A trajetória de Zezé Motta se confunde com a arte brasileira. A atriz, enfim, esteve no núcleo de alguns dos momentos mais emblemáticos da vida artística vernáculo. Durante a ditadura militar, foi agredida junto com o resto do elenco de “Roda Viva” —peça de Chico Buarque censurada pelo regime e atacada por um grupo de caça aos comunistas.
Em 1976, deu vida à Xica da Silva no filme homônimo de Cacá Diegues, longa considerado um dos alicerces do cinema vernáculo. Por termo, foi pioneira na teledramaturgia ao desmistificar a teoria de que atrizes negras devem permanecer restritas a papéis subalternos. Todos esses diferentes momentos estão agora em um músico que reconta a história da artista.
Em edital no Sesc 14 Bis, no núcleo da capital paulista, “Prazer, Zezé!” mostra os momentos mais luminosos de sua vida, mas também joga luz sobre fatos menos reluzentes. Evidência disso acontece quando a produção retrata as dificuldades financeiras pelas quais ela passou no primícias da curso e os ataques racistas que sofreu ao longo de sua trajetória.
“É uma responsabilidade muito grande viver esse papel, porque a referência está cá e pode chegar a qualquer momento no cinema ou na televisão”, afirma Larissa Noel, que encarna Zezé no espetáculo. “É um repto maior justamente por ela estar viva e poder ver o meu trabalho.”
Rosto espargido no teatro músico, a atriz já participou de outras produções biográficas, porquê as que recontaram a história de Cartola e de Dona Ivone Lara. Ambos os espetáculos eram celebrações póstumas ao trabalho dos músicos, dissemelhante do que acontece desta vez. “Acho que é muito peculiar e importante fazer essa homenagem com ela ainda viva”, diz Noel.
Aos 81 anos, Zezé não exclusivamente está viva, mas também atuante. Neste ano, ela integra o elenco da romance “A Nobreza do Paixão”, folhetim em que interpreta a dona Moça. Já no ano pretérito, rodou o Brasil com o solilóquio “Vou Fazer de Mim um Mundo” —peça que adaptou para os palcos o livro “Eu Sei por que o Pássaro Canta na Gaiola”, da poeta americana Maya Angelou.
Ao longo do solilóquio, a atriz intercalava o texto com apresentações de músicas porquê “A Músculos” e “Assum Preto”. Além da curso profícua na TV e no cinema, a artista é conhecida pela verve músico. Em 1978, depois o sucesso de “Xica da Silva”, decidiu lançar a curso de cantora com um disco que leva seu nome.
Para esse trabalho, Rita Lee e Roberto de Roble compuseram “Muito Prazer”. A música inspirou o nome do músico, que traz algumas das músicas que marcaram o repertório de Zezé, porquê “Magrelinha” e “O Morro Não Engana”.
“Trovar o espetáculo inteiro foi bastante reptador”, diz Noel, a tradutor da atriz. “Tive que ter um entendimento de que a voz dela no primícias da peça era uma e, no discurso do espetáculo, vai ficando mais grave à medida que a personagem envelhece. Precisei fazer esses ajustes vocais na fala e no esquina.”
Um outro repto foi encenar situações de racismo. Logo nos primeiros minutos do músico, a personagem de Noel diz a uma vizinha que conseguiu uma bolsa de estudos para cursar teatro. “‘Não sabia que precisava de curso para fazer empregada doméstica”, disse a mulher, vivida por Luciana Carnieli. Essa cena foi inspirada em uma situação real vivida pela atriz pouco antes de principiar a estudar no Tablado, uma das escolas de teatro mais tradicionais do Rio.
Já em 1984, ela sofreu uma série de ataques racistas quando formou par romântico com Marcos Paulo na romance “Corpo a Corpo”, de Gilberto Braga. Em razão da virulência dos ataques, a produção decidiu expulsar esse incidente durante os ensaios.
“Substanciar isso seria mais dificultoso para os atores que estão fazendo a peça e para todas as pessoas pretas que vão observar ao espetáculo”, diz Noel. “O nosso compromisso é replicar mais o oração da Zezé do que a dor dela.”
Apesar dessas precauções, o racismo é retratado porquê o grande vilão da história. “Não queremos permanecer no meio do caminho sobre esse tópico. É melhor errar com fé do que permanecer no mais ou menos”, diz Débora Dubois, diretora do espetáculo. “Se a Zezé teve força para se posicionar contra esse problema, porquê é que a gente vai forrar agora?”
As dificuldades pelas quais a atriz passou se concentram sobretudo na primeira segmento do espetáculo. A partir do meio para o final, o que vemos é uma artista em curva ascendente até se solidar porquê uma referência em seu ofício. “O Brasil não estava prestes para Zezé Motta e ainda não está. Mas, ainda assim, ela conseguiu transfixar caminhos”, diz Dubois. “Essa é a história de uma mulher preta que deu manifesto.”
