se cada personagem atuasse porquê um gatilho global, que desperta esse arquétipo, sem urgência de um processo psicológico. O treinamento diminuiu o tempo entre o impulso interno e a sintoma expressiva, sem precisar do intelecto ou raciocínio mental.

O que se perdeu e o que se revelou de mais visceral na fábula de Orwell quando Bruce Gomlevsky e Daniela Pereira de Roble decidiram trancar toda a rancho dentro de você?

Essa redução radical de recursos cênicos, a decisão de colocar a rancho inteira num só ator, sem cenário, figurino, nem mesmo trilha sonora foi o ponto de partida dessa outra revolução.

Só o corpo e a voz, levados ao extremo nessa transposição de personagens e ambientes. Essa simplicidade traz a narrativa para um teatro despido de artifícios, onde a plateia e o ator trabalham juntos na construção desse espaço, através da imaginação e da presença.

O público não só está assistindo a revolução na rancho, mas, faz secção dela, porquê personagem —votando nas assembleias, repetindo palavras de ordem, reagindo à tragédia; e porquê parceiro criativo— cocriando as imagens, personagens e ambientes desenhados no vazio.

A peça fala claramente da velocidade com que mandamentos são rasurados e da fraqueza de quem assiste silente ao desmonte civilizatório. Em que medida a encenação conversa com as fraturas da democracia brasileira atual sem panfletar?

O vista fabuloso do texto, a transposição de conflitos humanos para o reino bicho, dá a intervalo épica necessária para que o público assista a tragédia dessa rancho sem notar que está diante de um espelho distorcido.

Quando a tragédia da tirania se instaura, o narrativa se torna indumentária, e a fantasia se mostra real. Na cena final, o porco se ergue em duas patas, em varão transformado, e declara a máxima pontual de Orwell: todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que os outros.

Teatro Estúdio – Rua Mentor Nébias, 891, Campos Elíseos, região mediano. Sábado e domingo, 20h. Duração: 80 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. A partir de R$ 50 (meia-entrada) em sympla.com.br


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul aquém.



Folha

LEAVE A RESPONSE

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *