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Peça de Antonio Fagundes reflete sobre relação com plateia
Celebridades Cultura

Peça de Antonio Fagundes reflete sobre relação com plateia – 21/05/2026 – Ilustrada

De repente, um rebate interrompe a entrevista. “Ixi! É o meu celular. Quem será?”, diz Antonio Fagundes, em meio a risadas do elenco de “Sete Minutos – Uma Comédia no Tempo Patente”, peça escrita e dirigida pelo artista. “Ah, é o meu fruto. Dá licença um momento. Oi, filhão!”

A situação veio a calhar. O espetáculo que eles encenam agora no Teatro Cultura Artística, no meio de São Paulo, trata justamente de distrações e interrupções —muitas delas causadas pelos celulares. Onipresentes, os aparelhos se tornaram uma espécie de nêmesis da classe teatral.

Não vasqueiro, há quem decida responder mensagens ou dar uma conferida nas redes sociais durante os espetáculos, prática que Fagundes considera prejudicial ao público. “O que incomoda o ator é ver que a plateia está sendo incomodada. Quando toca o celular, a pessoa que estava rindo ou emocionada é interrompida, comprometendo o voo mágico proporcionado pelo teatro.”

Nos últimos meses, casos do tipo ganharam o noticiário. Eduardo Moscovis parou uma apresentação do solilóquio “O Motociclista no Mundo da Morte” para pedir que uma pessoa deixasse o teatro por estar usando o celular; Soraya Ravenle deu uma bronca na plateia durante o músico “Minha Estrela Dalva”; já Mateus Solano derrubou o aparelho de uma espectadora durante a peça “O Figurante”.

Em “Sete Minutos”, quem deixa a peça não é um testemunha, mas o ator vivido por Norival Rizzo, que protagoniza a peça “Macbeth”, de William Shakespeare. Arrogante diante do público, o veterano se prepara para uma das falas mais notáveis do espetáculo: “A vida não é mais que uma sombra errante. É uma história contada por um idiota, enxurro de som e fúria, significando zero”.

Mas uma sinfonia de tosses e pigarros na plateia faz com que ele vacile e, malogrado, se rebele. Abandona a peça para se entrincheirar no camarim, onde reflete, com altas doses de sarcasmo, sobre a relação entre atores e espectadores.

“Ao longo da minha curso, passei por tudo que aparece nessa peça”, diz Fagundes, que escreveu o texto há 26 anos. “Ela é uma forma de concretizar a minha paixão pelo público e pelo fazer teatral.”

Essa paixão pela plateia, porém, pode ser tão conturbada quanto arrebatadora. Publicado pela pontualidade, Fagundes não permite que os atrasados entrem em seguida o início de suas peças —postura que já valeu ao artista alguns processos.

O mais recente aconteceu no ano pretérito, quando um par decidiu processar o ator e sua mulher, a atriz Alexandra Martins, por ter sido proibido de entrar numa sessão da peça “Dois de Nós”. Na ação, eles pediam R$ 20 milénio por danos morais e R$ 500 por danos materiais.

A Justiça de São Paulo, porém, decidiu em prol dos artistas, argumentando que o horário de início constava no ingresso, assim porquê a orientação de que não seria permitida a ingresso em seguida o início do espetáculo.

Fagundes, inclusive, usou os embates em torno de sua pontualidade porquê disparador de um dos enredos da peça. Na história, 22 atrasados são barrados na porta do teatro. “No processo de geração, a gente faz de tudo para que a plateia se envolva com a história. Ao permitir que alguém entre retardado, você está destruindo todo esse processo.”

A desatenção é outro elemento que tem comprometido o envolvimento das pessoas com os enredos. O problema já era uma veras em 2002, quando Fagundes protagonizou a primeira montagem de “Sete Minutos”.

O título da peça faz referência a uma pesquisa sobre a concentração humana que ele encontrou na estação. De contrato com o estudo, as pessoas conseguiam se manter atentas a uma determinada atividade por até sete minutos.

“Hoje, eu reduziria esse tempo para sete segundos. E tenho susto de que, daqui a 20 anos, sejam sete milionésimos de segundo”, diz o artista. “A nossa atenção realmente está cada vez menor.”

Na história, o personagem principal se vê às voltas não só com o uso de celulares, mas também com bips de relógio e ruídos de gente mascando chiclete. “O teatro era um templo, um lugar sagrado”, diz o decano para o ator em início de curso vivido por Conrado Sardinha. “Agora, parece uma feira. Está marcado para encetar às 21h, eles chegam às 21h15.”

O humor da peça reside no caráter mordaz e zombeteiro do texto, um trabalho que arranca risos justamente por satirizar dramas cotidianos. “Com a comédia, a gente consegue desarmar e atingir melhor as pessoas.”

No palco, porém, poucos estão dispostos a levantar a bandeira branca. Os espectadores retratados na história se concentram no lado de fora do teatro, indignados com o termo declivoso da montagem de “Macbeth”. A eles se somam os 22 que nem tiveram a chance de se sentar na plateia. A confusão é tamanha que é preciso invocar um policial, personagem vivido por Fábio Esposito.

A turba raivosa é representada por duas pessoas. Enquanto Walter Breda dá vida a um senhor desesperançado por não ter visto a peça até o final, Ana Andreatta encarna uma das atrasadas. Revoltada por ter sido barrada, ela lança uma série de críticas à dramaturgia. Os comentários são tão absurdos que se tornam cômicos. “Até dói falar algumas coisas, mas é preciso se desprender para viver o papel”, diz Andreatta.

De certa forma, ela sintetiza a aversão que algumas parcelas da sociedade nutrem pela cultura. “Isso acontece no Brasil há muito tempo, mas está se espalhando também para a política. Essa personagem representa o nosso tempo.”

É justamente o caráter contemporâneo do texto que fez Natália Beukers resolver montar a produção. Na peça, ela é uma empresária teatral que tenta debelar a confusão que incendeia o teatro.

Em seguida ler o texto no ano pretérito, a atriz juntou o elenco e convidou Fagundes para guiar o projeto. “A gente discutiu muito sobre porquê a peça é atual, inclusive até mais do que quando foi escrita”, diz Beukers. “Fagundes conseguiu pôr em palavras o que eu sinto em relação ao teatro.”

A facilidade do ator em transcrever as inquietações de seus pares se deve à relação quase umbilical com a dramaturgia. Apesar da curso profícua nas novelas, ele nunca deixou de lado a ribalta. Com frequência, emendou um trabalho detrás do outro, conciliando a televisão com os palcos. Desta vez não foi dissemelhante.

Enquanto dirigia “Sete Minutos”, ele dava vida ao milionário Arthur Brandão em “Quem Governanta Cuida” –novidade romance da fita das 21h da TV Mundo. Com a obra, ele quebrou um hiato de sete anos fora dos folhetins. Nesse período, porém, não abandonou a dramaturgia, atuando em peças porquê “Baixa Terapia” e “Dois de Nós”.

“Eu costumo recrear que o teatro é um salto triplo mortal sem rede. É lá que você ousa, erra e aprende”, diz o artista. “O teatro é a pátria do ator.”

Folha

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